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Archive for the ‘CINEMA’ Category

De quem é esse reino ou: duas ou três coisas que eu sei sobre o governo Lula

Em dezembro de 2002 fui a uma peça de teatro infantil aqui em Bom Despacho, interior de Minas. A peça era de autoria do professor Júnior Souza e chamava-se De Quem É Esse Reino. Porém, não pretendo fazer quaisquer observações estéticas a respeito da obra, tarefa que deixo para um entendedor ou crítico especializado. O que me interessa aqui é um insuspeito elo que verifico existir, entre o cenário político nacional e aquela peça teatral.

De Quem É Esse Reino tratou das relações de poder num reino imaginário, a Sorbônia. Num dado momento ficava claro que a Sorbônia era o espelho do Brasil. Neste reino, que nos fazia lembrar aquele da novela Que Rei Sou Eu (comentada posteriormente pelo sociólogo Gilberto Vasconcellos como sendo uma novela favorável a Collor), existia uma trama para levar uma serviçal do palácio (negra e acima de seu peso ideal) ao trono, aproveitando-se da velhice da rainha Dinorah. A serviçal (operária?) conseguia, após alguns ardis de “Malvina”, sua colaboradora, chegar ao poder, fazendo-se passar por homem (insinuando o tema do travestismo). O verdadeiro príncipe estava retido por asseclas dos usurpadores. A “serviçal”, uma vez no poder, cometeu a gafe de tentar falar em línguas estrangeiras sem saber: “Murchas graxas”, arranhou em portunhol. A seguir, a “ex-operária” expôs seu programa de governo, explicitamente cortando os direitos dos “serviçais”, e, pelo que me lembro, falou em cortar o décimo terceiro salário, etc. Logo sua “corte” se irritou com os descaminhos do príncipe gritalhão. Enquanto isso, o príncipe herdeiro se libertou daqueles que estavam em seu caminho e veio salvar o reino das mãos da plebe, retomando a linhagem nobre. E a peça se encerrou com a serviçal voltando a servir no palácio.

Pois então: o governo Lula, agora em andamento, lembra a passagem que comentei acima sobre a pessoa que, vinda do povo, ascende ao poder e se volta contra aqueles de sua classe de origem. Confirmei, com Lula, não é só o pobre que entende o pobre, não é o só o negro que entende o negro, não é só o gay que entende o gay. Neste governo, a classe trabalhadora, iludida para pensar que chegou ao poder com Lula, está numa “aliança interclassista” que só faz aprofundar seu jugo, ganhando mais exploração e mais ilusão – e só.

E, em termos de alianças interclassistas, essa que o PT agora fez é muito pior do que aquela que fez o partidão (PCB) com Vargas e Adhemar de Barros no tempo de Stálin, e que foi motivo da saída de muitos intelectuais do partido comunista. Aquela tinha algum lastro na realidade, e foi melhor discutida em sua teorização. A finalidade era reformar o capitalismo no Brasil, encerrando a fase colonial ou semi-colonial; nessa fase, segundo Stálin, a burguesia se cindiria em burguesia associada com o imperialismo e outra mitológica “burguesia nacional progressista”. Um exemplo: Apesar de fraco nos momentos de decisão e outros defeitos, João Goulart, enquanto ministro do trabalho de Vargas, deu aumento de cem por cento para os trabalhadores. Então esse homem não era homem de esquerda? Era “a última lava do vulcão varguista?”, como disse Glauber Rocha? Será que um dia veremos Jacques Wagner dando um aumento desse?

Um dado que me deixa perplexo: o partido que carrega a herança de Vargas, o PDT, está no poder junto com Lula. Penso que o interesse deles é a sobrevivência política, além do apetite por cargos e por poder. Quando Lula chegou ao poder, e até um pouco antes, um historiador respeitado como José Murilo de Carvalho escreveu a sério comparando Lula a Getúlio, de “populista” e “pai dos pobres”. Porém, Lula já deu sinais de anti-varguismo explícito em inúmeras oportunidades, a partir do início de sua carreira, em que dizia que “a CLT é o AI-5 dos trabalhadores”. Numa reportagem na Folha de São Paulo, recentemente, ele se posicionou a respeito da CLT. Luiz Inácio, como ultimamente tem agido e falado, não é nem totalmente contra nem totalmente a favor. Agora ele discorda de algumas coisas na CLT e concorda com outras. Parece uma atitude ponderada, mas não é. Penso que essa é uma das mais curiosas características de seu discurso atual. O que o governo encaminha, sem buscar tornar consensual entre as centrais sindicais, é a retirada (e não a ampliação) dos direitos.

E, como comecei a falar de cultura (e não irei falar sobre Gil, a quem José Ramos Tinhorão acusou de parvenu e arrivista), noto também a tendência para a “falsa ponderação” mais do que evidente quando Lula se encontrou com o pessoal do meio artístico recentemente, para assistir ao filme Amarelo Manga. Lula “ponderou” que não basta só ficar xingando [a hegemonia norte-americana] e também é preciso ter um produto competitivo”. Por que essa é uma falsa ponderação? Com essa fala, Lula se desincumbe, ele que seria o responsável por ajudar a viabilizar essa “arte industrial” que é cinema, e atira a responsabilidade sobre os artistas. E, a respeito do “produto competitivo”, o presidente não detêm conhecimento suficiente para ponderar. O filme brasileiro citado por ele como referência é “Sinhá Moça”, de 1953 e outras produções da Vera Cruz. Ora, vejamos. O homem que “compreendeu o Brasil” segundo um professor como Paulo Ghiraldelli, tem como sua referência cinematográfica a chanchada. Ao contrário do outro “pai dos pobres”, personagem suicida e trágico, esse que nos preside agora é gordinho e falastrão, vivendo uma gozada chanchada da vida real num país que produz menos filmes do que a Argentina.

FONTE: http://revistacidadedosol.blogspot.com/2009/04/de-quem-e-esse-reino-ou-duas-ou-tres.html

Do Heroísmo de Henri Alleg à legalização da tortura num filme comovente

Miguel Urbano Rodrigues

Televisões locais estão a transmitir em França um filme de choque: ”Henri Alleg, o homem de La Question ”.

Com poucas excepções, os grandes media ignoraram a iniciativa, porque o tema é incómodo para os detentores do Poder, conscientes de que as novas gerações assimilaram da história das guerras coloniais da França a visão distorcida que dela apresentam os manuais escolares.

O filme de Christoffe Kantcheff, muito belo, é mais literário do que político, mas provocou mal-estar no Governo de Sarkozy e no Alto Comando do Exército por recordar que a tortura foi uma prática rotineira durante a Guerra da Argélia.

Para avivar a memória dos franceses deste início do século XXI, Kantcheff funde passado e presente, numa obra em que a leitura de passagens de “La Question”, num cárcere imundo, por um grande actor contemporâneo, alterna com o testemunho de Alleg que, ao responder a jovens que o cercam numa sala de conferências, evoca hoje as torturas a que foi submetido.

Publicado no auge da guerra da Argélia em 1958, “La Question” – palavra que a Inquisição utilizava na Idade Media para designar a tortura – foi apreendida, mas a vaga de emoção e escândalo desencadeada pelo livro varreu a França.

Dois Prémios Nobel, Roger Martin du Gard e François Mauriac e dois grandes escritores, Jean Paul Sartre e André Malraux , assinaram então um documento, exigindo do governo francês uma resposta às gravíssimas denúncias de Alleg, torturado pelos paraquedistas do general Massu.

Traduzido em 30 línguas, o livro correu pelo mundo e a indignação suscitada pelas revelações nele contidas, ao enlamearem a imagem de honra cultivada pelo Exército francês, contribuíram para apressar o fim da guerra suja e criminosa da Argélia.

Mas numa época como a nossa de desinformação e perversidade mediática em que jovens franceses, na resposta a inquéritos de opinião, afirmam que a URSS foi aliada da Alemanha nazi durante a II Guerra Mundial, não é surpreendente que ignorem os crimes cometidos nas guerras coloniais do seu país.

É portanto compreensível a emoção suscitada pelo filme de Kantcheff. Milhares de telespectadores ouviram com um sentimento de angústia Henri Alleg ao lado do edifício da antigo centro de terror de El Biar, onde foi torturado barbaramente pelos oficiais da 10º Divisão de paraquedistas, contar estórias de horror que se diria terem ocorrido numa terra inimaginável.

E contudo elas foram bem reais. Essas coisas aconteceram há cinquenta anos.
Henri Alleg, preso por defender como director do diário “Alger Republicain” (já então proibido e encerrado), o direito do povo muçulmano argelino à autodeterminação, foi tratado como um animal por oficiais franceses que o submeteram a torturas que figuravam nos manuais da Gestapo hitleriana.

E a tudo resistiu. Não falou quando lhe aplicaram choques eléctricos na boca e no sexo, e calado permaneceu quando o penduraram de cabeça para baixo, como se fora um porco depois de abatido. Resistiu inclusive à injecção do pentotal, o mal chamado “soro da verdade”.

Neste tempo de crise de civilização, em que os detentores do poder glorificam a religião do dinheiro e tudo fazem para reescrever a Historia, é reconfortante escutar a palavra de Henri Alleg. Como revolucionário e comunista, ele sentiu, depois de transferido de El Biar para a prisão

Barberousse, que era seu dever levar ao conhecimento do povo francês o que se passava naquele centro de horrores. E decidiu escrever não um simples folheto sobre a sua experiência pessoal, mas “La Question”, o livro que se tornaria com os anos best seller mundial.

Utilizando um caderno em que teoricamente preparava a sua defesa, conseguiu fazer sair do presídio, por mãos de advogados vindos de França (alguns assassinados pelos fascistas da OAS), quatro folhas de cada vez, em letra miudinha, o texto que pouco a pouco ia redigindo, iludindo a vigilância dos guardas.

Não foi aliás por acaso que o Partido Comunista Português, então na clandestinidade, distribuiu o livro aos seus militantes, em edição copiografada, por ver em Alleg exemplo de comportamento exemplar de um comunista preso e torturado.

O filme de Christophe Kantcheff procura sobretudo iluminar o homem e a sua coragem, como paradigma do heroísmo individual. O combatente revolucionário aparece esbatido, o que é pena.

Não creio que qualquer dos canais portugueses de televisão o inclua na sua programação. O tema da guerra colonial também em Portugal continua a incomodar aqueles que aqui exercem o poder económico e o político.

É difícil esquecer que nem um só dos oficiais paraquedistas que torturaram Henri Alleg em El Biar foi punido pelos seus actos criminosos. Todos foram promovidos posteriormente de acordo com a antiguidade e alguns condecorados por serviços à pátria.

Sucessivos governos da França e o alto comando do seu Exército não reconheceram até hoje a prática da tortura durante a guerra da Argélia.

É útil esclarecer que no filme de Kantcheff, Alleg, estabelecendo uma ponte entre o passado e o presente, sublinha, dirigindo-se aos jovens que o ouviam, que a tortura no mundo actual não somente permanece como em alguns países tem cobertura institucional. E cita os casos dos EUA e de Israel. No primeiro, o Congresso, sob proposta do ex-presidente George Bush, aprovou uma lei que autoriza certas formas de tortura (algumas foram rotineiras em Guantanamo e no presídio iraquiano de Abu Ghraib). No tocante a Israel, generais sionistas reconheceram que, em 2006, durante a guerra de agressão ao povo do Líbano, utilizaram, com aprovação oficial, manuais das SS nazis.

Senti que deveria escrever estas linhas ao ver “Henri Alleg, l’homme de La Question”. É para mim motivo de orgulho que o autor de Mémoire Algérienne me inclua entre os seus amigos.

Uma longa vida abriu-me a possibilidade de conhecer e por vezes trabalhar com grandes revolucionários do século XX. Em Henri Alleg identifico um dos mais puros e autênticos comunistas que conheci.

Vila Nova de Gaia, 31 de Março de 2009

FONTE: http://odiario.info/articulo.php?p=1106&more=1&c=1

Mostra de Filmes Árabes

PARADISE NOW

O Cine Arth Cinema & Humanidade – UDESC e o Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino convida

O Limoeiro (Lemon tree): Dia 21 de Março às 18h.

Gênero: Drama/ Duração: 106 min

Origem: Israel/ Alemanha/ França – 2008

Direção: Eran Riklis

Debatedores: Alberto Groisman – Antropologia UFSC

Nildomar Freire – Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino

A grande viagem: Dia 28 de Março às 18 h.

Gênero: Drama/ Duração: 108 min.
Origem: França/Marrocos – 2004
Direção: Ismaël Ferroukhi

Debatedores: Claudia Espínola – Antropologia UFSC

Silvinha – Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino

Paradise Now: Dia 30 de Março às 19 h.

(Dia da Terra Palestina e Dia de Mobilização Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino)

Gênero: Drama/ Duração: 90 min
Origem: Alemanha – França – Holanda – Israel – 2005
Direção: Hany Abu-Assad

Debatedores: Paulo Pinheiro Machado – História -UFSC

Khader Othman – Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino

Fauzi El Mashni – Ex -embaixador da Palestina no México

Free Zone: Dia 04 de Abril às 18 h.

Gênero: Drama/ Duração: 94 min

Origem: Bélgica/ França/ Israel/ Espanha – 2005

Direção: Amos Gitai

Debatedores: Ana Brancher- História -UFSC

Silvinha – Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino

Local: Museu da Escola Catarinense (antiga FAED), R. Saldanha Marinho, 196, Centro.

Entrada Franca

Após os filmes haverá debate com convidados.

Apoio: MUSEU DA ESCOLA CATARINENSE – UDESC

informações: cinearth@gmail.com e comitepalestinasc@yahoo.com.br

30 DE MARÇO- DIA DA TERRA PALESTINA
Em 30/03/1976, os palestinos nos territorios ocupados em 1948, entraram em greve e realizaram várias manfisteções contra o confisco de suas terras pelo o governo de Estado Sionista de Israel. A repressão foi forte e varios palestinos foram assassinados pelo brutal exército de Israel. Este dia ficou conhecido como o Dia da Terra, mais um dia de Luta pela Terra e pela libertação da Palestina! Neste dia ocorrem grandes manifestações na Palestina, em especial nos territórios ocupados em 1948.

30 DE MARÇO – DIA INTERNACIONAL DE SOLIDARIEDADE AO POVO PALESTINO
Data escolhida pelo Fórum Social Mundial – realizado em janeiro de 2009 na cidade de Bélem – Brasil para homenagear a luta de resistência do Povo Palestino e o justo direto da implantação do Estado da Palestina em seu Solo Pátrio!

Voçê é o nosso convidado(a)!
Participe e nos ajude na divulgação deste evento!

Conheça nosso blog
http://somostodospalestinos.blogspot.com/

Palestina livre!
Viva a Intifada! Resitência até a vitória!
Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino
“Um beduíno sozinho não vence a imensidão do deserto, é preciso ir em caravana”
www.vivapalestina.com.br
www.palestinalivre.org

‘O Capital’ de Karl Marx será tema de musical na China

Karl Marx (arquivo)

Karl Marx

Marina Wentzel
De Hong Kong para a BBC Brasil

‘O Capital’, de Karl Marx, foi publicado em 1867

A principal obra do pensamento do filósofo alemão Karl Marx, O Capital, vai ser transformada em musical na China, com estreia prevista para o ano que vem.

O estudo político-econômico sobre o capitalismo deverá se transformar em uma colorida narrativa ambientada em uma empresa onde os operários estão insatisfeitos com as condições de trabalho.

Na trama, eles descobrem que estão sendo explorados por um chefe inescrupuloso que só pensa em lucros e se revoltam.

Os trabalhadores decidem agir, mas não conseguem chegar a um acordo. Alguns empregados se amotinam, outros tentam barganhar coletivamente, e um terceiro grupo resolve continuar trabalhando.

Moral socialista

O show contará com números de dança nos moldes dos musicais da Broadway e de shows de Las Vegas.

O diretor da montagem, He Nian, que é conhecido por dirigir cenas de lutas de artes marciais, disse que o musical chinês será “descolado” e incluirá “uma banda ao vivo, danças e canto”.

He Nian, entretanto, ressaltou em entrevista ao jornal Wen Hui Bao que a mensagem será séria e a adaptação primará por fidelidade à ideologia marxista.

“O estilo da apresentação não é o que importa, mas sim que as teorias de Marx não sejam distorcidas”, disse.

Para tanto, os produtores contrataram como consultor o professor de economia Zhang Jun, que leciona na prestigiosa Universidade Fudan de Xangai.

Zhang Jun vai revisar o roteiro para garantir fidelidade às ideias marxistas.

O Ministério de Propaganda, responsável pela censura cultural, ainda não se manifestou sobre a montagem.

Mas Yang Shaolin, gerente do Centro de Artes Dramáticas de Xangai, disse ao jornal britânico The Guardian que hoje em dia é possível conduzir uma montagem moderna de O Capital com “personagens, elementos dramáticos e significado educacional” graças ao momento de explosão criativa que a China vive.

FONTE: http://www.bbc.co.uk/portuguese/cultura/2009/03/090318_operachina.shtml

Homenagem a Zuzu Angel – 31 anos depois

A história recente no Brasil, que vem sendo mais amplamente conhecida, analisada, retratada nas últimas décadas após o fim do regime de ditadura militar (de 1964 a 1985), tem revelado inúmeros exemplos de coragem, dedicação, desprendimento de militantes políticos que lutaram, deram o melhor de si – e muitos a própria vida – para transformar a realidade de opressão e exploração capitalista em que vive o povo brasileiro.

Zuzu Angel não foi uma dessas militantes, era a mãe de um deles – Stuart Angel Jones. Ele iniciou sua participação política no movimento estudantil, quando era aluno da Faculdade de Economia da UFRJ, e passou a atuar no MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro) e na resistência armada à ditadura militar. Era casado com a militante Sonia Moraes (também assassinada posteriormente). Aos 26 anos, Stuart foi seqüestrado, torturado barbaramente e assassinado pelos órgãos de repressão em 1971. Stuart não forneceu informações a seus algozes. Na tortura final, na Base aérea do Galeão, foi arrastado por um jipe, amarrado ao cano de descarga do veículo, obrigado a “cheirar fumaça de óleo diesel”, como denunciou Chico Buarque em sua canção “Cálice”, intoxicado até agonizar.

“Queria cantar por meu menino
Que ele já não pode mais cantar”

Zuzu, à época estilista de renome internacional, soube das torturas e do assassinato do filho por uma carta e desde então, corajosamente, fez de tudo para denunciar as torturas, a morte e a ocultação do cadáver de seu filho, no Brasil e no exterior. Como Stuart tinha cidadania norte-americana levou a denúncia à imprensa no exterior e entregou uma carta a Henry Kissinger, na época Secretário de Estado de Governo dos EUA, quando este estava em visita ao Brasil.

Incansável nessa luta, Zuzu fez também um desfile-denúncia, que ela classificaria como a primeira coleção de moda política brasileira – em que utilizava imagens de anjos amordaçados (alusão a Angel), meninos aprisionados, jipes. O desfile foi levado aos EUA, onde tinha entre suas clientes, artistas como Liza Minelli, Kim Novak, Joan Crawford.

Num momento de ampla censura, opressão e limitação das liberdades democráticas, sua atuação corajosa que denunciava a existência de tortura e de desaparecidos políticos no país ameaçava o regime. Passou a sofrer intimidações, ameaças, perseguições. Deixou cartas, mensagens, inclusive a Chico Buarque, a quem conhecia, afirmando que se acaso aparecesse morta “por acidente”, na verdade teria sido assassinada.

“Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”

E foi o que ocorreu na madrugada de 14 de abril de 1976, quando seu carro foi abalroado na saída do Túnel Dois Irmãos (Rio de Janeiro), que hoje leva o seu nome. Para ela, Chico Buarque compôs a canção “Angélica” (abaixo).

Para saber mais:
Zuleika Angel Jones no sítio do GTNM-RJ

Zuzu Angel – filme dirigido por Sergio Rezende, 2006.

Zuzu

Stuart Edgar Angel Jones no sítio do GTNM-RJ
Sônia Morta e Viva, documentário dirigido por Sérgio Waisman, 1985.

Canções:

Angélica (1977)

Miltinho e Chico Buarque

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar
Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez meu filho suspirar

Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar

Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
Queria cantar por meu menino
Que ele não pode mais cantar

Cálice (1973)
Música em homenagem a Stuart, censurada à época

Chico Buarque e Gilberto Gil

(refrão)
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

(refrão)

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

(refrão)

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

(refrão)

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguem me esqueça

Veja também:
Um trecho do show PHONO 73 realizado no Anhembi, em São Paulo. A música Cálice foi considerada subversiva pelos orgãos da ditadura militar, por isso mesmo sendo cantada com a letra modificada, o microfone do Chico Buarque foi desligado.

Cálice, na interpretação de Maria Bethania

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"A sociedade se auto-destrói"

Dario da Silva*

No filme Mad City (na tradução literal “Cidade Louca”, mas foi titulado no Brasil como “O Quarto Poder”) de Costa-Gavras, 1997, aborda criticamente a realidade enlouquecedora que nos cerca. Na película o desempregado Sam Baily (John Travolta) é empurrado para o suicídio.

Essa sociedade que nos enlouquece é denunciada por Costa-Gavras também no filme Le couperet (O Corte), 2005, explicitamente (como se não bastasse o conjunto do filme) pelos personagens, num diálogo entre “concorrentes”, Bruno Davert (José Garcia) e uma de suas vítimas:

[A VÍTIMA]: – A sociedade enlouqueceu como nunca. Na antiga China, para economizar alimentos, abandonavam aos recém nascidos nas montanhas. Os esquimós deixam aos anciãos em icebergs a deriva deles mesmo. E nós, tiramos do meio os mais produtivos. Eis aí a novidade. A sociedade se auto-destrói.

[BRUNO]: – Sim, tem razão.

[A VÍTIMA]: – Temos milhões de anciãos doentes na cama. Se os deixássemos sucumbir ao calor no verão, a depressão no outono, ao frio no inverno e a excitação na primavera, sanearíamos a economia. Em troca, se livram de nós.

[BRUNO]: – Você também está ficando louco.

[A VÍTIMA]: – A prova é que seríamos capazes de tudo por um trabalho.

Mad Cidy faz lembra o livro O Ateneu, de Raul Pompéia, onde encontramos uma constatação muito semelhante, no livro a escola (que representa a sociedade da época) enlouquece seus integrantes.

Somos pressionados por todos os lado, basta você andar no trânsito de São Paulo, as pessoas ficam “fara-de-si” e acabam se matando por “nada”. Nas escolas norte-americanas, adolecentes sacam metralhadoras e matam quem enxergam pela frente e poderíamos gastar muitas páginas sitando exemplo de como pessoas são enlouquecidas em nosso “glorioso” modo burguês de viver!

O autor faz uma crítica frantal à falaciosa aparência de liberdade da imprensa burguesa, que desfila diariamente no discurso hegemônico. Nas palavras atuais de Lênin “Os capitalistas chamam sempre ‘liberdade’ à liberdade para os ricos de manterem seus lucros e liberdade para os operários de morrerem à fome. Os capitalistas denominam de liberdade de imprensa a liberdade de suborno da imprensa pelos ricos, a liberdade de usar a riqueza para forjar e falsear a chamada opinião pública”.

* Economista.

CINEMA: COSTA-GAVRAS

Constantin Costa Gavras

FILMES DE COSTA-GAVRAS:

- Z, de 1969 – Costa-Gavras (Sinopse);

- Estado de Sítio, de 1973 – Costa-Gavras (Sinopse). Sobre a ditadura no Urugaui;

- Missing, de 1982 – Costa-Gavras (Sinopse). Sobre a ditadura no Chile;

- Amém, de 2001 – Costa-Gavras (Sinopse). Segunda Guerra Mundial.

Costa-Gavras nasceu no vilarejo de Lutra Iréas (em grego λουτρά Ηραίας), na península do Peloponeso, tendo completado os estudos secundários em Atenas. Após a guerra civil grega (1945-1949), deixou a Grécia para estudar Literatura na Sorbonne, em Paris.

Interrompeu seus estudos em 1956, para se inscrever no Instituto de Altos Estudos Cinematográficos (IDHEC), iniciando sua carreira no cinema. Em seguida atuou como assistente de diretores como René Clair, Yves Allegret, René Clement, Marcel Ophuls, Jacques Demy. Henri Verneuil, e Jean Becker.

Ganhou destaque no cenário internacional com o filme Z, de 1969, que denuncia abusos da ditadura militar na Grécia, nos anos 1960. O filme venceu o Oscar e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.

Foi nomeado presidente da Cinemateca Francesa em 1981 e novamente em 2007.

Costa-Gavras é adepto de um cinema político, tendo feito muitos filmes sobre as ditaduras, também na América Latina, dentre os quais um dos seus mais famosos, Desaparecidos, Um Grande Mistério (Missing), de 1982, que aborda a ditadura de Pinochet no Chile.

No final dos anos 80 o cineasta mudou-se para os Estados Unidos, onde voltou a fazer bons filmes, após o criticado Um Homem, Uma Mulher, Uma Noite, de 1979. Seu penúltimo filme, “Amém”, de 2002, criou polêmica ao retratar a relação da Igreja Católica com o Nazismo. Seu último filme, de 2005, foi “O Corte”, cuja temática é o desemprego e a concorrência no mercado de trabalho.

FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Constantin_Costa-Gavras

TAMBÉM: http://en.wikipedia.org/wiki/Costa_Gavras

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