Fiscalizar o REUNI?

Debater e combater o REUNI!
Dario da Silva
Há quem defenda que devemos “fiscalizar” o REUNI, com base no argumento de que “uma vez implantado não há o que fazer que não seja fiscalizar”. Com esse método devemos nos resignar com o capitalismo, pois já está implantado, agora nos resta fatalmente uma posição política reformista, conservadora… Examinemos mais de perto o argumento.
Um projeto de universidade e mesmo de sociedade baseado na necessária superação da propriedade privada dos meios de produção então precisaria primeiro perguntar se já está implantado, ou seja, o que não exite não tem possibilidade ou viabilidade de vir a ser… Os utopistas e os idealistas de toda ordem ficariam indignados, argumentando o direito de sonhar!
Vamos com calma, confrontemos não a idéia com o real, mas primeiro real com real (partes e momentos da totalidade), ou seja, tomemos este “implantado” real não como um dogma, em si, mas como ele se desenvolveu, com gênese e processo. O REUNI (Decreto do MEC, que institui o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais) não pode ser tomado pela miopia institucionalista, pois estaríamos tomando a aparência pela essência. A suposta reforma que o governo Lula institucionalizou é na verdade a manifestação particular brasileira de uma reestruturação mais geral, orquestrada pelo Banco Mundial a serviço da novo padrão de acumulação de capital. As mudanças não se limitam à construção de prédios, elas são principalmente novas relações sociais (professores 20 horas, por exemplo, novas bolsas e etc…), onde a hegemonia capitalista fica fortalecida com relação à posição anterior.
Na Europa o Tratado de Bolonha, que por sua vez está ligado à Declaração de Sorbone, foi o consenso burguês prévio sobre o conjunto de medidas que transformaram universidades européias para torná-las mais adequadas a acumulução de capital, cobrando mensalidades, alterando os currículos e uma série de outras mudanças para formar uma força de trabalho que responda às novas necessidades do capital. A implementação do REUNI não é uma “peculiaridade brasileira”, larguemos o óculos neokantiano de Weber (cuja manifestação mais fulgar se limita a dizer, “mas aqui é diferente”) e atentemos para a realidade de que é diferente e igual ao mesmo tempo, que é a manifestação concreta de uma totalidade, ou seja, é a manifestação brasileira do desenvolvimento do capitalismo como um todo. O capitalismo não é um prédio, é uma modo de produção, que possui forma (relações sociais) e conteúdo (forças produtivas – pessoas e meios de produção), esse modo de produção para seguir existindo, precisa revolucionar-se, mudar tudo para ficar tudo como está, reformar a universidade para seguir sendo uma universidade a seu serviço. O REUNI não existia, no início dessa década era só um potência, algo que poderia vir a ser, hoje é realidade, um conjunto de mediadas que na essência impedem uma reforma universitária em troca de algumas concessões, é o “bolsa família” da universidade pública.
A realidade não se guia pelo dogma da estática. Assim como algo que não existe pode passar a existir, algo que existe pode deixar de existir e digo mais, a realidade é movimento:
“Existe um movimento contínuo de crescimento das forças produtivas, de destruição de relações sociais, de formação das idéias: o único imutável é a abstração do movimento: mors immortalis” (K. Marx, Miséria da Filosofia)
A implementação do REUNI não foi automática, as mudanças são fruto da contradição interna ao modo, só foram bem sucedidas por conta do momento atual da luta de classes, favorável à burguesia, inclusive dependeu da composição do bloco conservador hoje na gerência do estado, que conta com a participação da pequena burguesia política – ou social democracia retardatária (PT e seus satélites, como PCdoB) – para vencer a resistência dos trabalhadores em geral e seus aliados, em especial o movimento estudantil, que hoje vive uma apatia desoladora, desorganizado na base, criando condições para que sua entidade histórica aparelhada por uma direção francamente oportunista que a transformou em correia de transmissão do governo Lula.
A ação do bloco conservador dentro e fora do governo, a situação de recuo da classe trabalhadora e a desorganização do ME foram condições sem as quais o REUNI não existiria. Das condições existentes e da luta de classes é que depende a implementação deste ou daquele projeto, dentro e fora do “espaço eleitoral”. Tal projeto conservador de imutável nada tem e é equivocado reduzí-lo a um prédio ou curso novo que abriu. Não se pode deixar enredar pela falsa idéia de que combater o REUNI é fechar os curso abertos por ele ou destruir prédio por ele erguidos. Isso equivale ao noivo que ao chagar em casa, após a cerimônia do casamento, proibe a noiva de tirar o vestido, com o argumento de que se ela assim o fizer, ele perderá a esposa, isso é tomar o superficial pelo essencial!
O REUNI não é um prédio, nem é algo eterno. Mas não se pode apresentar uma solução que supera o REUNI sem que se faça a crítica deste, que se estude mais aprofundadamente essa restruturação. Sem crítica, criamos solo fértil para soluções conservadoras, como a “fiscalização do REUNI”.
Na perspectiva de uma projeto de universidade articulado com a superação da propriedade privada, o REUNI deve ser combatido e superado pela universalização do ensino universitário gratuito, de qualidade e a serviço da população e não da acumulação de capital. Combater o REUNI não é derrubar pédios e fechar cursos, é denunciar a distribuição de migalhas para para impedir a universalização da formação e, principalmente, lutar para conseguir tal mudança.
Debater e combater o REUNI e NÃO meramente fiscalizá-lo, esta é a posição de quem defende uma Universidade Popular!


Tegucigalpa, 28 jun. 2009, Tribuna Popular TP.