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Archive for the ‘LITERATURA’ Category

A persistência do Trabalho infantil na agricultura e na indústria

capa

Livro

A persistência do Trabalho infantil na agricultura e na indústria (Santa Catarina no contexto brasileiro)


A persistência do Trabalho infantil na agricultura e na indústria (Santa Catarina no contexto brasileiro)

autores: Bernardete Wrublevski Aued, Célia Regina Vendramini, Claudio Marcelo Garcia de Araújo; Daiana Castoldi Lencina; Fabiana Duarte; José Kauling Sobrinho; Maria dos Anjos Viella; Ricardo Selke e Soraya Franzoni Conde.

Florianópolis, Insular, 2009.

Resumo:

O livro nasceu da necessidade de explicar o trabalho infantil no campo, contexto no qual as crianças estão trabalhando muito, mais do que imaginamos à primeira vista. A pesquisa revelou que as crianças estão trocando a infância pela vida adulta e muitas delas se inserem no que a OIT (Organização Internacional do Trabalho) denomina de “piores formas de trabalho infantil”, ou seja, trabalhos que mutilam, deixam seqüelas físicas e abortam a possibilidade de se tornarem adultos preparados para trabalhos qualificados. Analisamos algumas situações que envolvem trabalho infantil entre produtores de fumo, de cebola, de tomate e de calçados, todos em Santa Catarina. Neles constatamos a defesa de crianças no trabalho devido à sua baixa estatura (as crianças são mais adaptadas para a coleta das primeiras folhas do fumo, “o baixeiro”, que assegura à família renda em dinheiro, após um longo tempo de investimentos na lavoura). No plantio da cebola, a inserção da criança ocorre mediante a flexibilidade da coluna cervical que se enverga até os dedos tocarem o chão. No plantio da cebola o solo é arado com o auxílio de um micro trator. Em seguida, a muda de cebola é plantada, manualmente, uma por uma, tudo isso com a coluna envergada sob a forma da letra “u” invertido, um procedimento que se repete, num dia, 15 000 vezes e numa jornada que começa antes das 7 horas e vai, seguramente, até 20 horas, nesta etapa do processo. Nestes contextos, o trabalho infantil é defendido como princípio educativo e, ademais, com vantagens técnicas, por exemplo, por sua agilidade e envergadura de coluna. Como questão central delimitamos entender a pertinência de um ordenamento legal que proíbe o trabalho infantil e uma sociedade que tolera o referido trabalho e, muitas vezes, o incentiva. Por que a sociedade consente em utilizar a força de trabalho prematuramente a ponto de destruir seu potencial desenvolvimento? Nestes processos chama a atenção a defesa do trabalho manual como valor pedagógico quando, na atualidade, a vida se pauta pela aplicação consciente da ciência; que o trabalho precoce inibe o desenvolvimento das capacidades físicas e psicológicas superiores da criança na medida em que é negado o tempo da brincadeira com o corpo, dos jogos e de vivência de papéis sociais no “faz de conta”; que a exploração infantil no trabalho não surge como um fenômeno isolado, mas como singularidade do contexto geral de reprodução da força de trabalho sob a égide da produção destrutiva. A presença de trabalho infantil, como explica Mészáros (2006), paradoxalmente, revela o aumento da destruição do pressuposto do capital. Portanto, o que parece estar em questão é a “educação do amanhã”: quantos cérebros inventivos irão sair das fumacentas carvoeiras, das fileiras intermináveis de cebola, maçã, fumo ou tomate? Do corte da cana de açúcar? Que educação e que sociedade devem ser criadas para que no futuro não tenhamos crianças exploradas no trabalho?

FONTE: http://carobellag.wordpress.com

Comissão dos Direitos Humanos do Partido Comunista Paraguaio

COMUNICADO À OPINIÃO PÚBLICA

Passada a recente e violenta repressão das forças policiais contra famílias agremiadas na Federação Nacional Campesina (FNC) em Caaguazú no domingo passado, manifestamos nosso mais enérgico repúdio e exigimos que encerrem imediatamente semelhantes práticas dos tempos da ditadura de Strosner.
Responsabilizamos o Ministro do Interior, Rafael Filizzolla e o Comandante da Polícia, Viviano Machado, pelas ações atentatórias ao estado de direito já que estes, ante a incredulidade generalizada, pretendem enganar o povo inventando desculpas absurdas, ao velho estilo da ditadura.

Recordemos que esta repressão não é a única empreendida pela dupla Filizzola-Machado contra setores historicamente marginalizados. Desde a manifestação da Frente Social e Popular (FdyP) reprimida duramente por pedir o destituição do Procurador Geral, passando pelos casos de tortura contra habitantes de Concepción na tristemente lembrada “Operación Jeroviha”, cópia grosseira do “Plan Colombia”, seguindo com os despejos em todo o país que incluem queimas de casas, golpes e disparos contra mães e filhos como o ocorrido no assentamento localizado no Km 28 de Alto Paraná.

Nenhum destes graves fatos denunciados foi devidamente investigado pelas autoridades para penalizar os responsáveis, demonstrando cumplicidade e complacência.

Proclamamos que o direito à vida está muito acima do direito à propriedade dos latifundiários. O acesso à terra é uma direito humano para todos os paraguaios e não só para alguns que envenenam o meio ambiente. A Procuradoria, que não tem dúvida em acusar os lutadores sociais, não demonstra a mesma atitude com a agroindústria da soja e as madeireiras, que violam as leis ambientais.

Fazemos uma advertência ao Presidente Fernando Lugo para que assuma com propriedade seu compromisso histórico no processo de mudanças e não permita que traidores e covardes atentem contra as esperanças que os setores populares depositam em seu governo.

Senhor Presidente seja coerente com o que prometeu durante sua campanha. Não foi para ser agredido e baleado que o povo o elegeu.

Por último, chamamos todos os setores comprometidos com a vigência dos direitos humanos que tomem posição sobre esta ascendente onda repressiva própria dos tempos que acreditávamos superados.

Comissão dos Direitos Humanos do

Partido Comunista Paraguaio

Assunção, 7 de julho de 2009.

Traduzido por Dario da Silva

FONTE: http://www.pcb.org.br/paraguai10.htm

Quando os trabalhadores perderem a paciência

Mauro Iasi*

As pessoas comerão três vezes ao dia
E passearão de mãos dadas ao entardecer
A vida será livre e não a concorrência
Quando os trabalhadores perderem a paciência
Certas pessoas perderão seus cargos e empregos
O trabalho deixará de ser um meio de vida
As pessoas poderão fazer coisas de maior pertinência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

O mundo não terá fronteiras
Nem estados, nem militares para proteger estados
Nem estados para proteger militares prepotências
Quando os trabalhadores perderem a paciência

A pele será carícia e o corpo delícia
E os namorados farão amor não mercantil
Enquanto é a fome que vai virar indecência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Não terá governo nem direito sem justiça
Nem juizes, nem doutores em sapiência
Nem padres, nem excelências

Uma fruta será fruta, sem valor e sem troca
Sem que o humano se oculte na aparência
A necessidade e o desejo serão o termo de equivalência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Depois de dez anos sem uso, por pura obscelescência
A filósofa-faxineira passando pelo palácio dirá:
“declaro vaga a presidência”!

* Mauro Iasi é Professor da UFRJ e membro do Comitê Central do PCB (Partido Comunista Brasileiro)

FONTE: http://www.pcb.org.br/paciencia.htm

INTRODUÇÃO À CRÍTICA DA FILOSOFIA DO DIREITO DE HEGEL

Karl Marx

Karl Marx

Karl Marx

A miséria religiosa é, de um lado, a expressão da miséria real e, de outro, o protesto contra ela. A religião é o soluço da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma situação carente de espirito. É o ópio do povo.
A verdadeira felicidade do povo implica que a religião seja suprimida, enquanto felicidade ilusória do povo. A exigência de abandonar as ilusões sobre sua condição é a exigência de abandonar uma condição que necessita de ilusões. Por conseguinte, a crítica da religião é o germe da critica do vale de lágrimas que a religião envolve numa auréola de santidade.
A crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas para que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva. A crítica da religião desengana o homem para que este pense, aja e organize sua realidade como um homem desenganado que recobrou a razão a fim de girar em torno de si mesmo e, portanto, de seu verdadeiro sol. A religião é apenas um sol fictício que se desloca em torno do homem enquanto este não se move em torno de si mesmo.

Na Alemanha, a crítica da religião chegou, no essencial, ao fim. A crítica da religião é a premissa de toda crítica.

A existência profana do erro ficou comprometida, uma vez refutada sua celestial oratio pro aris et focis [oração pelo lar e pelo ócio].

O homem que só encontrou o reflexo de si mesmo na realidade fantástica do céu, onde buscava um super-homem, já não se sentirá inclinado a encontrar somente a aparência de si próprio, o não-homem, já que aquilo que busca e deve necessariamente buscar é a sua verdadeira realidade.

A religião não faz o homem, mas, ao contrário, o homem faz a religião: este é o fundamento da crítica irreligiosa. A religião é a autoconsciência e o autosentimento do homem que ainda não se encontrou ou que já se perdeu. Mas o homem não é um ser abstrato, isolado do mundo. O homem é o mundo dos homens, o Estado, a sociedade. Este Estado, esta sociedade, engendram a religião, criam uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido. A religião é a teoria geral deste mundo, seu compêndio enciclopédico, sua lógica popular, sua dignidade espiritualista, seu entusiasmo, sua sanção moral, seu complemento solene, sua razão geral de consolo e de justificação. É a realização fantástica da essência humana por que a essência humana carece de realidade concreta. Por conseguinte, a luta contra a religião é, indiretamente, a luta contra aquele mundo que tem na religião seu aroma espiritual.

A miséria religiosa é, de um lado, a expressão da miséria real e, de outro, o protesto contra ela. A religião é o soluço da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma situação carente de espirito. É o ópio do povo.

A verdadeira felicidade do povo implica que a religião seja suprimida, enquanto felicidade ilusória do povo. A exigência de abandonar as ilusões sobre sua condição é a exigência de abandonar uma condição que necessita de ilusões. Por conseguinte, a crítica da religião é o germe da critica do vale de lágrimas que a religião envolve numa auréola de santidade.

A crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas para que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva. A crítica da religião desengana o homem para que este pense, aja e organize sua realidade como um homem desenganado que recobrou a razão a fim de girar em torno de si mesmo e, portanto, de seu verdadeiro sol. A religião é apenas um sol fictício que se desloca em torno do homem enquanto este não se move em torno de si mesmo.

Assim, superada a crença no que está além da verdade, a missão da história consiste em averiguar a verdade daquilo que nos circunda. E, como primeiro objetivo, uma vez que se desmascarou a forma de santidade da autoalienação humana, a missão da filosofia, que está à serviço da história, consiste no desmascaramento da autoalienação em suas formas não santificadas. Com isto, a crítica do céu se converte na crítica da terra, a critica da religião na critica do direito, a crítica da teologia na crítica da Política.

A exposição seguinte – uma abordagem a este trabalho – não se prende diretamente ao original, senão a uma cópia deste, à filosofia alemã do direito e do Estado, pelo simples fato de se ater à Alemanha.

Se nos quiséssemos ater ao status quo alemão, ainda que da única maneira adequada, isto é, de modo negativo, o resultado continuaria a ser anacrônico. A mesma negação de nosso presente político já se acha coberta de pó no sótão de trastes velhos dos povos modernos. Ainda que nos recusemos a recolher estes materiais empoeirados, continuaremos conservando os materiais sem poeira. Ainda que neguemos as situações existentes na Alemanha de 1843, apenas nos situaremos, segundo a cronologia francesa, em 1789, e ainda menos no ponto focal dos dias atuais.

E o caso da história alemã gabar-se de um movimento ao qual nenhum povo do firmamento histórico se adiantou a ela nem a seguirá. Com efeito, os alemães compartem as restaurações dos povos modernos, sem haver participado de suas revoluções. Passamos por uma restauração, em primeiro lugar, porque outros povos se atreveram a fazer uma revolução e, em segundo lugar, porque outros povos sofreram uma contra-revolução; a primeira vez porque nossos senhores tiveram medo e a segunda porque não o tiveram. Tendo à frente nossos pastores, só uma vez nos encontramos em companhia da liberdade: no dia de seu enterro.

Uma escola que legitima a infâmia de hoje com a infâmia de ontem; uma escola que declara ato de rebeldia todo grito do servo contra o knut, da mesma maneira que este é um knut pesado de anos, tradicional, histórico; uma escola a que a história só mostre seu a posteriori, como o Deus de Israel a seu servo Moisés, numa palavra, a Escola histórica do Direito teria sido inventada pela história alemã se já não fosse por si uma invenção desta. É Shylock, mas o criado Shylock, que por cada libra de carne cortada do coração do povo, jura e perjura por sua escritura, por seus títulos históricos, por seus títulos cristão-germânicos.

Em troca, certos entusiastas bondosos, germanistas pelo sangue e liberais pela reflexão, vão buscar além da história, nas selvas teutônicas virgens, a história da nossa liberdade. Mas, se só se encontra na selva, em que se distingue a história da nossa liberdade da história da liberdade do javali? Além disso, é fato sabido que quanto mais alguém se interna no bosque, tanto mais ressoa sua voz fora deste. Por conseguinte, deixemos em paz a selva virgem teutônica.

Guerra aos estados de coisas alemães! É certo que se encontram abaixo do nível da história, abaixo de toda critica, mas continuam a ser, apesar disto, objeto de crítica, assim como o criminoso, por não se achar abaixo do nível da humanidade, não deixa de ser objeto do verdugo. Na luta contra eles, a crítica não é uma paixão do cérebro, mas o cérebro da paixão. Não é o bisturi anatômico, mas uma arma. Seu objeto é o adversário, que não procura refutar, mas destruir. O espírito daquelas situações já foi refutado. Não são dignas de ser lembradas; devem ser desprezadas como existências proscritas. Não há necessidade da crítica esclarecer este objeto frente a si mesma, pois dele já não se ocupa. Esta crítica não se conduz como um fim em si, mas, simplesmente, como um meio. Seu sentimento essencial é a indignação; sua tarefa essencial, a denúncia.

Trata-se de descrever a surda pressão mútua de todas as esferas sociais, umas sobre as outras, a alteração geral e imprudente, a limitação que tanto se reconhece quanto se desconhece, enquadrada dentro do modelo de um sistema de governo, que, vivendo da conservação de tudo aquilo que é lamentável, não é outra coisa senão o que há de lamentável no governo. Espetáculo lamentável! A divisão da sociedade até o infinito nas raças mais diversas, que se enfrentam umas às outras com pequenas antipatias, más intenções e brutal mediocridade e que, precisamente em razão de sua mútua posição cautelosa são tratadas por seus senhores, Sem exceção e com algumas diferenças, como existências sujeitas a suas concessões. Até isto, até o fato de se verem dominadas, governadas e possuídas tem que ser reconhecido e confessado por elas como uma concessão do céu! E, por outro lado, aqueles senhores, cuja grandeza se encontra em relação inversa ao numero delas!

A crítica que se ocupa deste conteúdo é a crítica da competição. Durante a competição não interessa saber se o adversário é nobre, da mesma categoria, se é um adversário interessante; trata-se de vencê-lo. Trata-se de não conceder aos alemães nem um só instante de ilusão e de resignação. Há que tornar a opressão real ainda mais opressiva, acrescentando àquela a consciência da opressão; há que tornar a infâmia ainda mais infamante, ao proclamá-la. Há que pintar a todas e a cada uma das esferas da sociedade alemã como a partie honteuse [partes pudendas] da sociedade alemã; há que obrigar estas relações escravizadas a dançar, cantando-lhes sua própria melodia. Há que ensinar o povo a ter pavor de si mesmo, para infundir-lhe ânimo. Com isto, se satisfaz uma indisfarçável necessidade do povo alemão; as necessidades dos povos são, em sua própria pessoa, os últimos fundamentos de sua satisfação.

Esta luta contra o status quo alemão tampouco carece de interesse para os povos modernos, pois o status quo alemão é a consagração franca e sincera do antigo regime, e o antigo regime, a debilidade oculta do Estado moderno. A luta contra o presente político alemão é a luta contra o passado dos povos modernos; as reminiscências deste passado continuam a pesar ainda sobre eles e a oprimi-los. É instrutivo para estes povos ver como o antigo regime, que neles conheceu sua tragédia, representa agora sua comédia; é instrutivo para estes povos vê-lo como o espectro alemão. Sua história foi trágica enquanto encarnou o poder preexistente do mundo e a liberdade como uma ocorrência pessoal; numa palavra, enquanto acreditou e devia acreditar na sua legitimidade. Enquanto o antigo regime e a ordem existente no mundo lutavam contra um mundo em estado de gestação, traziam de sua parte um erro histórico-universal e não de caráter pessoal. Portanto, sua catástrofe foi trágica.

Pelo contrário, o atual regime alemão, que é um anacronismo, uma contradição flagrante com todos os axiomas geralmente reconhecidos, a nulidade do antigo regime posta em evidência frente ao mundo inteiro, só imagina crer em si próprio e exige do inundo a mesma fé ilusória. Se acreditasse em seu próprio ser, acaso iria escondê-lo sob a aparência de um ser estranho e procurar sua salvação na hipocrisia e no sofisma? Não, o moderno regime antigo já não é mais do que o comediante de uma ordem social cujos heróis reais já morreram. A história é conscienciosa e passa por muitas fases antes de enterrar as velhas formas. A comédia é a última fase de uma forma histórico-universal. Os deuses da Grécia, já tragicamente feridos no Prometeu acorrentado de Ésquilo, morreram ainda outra vez, comicamente, nos colóquios de Luciano. Por que esta trajetória histórica? Para que a humanidade possa separar-se alegremente de seu passado. Este alegre destino histórico é que nós reivindicamos para as potências políticas da Alemanha.

Não obstante, tão logo a moderna realidade político-social se veja submetida à crítica, isto é, tão logo a critica ascende ao plano dos problemas verdadeiramente humanos é que se encontra fora do status quo alemão, pois de outro modo abordaria seu objeto por baixo de si mesma. Um exemplo: a relação entre a indústria, o inundo da riqueza em geral e o mundo político é um problema fundamental da época moderna. De que forma este problema começa preocupar os alemães? Sob a forma de normas protetoras, de sistema proibitivo, da economia nacional. O germanismo passou dos homens a matéria e, um belo dia, nossos donos do algodão e nossos heróis do ferro viram-se convertidos em patriotas. Assim, pois, na Alemanha começa-se pelo reconhecimento da soberania do monopólio rumo ao interior, conferindo-lhe a soberania rumo ao exterior. Isto significa que na Alemanha se começa por onde terminam a França e a Inglaterra. A velha situação insustentável contra a qual se levantam teoricamente estes países e que só são suportáveis como são suportados os grilhões, é saudada na Alemanha como a primeira luz do amanhecer de um belo futuro, que apenas se atreve a passar de uma ladina teoria à mais implacável prática. Enquanto na França e na Inglaterra o problema é colocado em termos de economia política ou império da sociedade sobre a riqueza, na Alemanha os termos são outros: economia nacional ou império da propriedade privada sobre a nacionalidade. Portanto, na França e na Inglaterra trata-se de abolir o monopólio, que chegou a suas últimas conseqüências; na Alemanha, trata-se de levar o monopólio a suas últimas conseqüências, No primeiro caso, trata-se da solução; no segundo, simplesmente da contradição. Exemplo suficiente da forma alemã que ali adotam os problemas modernos, de como nossa história, tal qual o recruta imbecil, não teve até agora outra missão senão a de praticar a repetir exercícios já feitos.

Por conseguinte, se todo o desenvolvimento da Alemanha não saísse dos marcos do desenvolvimento político alemão, um alemão apenas poderia, muito bem, participar dos problemas do presente, do mesmo modo como um russo deles pode participar. Mas, se um indivíduo livre não se acha vinculado às cadeias da nação, ainda menos livre se vê a nação inteira diante da libertação de um indivíduo. Os citas não investiram um só passo contra a cultura grega porque a Grécia contasse um deles entre seus filósofos.

Por sorte, nós, alemães, não somos citas.

Assim como os povos antigos viveram sua pré-história na imaginação, na mitologia, nós, alemães, vivemos nossa pós-história no pensamento, na filosofia. Somos contemporâneos filosóficos do presente, sem ser seus contemporâneos históricos. A filosofia alemã é o prolongamento ideal da história da Alemanha. Portanto, se ao invés das oeuvres incompletes [Obras incompletas] de nossa história real, criticamos as oeuvres posthumes [Obras póstumas] de nossa história ideal, a filosofia, nossa crítica figura no centro dos problemas dos quais diz o presente: That is the question [Eis a questão].

O que para os povos progressistas é a ruptura prático com as situações do Estado moderno, na Alemanha, onde estas situações nem sequer existem, isto significa, antes de mais nada, a ruptura critica com o reflexo filosófico destas situações.

A filosofia alemã do Direito e do Estado é a única história alemã que se acha a par com o presente oficial moderno. Por isto, o povo alemão não tem outro remédio senão incluir também esta sua história feita de sonhos entre suas situações existentes e submeter à crítica não só estas mesmas situações mas, também e ao mesmo tempo, seu prolongamento abstrato. O futuro deste povo não pode limitar-se nem à negação de suas condições estatais e jurídicas reais, nem à execução indireta das condições ideais de seu Estado e de seu direito, já que a negação direta de suas condições reais já está envolvida em suas condições ideais e a execução indireta de suas condições ideais quase a fez sobreviver ao contemplá-las nos povos vizinhos. Assim, ao reclamar a negação da filosofia, o partido político prático da Alemanha tem toda razão. Seu erro não reside na exigência, mas em deter-se na simples exigência, que não coloca nem pode colocar seriamente em prática. Acredita colocar em prática aquela negação pelo fato de voltar as costas à filosofia e de resmungar, olhando para o lado oposto, umas tantas frases banais e mal-humoradas. A limitação de seu horizonte visual não inclui também a filosofia da realidade alemã no Estreito de Bering, nem chega a imaginá-la quimericamente, inclusive, entre a prática alemã e as teorias que a servem. Exige-se uma conexão com os germes reais da vida, mas esquece-se que o germe real da vida do povo alemão só brotou, até agora, de sua caixa craniana. Numa palavra, não podereis superar a filosofia sem realizá-la.

A mesma injustiça, só que com fatores inversos, cometeu o partido político teórico, que partia da filosofia.

Este partido só via na luta atual a luta critica da filosofia com o mundo alemão, sem imaginar sequer que a filosofia anterior pertencia ela mesma a este mundo e era um complemento, ainda que apenas seu complemento ideal. Assumia uma atitude crítica frente à parte contrária, mas não adotava um comportamento crítico para consigo mesmo, já que partia das premissas da filosofia e, ou se detinha em seus resultados adquiridos ou apresentava como postulados e resultados diretos da filosofia, os postulados e resultados de outra origem, embora estes supondo que sejam legítimos – só podem manter-se de pé, pelo contrário, mediante a negação da filosofia anterior, da filosofia como tal. Propomo-nos a tratar mais a fundo deste partido. Seu erro fundamental pode resumir-se assim: acreditava poder realizar a filosofia sem superá-la.

A crítica da filosofia alemã do direito e do Estado, que encontra em Hegel sua expressão máxima, a mais conseqüente e a mais rica, é simultaneamente as duas coisas, tanto a análise crítica do Estado moderno e da realidade a ele relacionada como a negação decisiva de todo o modo anterior de consciência política e jurídica alemã, cuja expressão mais nobre, mais universal, elevada à ciência, é precisamente a mesma filosofia especulativa do direito. Assim como a filosofia especulativa do direito – este pensamento abstrato e superabundante do Estado moderno cuja realidade continua a ser o além, apesar deste além se encontrar do outro lado do Reno – só poderia processar-se na Alemanha, assim também, por sua vez e inversamente, a imagem alemã, conceitual, do Estado moderno – abstraída do homem real – só se tornou uma possibilidade porque e enquanto o mesmo Estado moderno se abstrai do homem real ou satisfaz o homem total de modo puramente imaginário. Em política, os alemães pensam o que os outros povos fazem. A Alemanha era sua consciência teórica. A abstração e a arrogância de seu pensamento corria sempre em parelha com a limitação e a mesquinhez de sua realidade. Por conseguinte, se o status quo do Estado alemão exprime a perfeição do antigo regime, o acabamento da lança cravada no Estado moderno, o status quo da consciência do Estado alemão expressa a imperfeição do Estado moderno, a falta de consistência de seu próprio corpo

Enquanto adversário decidido do modo anterior de consciência política alemã, o Estado orienta a crítica da filosofia especulativa do direito não para si mesma, mas para tarefas cuja solução exige apenas um meio: a prática.

Indagamo-nos: pode a Alemanha chegar a uma prática à la hauter des principes [à altura dos princípios], isto é, a uma revolução que a eleve não só ao nível oficial dos povos modernos mas, também, ao nível humano que será o futuro imediato destes povos!

As armas da crítica não podem, de fato, substituir a crítica das armas; a força material tem de ser deposta por força material, mas a teoria também se converte em força material uma vez que se apossa dos homens. A teoria é capaz de prender os homens desde que demonstre sua verdade face ao homem, desde que se torne radical. Ser radical é atacar o problema em suas raízes. Para o homem, porém, a raiz é o próprio homem. A prova evidente do radicalismo da teoria alemã e, portanto, de sua energia prática, consiste em saber partir decididamente da superação positiva da religião. A crítica da religião derruba a idéia do homem cama essência suprema para si próprio. Por conseguinte, com o imperativo categórico mudam todas as relações em que o homem é um ser humilhado, subjugado, abandonado e desprezível, relações que nada poderia ilustrar melhor do que aquela exclamação de um francês ao tomar conhecimento da existência de um projeto de criação do imposto sobre cães: Pobres cães! Querem tratá-los como se fossem pessoas!

Até historicamente a emancipação teórica tem um interesse especificamente prático para a Alemanha. O passado revolucionário da Alemanha é, de fato, um passado histórico: é a Reforma. Como então no cérebro do frade, a revolução começa agora no cérebro do filósofo.

Lutero venceu efetivamente a servidão pela devoção porque a substituiu pela servidão da convicção. Acabou com a fé na autoridade porque restaurou a autoridade da fé. Converteu sacerdotes em leigos porque tinha convertido leigos em sacerdotes. Libertou o homem da religiosidade externa porque erigiu a religiosidade no interior do homem. Emancipou o corpo das cadeias porque sujeitou de cadeias o coração.

Mas, se o protestantismo não foi a verdadeira solução, representou a verdadeira colocação do problema. Já não se tratava da luta do leigo com o sacerdote que existe fora dele, mas da luta com o sacerdote que existe dentro de si próprio, com sua natureza sacerdotal. E, se a transformação protestante do leigo alemão em sacerdote emancipou os papas leigos, os príncipes, com toda sua clerezia, se emancipou privilegiados e filisteus, a transformação filosófica dos alemães com espírito sacerdotal em homens emancipará o povo. Mas, do mesmo modo que a emancipação não se deteve nos príncipes, tampouco a secularização dos bens se deterá no despojo da igreja, realizada sobretudo pela hipócrita Prússia. A guerra dos camponeses, fato mais radical da história alemã, lançou-se contra a teologia. Hoje, com o fracasso da própria teologia, o fato mais servil da história alemã, nosso status quo, se lançará contra a filosofia. As vésperas da Reforma, a Alemanha oficial era o servo mais submisso de Roma. As vésperas de sua revolução, é o servo submisso de algo menos que Roma, Prússia e Áustria, de fidalguetos rurais e filisteus,

Não obstante, uma dificuldade fundamental parece opor-se a uma revolução alemã radical.

Com efeito, as revoluções necessitam de um elemento passivo, de uma base material. A teoria só se realiza numa nação na medida que é a realização de suas necessidades. Ora, ao imenso divórcio existente entre os postulados do pensamento alemão e as respostas da realidade alemã corresponderá o mesmo divórcio existente entre a sociedade alemã e o Estado e consigo mesma! Não basta que o pensamento estimule sua realização; é necessário que esta mesma realidade estimule o pensamento -

Todavia, a Alemanha não escalou simultaneamente com os povos modernos as fases intermediárias da emancipação política. Praticamente,. não chegou sequer às fases que superou teoricamente. Como poderia, de um salto mortal, remontar-se não só sobre seus próprios limites, como também e ao mesmo tempo, sobre os limites dos povos modernos, sobre limites que na realidade devia sentir e aos quais devia aspirar como a emancipação de seus limites reais! Uma revolução radical só pode ser a revolução de necessidades radicais, cujas premissas e lugares de origem parecem faltar completamente.

Não obstante, se a Alemanha só abstratamente acompanhou o desenvolvimento dos povos modernos, sem chegar a participar ativamente das lutas reais deste, não é menos verdade que, de outro lado, partilhou os sofrimentos deste mesmo desenvolvimento, sem usufruir seus benefícios e satisfações parciais. A atividade abstrata de um lado, corresponde o sofrimento abstrato do outro. Assim, numa bela manhã, a Alemanha se encontrará em nível idêntico à decadência européia antes mesmo de haver atingido o nível da emancipação européia. Poderíamos compará-la a um idólatra que agonizasse, vítima do cristianismo.

Fixemo-nos, antes de mais nada, nos governos alemães, e os veremos de tal modo impulsionados pelas condições da época, pela situação da Alemanha, pelo ponto de vista da cultura alemã e, finalmente, por seu próprio instinto certeiro, a combinar os defeitos civilizados do mundo dos Estados modernos, cujas vantagens não possuímos, com os defeitos bárbaros do antigo regime, de que nos podemos jactar até a saciedade, que a Alemanha, senão por prudência, pelo menos à falta desta tem que participar cada vez mais da constituição de Estados que estão muito além de seu status quo. Acaso, por exemplo, há no mundo algum país que partilhe tão simplesmente como a chamada Alemanha constitucional todas as ilusões do Estado constitucional sem partilhar de suas realidades. Ou não teria que ser necessariamente uma ocorrência do governo alemão o fato de associar os tormentos da censura aos tormentos das leis de setembro na França, que pressupõem a liberdade de imprensa. Assim como no panteão romano se reuniam os deuses de todas as nações, no sacro império romano germânico se reúnem os pecados de todas as formas de estado. Que este ecletismo chegará a alcançar um nível até hoje inimaginado, o garante, de fato, o enfado estético-político de um monarca alemão que aspira desempenhar, se não através da pessoa do povo, pelo menos em sua própria, se não para o povo, pelo menos para si mesmo, todos os papéis da monarquia: a feudal e a burocrática, a absoluta e a constitucional, a autocrática e a democrática. A Alemanha, como a ausência do presente político constituído num mundo próprio, não poderá derrubar as barreiras especificamente alemães sem derrubar a barreira geral do presente político.

Para a Alemanha, o sonho utópico não é a revolução radical, não é a emancipação humana geral, mas, ao contrário, a revolução parcial, a revolução meramente política, a revolução que deixa de pé os pilares do edifício. Sobre o que repousa uma revolução parcial, uma revolução meramente política? No fato de emancipar uma parte da sociedade burguesa e de instaurar sua dominação geral, no fato de uma determinada classe empreender a emancipação geral da sociedade a partir de sua situação especial. Esta classe emancipa toda a sociedade, mas apenas sob a hipótese de que toda a sociedade se encontre na situação desta classe, isto é, que possua, por exemplo, dinheiro e cultura ou que possa adquiri-los.

Nenhuma classe da sociedade burguesa pode desempenhar este papel sem provocar um momento de entusiasmo em si e na massa, momento durante o qual confraterniza e se funde com a sociedade em geral, com ela se confunde e é sentida e reconhecida como seu representante geral, que suas pretensões e direitos são, na verdade, os direitos e ai pretensões da própria sociedade, que esta classe é realmente o cérebro e o coração da sociedade. Somente em nome dos direitos gerais da sociedade pode uma classe especial reivindicar para si a dominação geral. E, para atingir esta posição emancipadora e poder, portanto, explorar politicamente todas as esferas da sociedade em benefício da própria esfera, não bastam por si sós a energia revolucionária e o amor próprio espiritual. Para que coincidam a revolução de um povo e a emancipação de uma classe especial da sociedade burguesa, para que uma classe valha por toda a sociedade, é necessário, pelo contrário, que todos os defeitos da sociedade se condensem numa classe, que uma determinada classe resuma em si a repulsa geral, que seja a incorporação do obstáculo geral; é necessário, para isto, que uma determinada esfera social seja considerada como crime notório de toda a sociedade, de tal modo que a emancipação desta esfera surja como autoemancipação geral. Para que um estado seja par excellenee o estado de libertação, é necessário que outro seja o estado de sujeição por antonomásia. O significado negativo geral da nobreza e do clero franceses condicionou a significação positiva geral da classe inicialmente delimitadora e contraposta, da burguesia.

Todavia, todas as classes especiais da Alemanha carecem de conseqüência, rigor, arrojo e intransigência capazes de convertê-las no representante negativo da sociedade. Além do mais, todas carecem da grandeza de espírito que pudesse identificar uma delas, ainda que momentaneamente, com o espírito do povo; todas carecem da genialidade que infunde o entusiasmo do poder político ao poder material, da intrepidez revolucionária que lança o desafio ao inimigo: Nada SOU e tudo deveria ser. Esse modesto egoísmo que faz valer e permite que outros também façam valer suas próprias limitações é o fundo básico da moral e da honradez de indivíduos e classes na Alemanha. Por isto, a relação existente entre as diversas esferas da sociedade alemã não é dramática, mas épica. Cada uma delas começa a sentir e a fazer chegar às outras suas pretensões, não ao se ver oprimida, mas quando as circunstâncias do momento, sem intervenção sua, criam uma base social sobre a qual, por sua vez, possa exercer pressão. Até mesmo o amor próprio moral da classe média alemã repousa sobre a consciência de ser o representante geral da mediocridade filistéia de todas as demais classes. Portanto, não são apenas os reis alemães que ascendem ao trono mal à propos [Inoportunamente], mas todas as esferas da sociedade burguesa, que sofrem sua derrota antes de terem festejado a vitória, que desenvolvem seus próprios limites antes de terem ultrapassado os limites que se opõem a estes, que fazem valer sua pusilanimidade antes de fazer valer sua arrogância, de tal modo que até mesmo a oportunidade de desempenhar um grande papel desaparece antes de existir e que cada classe, tão logo começa a lutar com aquela que lhe está acima, vê-se envolvida na luta com aquela que lhe está abaixo. Daí porque os príncipes estão em luta contra a burguesia, os burocratas contra a nobreza e os burgueses contra todos eles, enquanto o proletário começa a lutar contra o burguês. A classe média nem sequer se atreve a conceber o pensamento da emancipação de seu ponto de vista, já que o desenvolvimento das condições sociais, do mesmo modo que o progresso da teoria política, se encarregam de revelar este mesmo ponto de vista como algo antiquado ou, pelo menos, problemático.

Na França, basta que alguém seja alguma coisa para querer ser todas as coisas. Na Alemanha, ninguém pode ser nada se não quiser renunciar a tudo. Na França, a emancipação parcial é o fundamento da emancipação universal. Na Alemanha, a emancipação universal é a conditio sine que non de toda emancipação parcial. Enquanto na França é a realidade da emancipação gradual que tem de engendrar a liberdade total, na Alemanha, ao contrário, é justamente a sua impossibilidade. Na França, toda classe é um político idealista que se sente como representante das necessidades sociais em geral, ao invés de sentir-se como representante de uma classe especial. Por isto, o papel emancipador passa por turnos, em movimento dramático, entre as distintas classes do povo francês até atingir, finalmente, a classe que já não realiza a liberdade social sob a hipótese de certas condições que se encontram à margem do homem e que, não obstante, foram criadas pela sociedade humana, mas que organiza todas as condições de existência a partir da hipótese da liberdade social. Pelo contrário, na Alemanha, onde a vida prática tão pouco tem de espiritual assim como a vida espiritual de prático, nenhuma classe da sociedade burguesa sente a necessidade nem a capacidade de emancipação geral até ver-se obrigada a isto por sua situação imediata, pela necessidade material, pelas suas próprias cadeias.

Onde reside, pois, a possibilidade positiva da emancipação alemã?

Resposta: na formação de uma classe com cadeias radicais, de uma classe da sociedade burguesa que não é uma classe da sociedade burguesa; de um estado que é a dissolução de. todos os estados; de uma esfera que possui um caráter universal por seus sofrimentos universais e que não reclama nenhum direito especial para si, porque não se comete contra ela nenhuma violência especial, senão a violência pura e simples; que já não pode apelar a um título histórico, mas simplesmente ao título humano; que não se encontra em nenhuma espécie de contraposição particular com as conseqüências, senão numa contraposição universal com as premissas do Estado alemão; de uma esfera, finalmente, que não pode emancipar-se sem se emancipar de todas as demais esferas da sociedade e, simultaneamente, de emancipar todas elas; que é, numa palavra, a perda total do homem e que, por conseguinte, só pode atingir seu objetivo mediante a recuperação total do homem. Esta dissolução da sociedade como uma classe especial é o proletariado.

O proletariado só começa a surgir na Alemanha, mediante o movimento industrial que desponta, pois o que forma o proletariado não é a pobreza que nasce naturalmente, mas a pobreza que se produz artificialmente; não é a massa humana oprimida mecanicamente pelo peso da sociedade, mas aquela que brota da aguda dissolução desta e, em especial, da dissolução da classe média, ainda que gradualmente, como se compreende, venham a incorporar-se também a suas fileiras a pobreza natural e os servos cristãos-germânicos da gleba

Ao proclamar a dissolução da ordem universal anterior, o proletariado nada mais faz do que proclamar o segredo de sua própria existência, já que ele é a dissolução de fato desta ordem universal. Ao reclamar a negação da propriedade privada, o proletariado não faz outra coisa senão erigir a princípio de sociedade aquilo que a sociedade erigiu em princípio seu, o que já se personifica nele, sem intervenção de sua parte, como resultado negativo da sociedade. O proletariado está amparado, então, em relação ao mundo que nasce, da mesma razão que assiste o rei alemão em relação ao mundo existente, ao denominar o povo seu povo, como ao cavalo seu cavalo. Ao declarar o povo sua propriedade privada, o rei se limita a expressar que o proprietário privado é o rei.

Assim como a filosofia encontra no proletariado suas armas materiais, o proletariado encontra na filosofia suas armas espirituais. Com a mesma rapidez que o raio do pensamento penetra a fundo neste puro solo popular, se efetuará a emancipação dos alemães como homens.

Resumindo e concluindo:

A única emancipação praticamente possível da Alemanha é a emancipação do ponto de vista da teoria, que declara o homem essência suprema do homem. Na Alemanha, a emancipação da Idade Média só é possível como emancipação paralela das superações parciais da Idade Média. Na Alemanha, não se pode derrubar nenhum tipo de servidão sem derrubar todo tipo de servidão em geral. A meticulosa Alemanha não pode revolucionar sem revolucionar seu próprio fundamento. A emancipação do alemão é a e emancipação do homem. O cérebro desta emancipação é a filosofia; seu coração, o proletariado. A filosofia não pode se realizar sem a extinção do proletariado nem o proletariado pode ser abolido sem a realização da filosofia.

Quando se cumprirem todas as condições interiores, o canto do galo gaulês anunciará o dia da ressurreição da Alemanha.

Karl Marx, 1843

FONTE: http://www.culturabrasil.pro.br/criticadafilosofiadodireito.htm

O polvo

Ai… um polvo!
Tentáculos na sala de estar.
Nada mais incômodo que
tentáculos pegajosos.
Este pedaço de vida
que voa pela janela
não é aquele onde eu dizia:
“Eu já resolvi isto”?
Jurei ser diferente.
Papai casou com mamãe,
perante a Igreja e a Lei.
Juraram ser felizes:
mentiram!
Nem Deus, nem os juizes
parecem se preocupar.
Eu não…
Reneguei altares,
cuspi nos papéis amarelados
dos livros de registros civil.
Comigo não…
Apaixonei-me
por olhos meigos,
por uma boca pequena
que guardava palavras doces
e beijos serenos.
Dormimos juntos
moramos juntos
juntos vivemos
comemos
saímos
amamos.
O dia
o café
o almoço
a escova de dentes
os hábitos
o hálito
os sábados
os mitos
os fatos
os filhos.
O ato falho
as falas
as facas
as falas feito facas
as feridas
Meus filhos me olham
como a dizer:
“Papai casou-se com mamãe.
nada jurou a ninguém,
nem a Deus, nem a Lei.
Não registrou seu casamento burguês
por isso pensa que sua infelicidade
é diferente”.
Tem um polvo na sala de estar!
Nada mais grudento que um polvo.
Seus tentáculos enormes e infinitos
crescem a cada dia.
Logo eu que detesto polvos.
Como, por diabos, apareceu este por aqui?
Como teria crescido tanto?
Isto eu penso
enquanto, calmamente,
alimento o polvo
como faço todos os dias.

Mauro Iasis.

Se os Tubarões Fossem Homens

Bertolt Brecht

Se os tubarões fossem homens, perguntou a filha de sua senhoria ao senhor K., seriam eles mais amáveis para com os peixinhos?

Certamente, respondeu o Sr. K. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adoptariam todas as medidas sanitárias adequadas. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, ser-lhe-ia imediatamente aplicado um curativo para que não morresse antes do tempo.

Para que os peixinhos não ficassem melancólicos haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar alegremente em direcção à goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar.

O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam rejeitar toda tendência baixa, materialista, egoísta e marxista, e denunciar imediatamente aos tubarões aqueles que apresentassem tais tendências.

Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, proclamariam, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não se podem entender entre si. Cada peixinho que matasse alguns outros na guerra, os inimigos que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia uma comenda de herói.

Se os tubarões fossem homens também haveria arte entre eles, naturalmente. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores magníficas, e as suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos a nadarem com entusiasmo rumo às gargantas dos tubarões. E a música seria tão bela que, sob os seus acordes, todos os peixinhos, como orquestra afinada, a sonhar, embalados nos pensamentos mais sublimes, precipitar-se-iam nas goelas dos tubarões.

Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa no paraíso, ou seja, na barriga dos tubarões.

Se os tubarões fossem homens também acabaria a ideia de que todos os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores até poderiam comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles, mais frequentemente, teriam bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem interna entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, polícias, construtores de gaiolas, etc.

Em suma, se os tubarões fossem homens haveria uma civilização no mar.

FONTE: http://tempoderebeldia.blogspot.com/2009/06/se-os-tubaroes-fossem-homens.html

BOLÍVIA: Saudação a Chuquisaca, no Bicentenário do Grito Libertário

Nota do Secretariado Nacional do PCB: O Partido Comunista Boliviano (PCB) apóia o processo de mudanças na Bolívia, com independência com relação ao governo progressista de Evo Moralez – do qual não participa – e ao seu partido (MAS). Os comunistas bolivianos compõem uma frente de esquerda, com partidos, organizações e movimentos políticos e sociais do campo anticapitalista. Não se trata de uma coligação eleitoral, mas de uma frente de luta de massas, organizada em torno de uma plataforma política e de uma coordenação.

A ALIANÇA REVOLUCIONÁRIA ANTIIMPERIALISTA (ARA) saúda com grande emoção patriótica o bicentenário do pronunciamento revolucionário de 25 de Maio de 1809, no qual o povo de Chuquisaca [estado boliviano, cuja capital é Sucre] se manifestou claramente a favor da Independência da metrópole espanhola.

Para a Aliança esta é, ao mesmo tempo, a mostra de mais um episódio do amadurecimento dos ânimos independentistas que em 1780 e 1781 se manifestaram com as rebeliões de Tupac Katari e Tupac Amaru.

A Aliança considera que o povo boliviano não deve deixar-se levar por falsas discussões em torno à preferência das datas históricas das manifestações independentistas, na América Latina de hoje. É indiscutível que foi em Chuquisaca que se deu o primeiro grito das aspirações libertárias. Isso não significa que foi melhor ou maior que outras rebeliões em outras cidades. Em Chuquisaca se iniciou a guerra pela independência contra o colonialismo espanhol e de onde se estenderia a todo o espaço geográfico do que hoje é a América Latina e o Caribe.

O pronunciamento patriótico de Chuquisaca expressou, nas condições e circunstâncias imperantes, a ânsia de independência e liberdade. Neste desejo libertário não se pode ignorar a participação do povo simples e oprimido, da mulher chuquisaquenha, representada por Juana Azurduy de Padilla.

O pronunciamento de Charcas é também fruto das ideias da intelectualidade avançada, dos Zudañez, Monteagudo, Moreno e outros. Estas se articularam com as que amadureceram em outros confins e que depois retornaram gloriosamente à Bolivia com Bolívar, Sucre e os exércitos libertadores.

Se as ideias foram libertárias e avançadas, é de se lamentar que anos depois, os frutos das primeiras lutas, foram aproveitados por aqueles que herdaram o poder colonial, suas riquezas e seus privilégios. Esta é outra grande lição da história, que deve servir nas atuais circunstâncias que atravessam o país.

Como há mais de 180 anos, hoje há elementos que, opondo-se ao processo de mudanças e transformações antioligárquicas e antiimperialistas, distorcem a verdade histórica e pretendem inverter a roda da história.

Ao reiterar nossa calorosa saudação ao povo chuquisaquenho neste bicentenário de seu gesto libertário reafirmamos nossa convicção de que as ideias de liberdade, independência, democracia e desenvolvimento soberano de nossa Pátria, serão uma realidade e honrarão aos precursores.

La Paz, 25 de maio de 2009.

Comissão Social
Roberto Carranza

Coordenação Social
Alex Aranda

Movimiento Popular Endógeno
Edgardo Vásquez

Partido Comunista de Bolivia
Marcos Domich

Partido Comunista (MLM)
Jesús Taborga

Patria Socialista – Movimiento Guevarista
Lauraro Chanove

Partido Socialista
Fortunato Esquivel

CODEPANAL
Luis Nuñez

Tradução: Rodrigo Oliveira Fonseca

FONTE: http://www.pcb.org.br/bolivia7.htm

Roda Viva – Chico Buarque

Chico Buarque

Chico Buarque

“Roda Viva” (Chico Buarque):

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu…

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá …

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração…

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá…

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração…

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou…

A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá…

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração…

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou…

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá …

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração…

A propósito de Domenico Losurdo, Nietzsche, il ribelle aristocratico.

Nietzsche, il ribelle aristocratico

Político, no metafísico
Luis Alejandro Rossi
CONICET – Universidad Nacional de Quilmes (Argentina)

A propósito de Domenico Losurdo, Nietzsche, il ribelle aristocratico. Biografia intellettuale e bilancio critico. Turín: Bollati Boringhieri, 2002, 1167 p.

Esta monumental biografía intelectual de Friedrich Nietzsche publicada en Italia hace tres años y que acaba de ser reimpresa es decididamente una obra intempestiva. Desde el título el lector puede apreciar que está frente a un texto polémico: en oposición al macizo predominio de la interpretación ontológica de Nietzsche, Domenico Losurdo, profesor de la universidad de Urbino, autor de numerosas obras de historia de la filosofía y las ideas políticas e intelectual de fuerte compromiso político, se propone establecer un balance crítico de la obra del filósofo, que será esencialmente político-ideológico. Podría objetarse que ello no implica ninguna novedad. Si recordamos el balance que Gianni Vattimo hace sobre la recepción de Nietzsche en Italia desde los años sesenta, el filósofo turinés encontraba que el “Nietzsche italiano” tenía una relación más estrecha con la actualidad política que el “Nietzsche francés” [1] . De todos modos, estas afirmaciones de Vattimo también podrían ser vistas como paradójicas ¿De qué modo podría relacionarse con la política una obra cuya interpretación dominante se convirtió principalmente en ontológica y estética? ¿Qué tendría de llamativo que la obra nietzscheana fuera interpretada en relación estrecha con la política? ¿Acaso ello no era ya usual incluso durante la propia vida del filósofo? ¿No fue Nietzsche reconocido por el nazismo como su fuente inspiradora? Hoy en día, todas estas preguntas sufren una refracción por el impacto producido por la publicación de los cursos de Martin Heidegger sobre Nietzsche. Si bien esos cursos se remontaban a la segunda mitad de la década del treinta y a la primera mitad de la del cuarenta, es a partir de su reunión en dos volúmenes y su publicación en 1961 que se genera un verdadero renacimiento de la filosofía nietzscheana.

En 1968, cuando la ola todavía no había alcanzado su altura máxima y, ciertamente estaba bastante alejada de las playas alemanas, Jürgen Habermas todavía podía afirmar que tanto los usos políticos como de crítica cultural de la obra nietzscheana estaban concluidos y que el filósofo había perdido por completo su “capacidad de contagio” [2] . Con ello no hacía más que expresar un humor particular alemán hacia quien era visto como la más molesta entre las herencias molestas de la filosofía y el pensamiento alemanes y de la que había que tomar distancia, si se quería hacer de Alemania una democracia al estilo occidental, siguiendo las mismas líneas de juicio crítico a la cultura alemana anterior a 1945, a la que se veía como radicalmente ajena a los valores democráticos [3] . En cambio, será en los ámbitos filosóficos franceses e italianos, en los que el uso de Nietzsche no debía pasar previamente por ninguna aduana político-ideológica, donde se observen los frutos de ese renacimiento, cuyas consecuencias, y no sólo las filosóficas, hacen que una frase como la de Habermas suene hoy extraña. Y esos frutos también tendrían su expresión incluso en el campo de la investigación erudita, ya que actualmente la edición de referencia de las obras de Nietzsche es la que realizaron dos italianos: Giorgio Colli y Mazzino Montinari. Con ello queremos señalar que, como se desprende del artículo de Vattimo antes citado, si hablamos de “renacimiento” de la filosofía nietzscheana, no debe entenderse que la ocupación académica con las obras del filósofo hubiera cesado luego del paroxismo político al que el nazismo la había llevado, sino que, más allá de la continuidad de los estudios académicos y filológicos sobre esa obra, a partir de la publicación del texto heideggeriano Nietzsche se convierte sin más en un autor contemporáneo y la discusión filosófica se centrará paulatinamente sobre su obra. Todo ello es historia conocida y no necesitamos detenernos a explicar el impacto de la obra nietzschena en la cultura de los últimos cuarenta años. Por el contrario, sí debe señalarse un aspecto particular de este renacimiento nietzscheano, el cual concierne directamente al tema de nuestro interés: la interpretación que Heidegger desplegó en sus textos sobre Nietzsche implicó su despolitización [4] ; esto es, al hacer de Nietzsche la figura que cierra la tradición metafísica occidental, los usos políticos de esa obra, esencialmente ligados a una consideración crítica de la cultura y que más allá de su eventual orientación debían sobrellevar el pesado lastre que implicaba el uso político de Nietzsche por parte del nazismo, pasan a un segundo plano frente al diálogo entre Nietzsche y los clásicos de la filosofía establecido por Heidegger. El filósofo queda así sustraído a la utilización política que se había venido haciendo de su obra desde principios del siglo XX en Alemania. Pero lo notable es que esta despolitización fue el preámbulo de la apropiación de esa obra, una década después y con propósitos absolutamente diversos, por parte de autores que se reivindicaban de izquierda, tanto en Francia como en Italia. Por supuesto que esta operación no lograba convencer a todos: en el epílogo que en 1986 agregó a su Perfil ideológico del siglo XX en Italia, Norberto Bobbio señalaba su incomodidad frente a “[...] un Nietzsche al que le han puesto un gorro frigio que no le queda bien, muy distinto del que invocaba a las aristocracias guerreras y entonaba himnos a la voluntad de poder” [5] . El libro del que nos ocupamos puede muy bien ser considerado una réplica a este consenso sobre Nietzsche, el cual oscila desde la interpretación de su obra a partir de la apoliticidad completa hasta su exégesis como inspirador de una nueva filosofía de la emancipación y la diferencia [6] .

Domenico Losurdo, que es un destacado intérprete de Hegel, paradójicamente ha suscitado mayor atención fuera de Italia con una obra, al igual que ésta que comentamos, dedicada a otra figura, si se permite la expresión, del “bando enemigo” [7] . El evidente objetivo de crítica ideológica, que se manifiesta tanto en su libro sobre Heidegger como en éste que comentamos, es lo que ha provocado mayores reparos respecto de Nietzsche, il ribelle aristocratico en el amplio debate que tuvo lugar en Italia luego de su publicación [8] . Algunos comentaristas, la mayoría en tono crítico y otros como elogio, han asociado el tipo de crítica ideológica presentado por Losurdo en esta obra como continuador de la crítica lukacsiana a los “destructores de la razón”. Sin embargo, creemos que en la estructura del Nietzsche… es más importante la filiación gramsciana del planteo básico del texto a partir de los cuales el autor reconstruye el recorrido político-ideológico del filósofo que las eventuales coincidencias con las valoraciones de Lukacs sobre Nietzsche (incluso Losurdo reconoce que las acusaciones de maniqueísmo dirigida al filósofo húngaro respecto de El asalto a la razón estaban justificadas). Insistimos sobre este punto porque a nuestro juicio el objetivo central del libro de Losurdo no es demostrar, como algunos críticos le atribuyeron y como intentó infructuosamente Lukács, el carácter reaccionario e irracionalista de todas las figuras de la filosofía alemana desde Schelling a Heidegger, sino sacar a la luz la esencial politicidad de la filosofía de Nietzsche y su profunda relación con los debates políticos de su tiempo a partir de la consideración del filósofo como una especie de intelectual orgánico del “partido de la contrarrevolución”. A primera vista, parecería que no hay muchas diferencias con la posición lukacsiana, pero el examen de la obra rápidamente nos permite comprender que frente a la construcción teleológica del concepto “irracionalismo” por parte de Lukács, el cual desemboca directamente en el nazismo, Losurdo intenta comprender a Nietzsche en su tiempo, sin convertirlo en el maestro inspirador de los nazis avant la lettre. El autor italiano señala irónicamente que el filósofo fue contemporáneo del IIº Reich y no del IIIº, y un Reich de diferencia no es poco.

A través de sus distintas formulaciones, el radicalismo aristocrático nietzscheano se presenta siempre como una voluntad organizadora (mejor dicho, reorganizadora) de la cultura de su tiempo. Si en la filosofía nietzscheana pueden reconocerse diferentes períodos y, por tanto, un pensamiento que no puede ser reducido a un sistema y paralizado mediante la disolución de las contradicciones que en él se encuentran, sin embargo, Losurdo demuestra que algunos aborrecimientos de Nietzsche fueron constantes a lo largo de toda su vida. Nietzsche, il ribelle aristocratico está planteado a partir de la dicotomía revolución-contrarrevolución, especialmente durante la segunda mitad del siglo XIX. El libro está construido a partir del impacto sobre la cultura y la sociedad que ejercen tanto las ideas revolucionarias como las actividades políticas que ellas impulsan. Este impacto debe ser entendido en el marco de lo que el autor, tomando una expresión de Giovanni Gentile, denomina la “circulación del pensamiento europeo” [9] . Frente a la reducción de las filosofías a estereotipos nacionales, hecho que con el ascenso de los nacionalismos fue agudizándose paulatinamente desde fines del siglo XIX hasta llegar a su máxima exacerbación durante el siglo XX (en particular en lo que se refiere a las consideraciones sobre la filosofía alemana), Losurdo reconstruye el carácter europeo de las ideas que mueven las reflexiones de Nietzsche. La radicalización de la crítica a la revolución no es exclusiva del filósofo alemán, sino que ella nos envía a motivos que están ampliamente presentes en la cultura y la publicística europea de la segunda mitad del siglo XIX.

Losurdo presenta al Nietzsche de los inicios como un joven profesor que interviene en el debate intelectual alemán mostrando fuertes coincidencias con la visión sobre la nacionalidad que tenía el partido nacional-liberal. El recorrido político de Nietzsche comienza con una experiencia sobrecogedora: la noticia de que durante los acontecimientos de la Comuna en París los revolucionarios habían incendiado el museo del Louvre. Por más que pocos días después la noticia se reveló falsa, ella revelaba la verdad profunda de la revuelta de las masas. En los años posteriores, Nietzsche se alejará cada vez más de sus iniciales posiciones nacional-liberales, pero su abominación de las ideas revolucionarias lo acompañará durante toda su vida. El hilo conductor de la interpretación de Losurdo es seguir las vicisitudes que va adquiriendo la ideología contrarrevolucionaria en el pensamiento de Nietzsche, quien es retratado por este libro como un atento intérprete de los cambios sociales y políticos de su tiempo, es decir, todo lo contrario de un filósofo inactual. No obstante, este enfoque tiene también otra consecuencia: el pensamiento de Nietzsche se presenta en el texto como una serie de réplicas a los motivos ideológicos revolucionarios, que actúan como la fuerza impulsora de los debates políticos en los que Nietzsche voluntariamente intervendría con sus obras. Este planteo es el que acerca, en una primera aproximación, la indagación de Losurdo con la interpretación de Lukács. Pero, como ya señalamos, los objetivos de la reconstrucción realizada por el filósofo italiano son otros: señalar el caráter esencialmente político del recorrido intelectual de Nietzsche a través de la inclusión de sus textos en una densa red formada por textos “altos” y “bajos” de su época. En un análisis comparado de los procesos ideológicos (en el sentido amplio del término), el libro reconstruye minuciosamente el diálogo de la obra nietzscheana con los textos de Burckhardt, Schopenhauer, Wagner, Carlyle y Taine, pero también con los de Treitschke, Gobineau, Dühring, Galton, etc. Obviamente, ello no implica afirmar que Nietzsche concordara con las posiciones de estos autores, sino que si queremos comprender qué significan las intervenciones políticas nietzscheanas, estos autores son imprescindibles al momento de establecer los parámetros para interpretarlas. Desde esta perspectiva, diríamos que el libro de Losurdo es un ejemplo de la observación de Carl Schmitt acerca del carácter polémico de los conceptos políticos (por más que el filósofo alemán no se encuentre entre los autores de referencia de Losurdo). El abordaje utilizado en esta obra no difiere mucho del que, desde una perspectiva no marxista, utilizaría un historiador de las ideas como Quentin Skinner: se explican los sentidos de los conceptos y textos nietzscheanos reconstruyendo los contextos de significación que eran propios de la época. Sólo a partir de la explicación de la intención significante de los protagonistas y de la forma en que en ese contexto podían ser entendidas, se interpretan los textos; lo cual no significa entenderlos exclusivamente en los términos de su contexto social [10] . Especialmente ilustrativa de esta metodología es la forma en que Losurdo explica las críticas de Nietzsche al antisemitismo: frente al afán de las exégesis contemporáneas por aceptarlas rápidamente como prueba de la ajenidad del filósofo a los usos que de su obra hicieron los nazis, Losurdo expone detalladamente con qué estereotipos culturales era identificado el judaísmo en ese momento y con qué otras ideas estaba asociado el antisemitismo en el debate político alemán, siendo una posición recurrente de muchos “cristianos sociales”. La crítica a los antisemitas (el “anti-antisemitismo” de Nietzsche) tiene un significado diferente si se atiende al hecho de que se dirige específicamente contra los antisemitas alemanes, los cuales, además, tienen un discurso fuertemente populista y anticapitalista. Por el contrario, en la obra del filósofo se encontrarán numerosos elogios a la nobleza y a la dirigencia política rusas, las cuales, en esos años, eran en Europa las fuerzas propagadoras del antisemitismo más violento, no sólo en las ideas, sino sobre todo en los hechos. De este modo, el rechazo de Nietzsche al antisemitismo recupera el valor polémico que tenía dentro del debate político alemán, sin transformarlo incautamente en una posición de principio del filósofo. A partir de este tipo de asimetrías nietzscheanas, Losurdo restituye al pensamiento político de Nietzsche una coherencia que no se encuentra en su carácter sistemático (que no tiene), sino en la permanente radicalización de sus posturas originarias. De allí que las preguntas que Losurdo hace a la obra de Nietzsche no parecerían propiamente “filosóficas”, es decir, que remitan a las usuales consideraciones ontológicas, sino culturales, de modo que se reconstruye el pensamiento político de Nietzsche a partir de sus tomas de posición sobre temas tan diversos como el pesimismo, la discusión del mito, la crítica al chauvinismo, el peligro revolucionario, la cultura moderna, el antisemitismo, etc.

A ello se debe agregar otra importante decisión hermenéutica y es el rechazo del filósofo italiano a aceptar las estrategias contemporáneas para la interpretación de los textos nietzscheanos. Losurdo se rehúsa a dar cuenta de temas como la esclavitud o la “cría” (Zuchtung) [11] en forma metafórica o alegórica. Este es uno de los puntos críticos más sólidos de la obra respecto de las interpretaciones hoy vigentes: se evaden los problemas históricos concretos que se desprenden de los textos nietzscheanos imaginando que se trata de metáforas. De ese modo se produce la remoción de los significados desagradables que evocan hoy en día esos textos, imaginando alegorías o sentidos de autodisciplina moral, sin por ello renunciar a darle a esa interpretación un sentido de explicación histórica de la obra del filósofo. Losurdo señala que estas lecturas se basan en un presupuesto inaceptable: se admite como metafórico el sentido de un término sin examinar el sentido de ese mismo término en los debates de la época. El resultado es una asimetría permanente: en la cultura y en la publicística de la época las presuntas metáforas están ampliamente presentes, sobre todo en “científicos” que no recurren a figuras retóricas, pero ese mismo término, si aparece en un texto nietzscheano coetáneo, adquiere automáticamente un sentido metafórico. Por ello, aunque Losurdo no acepte los planteos lukacsianos, concede que el filósofo húngaro estaba en lo cierto al negarse a interpretar los textos de Nietzsche de manera metafórica.

La obra de Losurdo da prueba de una erudición asombrosa y de un profundo conocimiento tanto de los textos nietzscheanos como de los debates políticos del siglo XIX (lo cual no constituye ninguna novedad para quienes conozcan sus obras anteriores). Desde nuestra perspectiva, la originalidad de la obra está en el planteo utilizado como hilo conductor interpretativo del pensamiento de Nietzsche: verlo como un “intelectual orgánico” del “partido de la contrarrevolución” (el cual sería la forma en que el autor reinterpreta el “nuevo partido de la vida” mencionado por Nietzsche en uno de sus últimos textos) que, por supuesto, nunca existió como una organización concreta, pero que expresa de manera fecunda un principio heurístico para reconstruir la historia filosófico-política del siglo XIX en Europa. En La comunidad, la muerte, Occidente Losurdo analizaba la filosofía heideggeriana dentro del horizonte de sentido brindado por la “ideología de la guerra”, motivo cultural cuya peculiar configuración en el debate político-intelectual alemán desde el estallido de la guerra en 1914 permitía establecerlo como principio hermenéutico para realizar una lectura, por así decirlo, “en diagonal” de la obra heideggeriana, brindando inevitablemente una interpretación externa, pero que revela sentidos subyacentes de esa misma obra. En Nietzsche, il ribelle aristocratico el eje revolución-contrarrevolución se especifica a partir de la detección de dos grandes motivos ideológico-culturales que le permiten a Losurdo hacer dialogar a Nietzsche con la cultura de su tiempo: el primero es el uso político de la idea de felicidad (entendida como aspiración a la felicidad terrena de todos) a partir de la Revolución francesa y el segundo es el significado de la discusión acerca de la esclavitud y el trabajo servil en la segunda mitad del siglo XIX. Si bien ellos no son los únicos de los que el texto da cuenta, ambos tienen un lugar central en la argumentación, ya que los motivos ideológicos contrarrevolucionarios relevados por Losurdo vuelven una y otra vez a la discusión acerca de si la felicidad puede ser un fin político y cuál es el significado de que ella se traduzca en la aspiración al bienestar material por parte de las masas, y, por otra parte, a la discusión acerca de los límites de la igualdad propiciada por las fuerzas democráticas y socialistas, lo que implicaría la desaparición de cualquier forma de trabajo servil. Son muy interesantes las perspectivas que abre Losurdo cuando hace dialogar a los textos con estos grandes motivos ideológicos, ya que la filosofía nietzscheana pone en discusión ambos motivos, impugnándolos no sólo directamente, sino también intentando mostrar la carga mistificadora que se escondería detrás de esas aspiraciones, en una especie de metacrítica de la crítica revolucionaria a la sociedad, lo que según el autor sería uno de los rasgos característicos de las intervenciones políticas del Nietzsche maduro. Es en este sentido en que puede comprendérselo como un “intelectual orgánico”; más que una hipótesis sobre las fuerzas sociales existentes en la Alemania de la época, el texto nos presenta a un Nietzsche que intenta formular una crítica radical al devenir revolucionario que a su juicio adquiere la sociedad frente a lo que ve como fuerzas disgregadoras tanto de la sociedad como de la cultura de su tiempo. Esta disolución, además, estaría favorecida por instituciones como el nuevo estado alemán, que en lugar de brindar una muralla de contención frente al creciente descontento de los sectores subalternos, intenta integrarlos mediante una legislación social. De allí la necesidad de una crítica cada vez más radical: las esperanzas iniciales de Nietzsche en el IIº Reich y en Bismarck (tal como se las puede interpretar a partir de algunas de las dicotomías de El nacimiento de la tragedia) se desvanecen rápidamente. La crítica radical tiene que desenmascarar las raíces del mal hasta sus estratos más profundos: es allí donde el libro encuentra la originalidad de Nietzsche, ya que frente al tradicionalismo o populismo de los críticos antirrevolucionarios, que se limitan a una crítica romántica o timorata de las ideas revolucionarias, el filósofo sólo se plantea alternativas tajantes, que desembocan en sus planteos sobre la inocencia del devenir (como rechazo a la visión moral del mundo, propia del pensamiento revolucionario desde Rousseau en adelante), sobre el eterno retorno, que se presenta como la refutación de la idea de un tiempo lineal (el cual es el supuesto de la teleología revolucionaria), y finalmente, acerca del nihilismo, al que Losurdo pone en relación estrecha con los proyectos eugenésicos que tendrán una importancia cada vez mayor en la última etapa de la vida del filósofo.

Por todo ello, frente a los intentos que a su juicio están condenados de antemano porque minan sus propias bases, Nietzsche busca construir una nueva hegemonía cultural, para la cual, por supuesto, no posee instituciones ni agentes que la pongan en práctica, pero sí un diagnóstico que se radicaliza en su nihilismo y en su naturalismo. El radicalismo aristocrático de Nietzsche es interpretado por Losurdo como un intento de legitimación del bloque social dominante en el IIº Reich, pero con una salvedad importante: Nietzsche reconoce la profundidad de los cambios sociales y económicos que tiene ante sus ojos (la “plebeyización” del parlamento por parte de los partidos de masas, un mundo político dominado por el sufragio universal y el advenimiento de las masas en la escena política y social, así como el rápido desarrollo industrial y comercial en Alemania y Europa), por eso espera que de ese bloque dominante también forme parte el gran capital, pero a condición de que reconozca la hegemonía política y cultural de la nobleza. De todos modos, el resultado no es la reducción del pensamiento de Nietzsche a ideología en sentido lato (las ideas que hemos mencionado más arriba difícilmente podrían ser atribuidas a los ideólogos vulgares de la época), sino que sus temas centrales encuentran una interpretación posible que no puede prescindir del mundo político-cultural en el que se vio inmerso. La reinserción de la filosofía nietzscheana en el horizonte político de su tiempo la muestra inevitablemente como ligada de manera profunda con un mundo fenecido, el mundo de la “persistencia del Antiguo Régimen” en la Europa del siglo XIX, de acuerdo a como la describe Arno Mayer, en quien se apoya Losurdo.

El énfasis de Losurdo en el carácter “totus politicus” de Nietzsche es lo que se presenta como fuertemente disonante respecto de las interpretaciones vigentes hoy en día: este Nietzsche es todo lo contrario de un pensador intempestivo, más bien está completamente inmerso en su tiempo, expresando en forma cada vez más radical tendencias ideológicas presentes en la cultura europea desde la crítica de Burke a la Revolución francesa. Si el libro se abre con un epígrafe tomado de Kurt Tucholsky, quien ironizaba sobre Nietzsche señalando que en su obra podían encontrarse aforismos para lo que se necesitara, tanto a favor como en contra, el desarrollo de la obra, por el contrario, nos muestra que tanto esas contradicciones como los evidentes cambios de orientación tienen siempre una misma meta: desde El nacimiento de la tragedia hasta el final de su vida consciente Nietzsche es un decidido contrincante de la sociedad que se va formando a partir de la modernización y la revolución política. Sin embargo, ello debe matizarse, pues la originalidad de Nietzsche como crítico de las ideas revolucionarias y la diversidad de caminos que emprende para lograr ese objetivo es ampliamente documentado por este libro. Más bien habría que atender a las transformaciones del modelo intelectual que Nietzsche ofrece a lo largo de su biografía para comprender el sentido subyacente que la orienta y su estrecha relación con la realidad política de su tiempo. Losurdo justifica la importancia que atribuye a la perspectiva política para interpretar el pensamiento nietzscheano porque a su juicio ella posibilita detectar un hilo conductor, el elitismo y el radicalismo aristocrático, que permite establecer la continuidad entre sus diversas fases. De otro modo, se cae en lo que el autor juzga como el problema de la periodización usual: las etapas del pensamiento de Nietzsche se presentan descoyuntadas entre sí, se pasa de una a la otra sin poder comprender las razones del cambio. De ello se desprende que no se rechazan las discontinuidades del pensamiento nietzscheano en busca de una sistematicidad inexistente, sino comprender las discontinuidades como tales y no como saltos. Al examinar retrospectivamente el desarrollo de su pensamiento, Nietzsche encontró tres etapas. Losurdo, en cambio, presenta cuatro figuras intelectuales que considera como características de cada etapa del desarrollo del filósofo. Cada una de ellas discute el peligro revolucionario en una forma diferente y el resultado es una división de la biografía intelectual nietzscheana que modifica en parte la periodización del propio filósofo. La denuncia del peligro revolucionario, que se materializa en Francia y que continúa en el movimiento socialista y anarquista contemporáneo a Nietzsche, es extendida por el filósofo a denuncia del “socratismo”, estableciendo así una proyección del problema que se remontaba hasta los inicios mismos de la filosofía. Si esa denuncia era realizada por el “miembro de la comunidad popular”, que sería el modelo intelectual al que Nietzsche aspira en sus años juveniles, el posterior rechazo de las concepciones wagnerianas, así como del romanticismo y de la crítica antirrevolucionaria predominante en Alemania, que tenía sus raíces en la obra de Burke, dan origen al “rebelde solitario” que despunta ya en la Segunda consideración intempestiva. La tercera figura es la que se encuentra en el período “intermedio” del desarrollo intelectual de Nietzsche: el “iluminista aristocrático”, quien se mofa de las pretensiones de razón y justicia de los revolucionarios, descubriendo su verdadero carácter. La cuarta y última figura es la del “inmoralista aristocrático”, el pensador del “nuevo partido de la vida” que debería fundarse para que la oposición a la marea revolucionaria adquiera una forma organizada y no la mera crítica de “rebeldes solitarios” o de “iluministas aristocráticos”. Respecto de la originaria tripartición nietzscheana, el cambio aparece en la primera etapa, que Nietzsche había denomiando como “metafísica” y que Losurdo divide en dos, atendiendo al progresivo abandono de los ideales wagnerianos. Ninguna de estas cuatro figuras podría corresponder a un pensador solitario, sino que todas tienen una relación inmediata con la discusión política del momento. De la exposición de Losurdo se desprende que la actividad de Nietzsche como pensador posee una fuerte tendencia programática, que se hará evidente en la última etapa de su vida, pero que está presente desde sus inicios wagnerianos: para el filósofo es un verdadero problema comprender mediante qué mecanismos es posible contrarrestar el peligro revolucionario creciente y ello implica postular, aunque más no sea en el plano de las ideas, formas de acción que se opongan a él y no meramente de diagnóstico.

La restitución de un carácter central a la perspectiva política para interpretar a Nietzsche tiene el resultado inesperado de recuperar la imagen de Nietzsche predominante a fines del siglo XIX y, en parte, acercarnos a la interpretación de Nietzsche postulada por Alfred Baeumler durante las décadas del veinte y treinta. Habíamos señalado más arriba que el renacimiento de la filosofía nietzscheana estuvo en relación directa con su capacidad de despolitizarlo y dejar de lado en la interpretación todas las cuestiones ligadas al “radicalismo aristocrático” o que cuando lo acercaba a la política, lo transportaba a parámetros “anarcodeseantes”, más que a la política que Nietzsche pudo tener en mente. El corresponsal de Nietzsche, Georg Brandes, fue quien le propuso la fórmula del “radicalismo aristocrático” para caracterizar su filosofía, interpretándola a partir de su crítica de la moral. Unos cuarenta años más tarde, Baeumler realizó el intento más sistemático de adaptar la filosofía de Nietzsche a las demandas ideológicas del nazismo y puso en el centro de la filosofía nietzscheana la “voluntad de poder”, dejando de lado la doctrina del eterno retorno como una convicción religiosa puramente personal de Nietzsche. En la obra de Losurdo, por el contrario, el radicalismo aristocrático, más que un concepto es la Stimmung con que Nietzsche aborda sus objetos de estudio y le permite distanciarse de la visión moral del mundo. Por lo demás, el autor italiano mantiene a Nietzsche a distancia del III Reich y rechaza como anacrónicos los intentos de amalgamar uno y otro, por tanto, demostrar el carácter político de la filosofía nietzscheana no nos lleva a dar prioridad a alguno de los temas característicos de esa filosofía, sino a indicar que ese carácter político es el que se presenta como dador de sentido de las diversas formaciones conceptuales construidas por Nietzsche a lo largo de sus obras. Ello revela un aspecto importante de los análisis de este libro: los conceptos no son analizados como tales, sino en función de su politicidad, por tanto, no se encontrará en la obra, con excepción del “radicalismo aristocrático”, ningún concepto que actúe como pivote sobre el cual gire la interpretación. ¿Se deduce que esta interpretación es sesgada? Más bien podríamos decir que son los límites que impone la metodología adoptada: frente a la despolitización usual de los textos de Nietzsche y su fragmentación deconstructiva, Losurdo ofrece una interpretación unitaria, que no está centrada en la interpretación de alguno de los conceptos de Nietzsche, sino en el hecho mismo de su carácter político y en su estrecha relación con el momento histórico. Es aquí donde esa metodología presenta sus límites, ya que al lector no le pasa inadvertido el contraste permanente que el texto ofrece entre la fineza con que se interpretan las alusiones políticas de los textos o el significado político que suponen las ideas metafísicas nietzscheanas y la parquedad de la exégesis de esas mismas ideas en cuanto tal, es decir, más allá de sus implicaciones políticas. En otros términos: no se encontrarán en Nietzsche, il ribelle aristocratico exégesis del sentido del nihilismo o del eterno retorno independientes de su posible significación política. Por ello, de las siete partes que componen el libro, las dos últimas, que son aquellas en las que la reconstrucción histórica cede el lugar al balance crítico, a nuestro juicio no tienen la misma fuerza que el resto de la obra. La politicidad oculta se convierte en una clave de lectura exclusiva, lo cual no hace más que debilitarla, ya que simultáneamente se reconoce la originalidad de Nietzsche en su capacidad de planteamientos radicales. Más arriba afirmábamos que el texto nos proponía una lectura “en diagonal” de Nietzsche: al desentrañar la perspectiva política de la obra nietzscheana utilizando los medios de la historia intelectual, la asimetría antes mencionada es inevitable. Uno de los críticos de Losurdo concluyó de ello la enormidad de que en el libro se hablaba de Nietzsche, pero que Nietzsche no estaba en el libro. Más bien se podría decir que el Nietzsche que está en este libro no es el que usualmente encontramos en la filosofía contemporánea, lo que no deja de ser paradójico si recordamos que ella afirma haber aprendido de este filósofo la epistemología de la sospecha. Losurdo lo señala en la obra: en los últimos veinte años, mientras los historiadores ven en Nietzsche al campeón de la reacción aristocrática de fines del siglo XIX, la historiografía filosófica, en cambio, parece no preocuparse más que de distribuir culpas entre Elisabeth Nietzsche, la hermana del filósofo y G. Lukács como supuestos responsables de la manipulación política a la que la obra del filósofo se vio sometida. La apropiación de la obra de Nietzsche por la filosofía contemporánea creó un clima cultural que obturó cualquier intento de comprensión de la obra nietzscheana en relación con las corrientes intelectuales de su tiempo, de modo que se cortara definitivamente cualquier asociación entre la filosofía de Nietzsche y el extendido naturalismo finisecular [12] . Este libro intenta restituir a ese pensamiento su historicidad propia y lo logra en gran medida. En suma, una gran obra, imprescindible para quien se interese por el pensamiento político de Nietzsche y el contexto histórico en que se desarrolló.

[1] Gianni Vattimo, Diálogo con Nietzsche. Ensayos 1961-2000, Buenos Aires, Paidós, 2002, p. 287.

[2] “Nietzsche configuró y robusteció [...] una mentalidad que, ciertamente, no ha quedado delimitada en modo alguno a los «revolucionarios de derecha». Todo esto nos queda atrás y nos es casi incomprensible. Nietzsche ha perdido por completo su capacidad de contagio”, Jürgen Habermas, “La crítica nihilista del conocimiento en Nietzsche”, en, id., Sobre Nietzsche y otros ensayos, Buenos Aires, Rei argentina, 1986, p. 31.

[3] Sin embargo, esta reconstrucción histórica, que correspondía en el plano de las ideas a la tesis del Sonderweg alemán, tuvo su piedra fundacional en el libro de Gyorgy Lukács publicado en 1953, Die Zerstörung der Vernunft (trad. cast. El asalto a la razón, México, Grijalbo, 19833), el cual estaba escrito desde una perspectiva rigurosamente marxista y ajeno por completo a las finalidades antes mencionadas.

[4] Lo mismo puede decirse de la interpretación de Nietzsche sostenida por Gilles Deleuze en su célebre Nietzsche et la philosophie (trad. cast. Nietzsche y la filosofía, Barcelona, Anagrama, 1971), publicado en 1962, apenas un año posterior al Nietzsche heideggeriano.

[5] Norberto Bobbio, Perfil ideológico del siglo XX en Italia, México, Fondo de Cultura Económica, 19932, p. 286. Como muestra de ese cambio en el espíritu de la época y de las referencias político-culturales de la izquierda, que desagradaba tanto a Habermas como a Bobbio, no está de más recordar que la edición Colli-Montinari iba a ser publicada originalmente por Einaudi, la editorial italiana a la que más se identificaba con el ámbito cultural del progresismo y la izquierda, y que finalmente, a mediados de los años sesenta, ese proyecto fue dejado de lado por la editorial turinesa, precisamente por el dictamen negativo de Bobbio, quien formaba parte del consejo editorial. Como es sabido, el proyecto fue encarado por la editorial Adelphi, la cual publicó la traducción italiana.

[6] Este conjunto de perspectivas presenta hoy un último giro, que encuentra en Cristo un ícono del Übermensch nietzscheano y que es paralelo al llamado “retorno de lo sagrado”. No deja de ser sorprendente que sea el filósofo que anunció la muerte de Dios quien sea esgrimido como uno de los inspiradores de esta posición.

[7] Domenico Losurdo, La comunità, la morte, l’Occidente. Heidegger e l’”ideologia della guerra”, Turín, Bollati Boringhieri, 1991 (trad. cast.: La comunidad, la muerte, Occidente. Heidegger y la “ ideología de la guerra”, Buenos Aires, Losada, 2003).

[8] El lector interesado puede encontrar la mayor parte de las intervenciones en este debate en el sitio www. filosofia.it

[9] Domenico Losurdo, “«Circulation de la pensée» et stéréotypes nationaux. Sur l’image de l’Allemagne au vingtième siècle”, Archives de Philosophie, 61, p. 463.

[10] Por ello, como afirma Skinner, es que el contexto no puede entenderse como determinante de lo que se dice, sino como “un marco último que colabora en la tarea de decidir qué significados convencionalmente reconocibles [...] podría haber sido posible que alguien pretendiera comunicar en una sociedad de ese tipo”, cf. “Significado y comprensión en la historia de las ideas”, Prismas. Revista de historia intelectual, 4, 2000, p. 188 (énfasis del original).

[11] Cf. Friedrich Nietzsche, Götzen-Dämmerung oder wie man mit dem Hammer philosophiert (trad. cast.: Crepúsculo de los ídolos, Madrid, Alianza, 199312, pp. 72-75).

[12] Losurdo, con una denominación polémica, llama a esta disposición “hermenéutica de la inocencia”. Un ejemplo, entre tantos, sería la ligereza con que Eugen Fink en su célebre La filosofía de Nietzsche, afirma sin más que “las cosas que [Nietzsche] saca de Darwin no debemos tomarlas en serio”. Cf. E. Fink, Nietzsches Philosophie (1960) , trad. cast., La filosofía de Nietzsche, Madrid, Alianza, 19897, p. 23.

http://domenicolosurdomaterialinietzsche.blogspot.com/

e

http://www.institucional.us.es/araucaria/nro14/rese14_1.htm

FONTE: http://www.ouviroevento.pro.br/abhadya/nietzscheanas/Rossi_Losurdo.htm

Luta de Classes e Luta Política

Karl Marx

Karl Marx

Luta de Classes e Luta Política(1N)
Karl Marx
Abril 1847

A grande indústria aglomera num mesmo local uma multidão de pessoas que não se conhecem. A concorrência divide os seus interesses. Mas a manutenção do salário, este interesse comum que têm contra o seu patrão, os reúne num mesmo pensamento de resistência – coalizão. A coalizão, pois, tem sempre um duplo objetivo: fazer cessar entre elas a concorrência, para poder fazer uma concorrência geral ao capitalista. Se o primeiro objetivo da resistência é apenas a manutenção do salário, à medida que os capitalistas, por seu turno, se reúnem em um mesmo pensamento de repressão, as coalizões, inicialmente isoladas, agrupam-se e, em face do capital sempre reunido, a manutenção da associação torna-se para elas mais importante que a manutenção do salário. [...] Nessa luta – verdadeira guerra civil -, reúnem-se e se desenvolvem todos os elementos necessários a uma batalha futura. Uma vez chegada a esse ponto, a associação adquire um caráter político.

As condições econômicas, inicialmente, transformaram a massa do país em trabalhadores. A dominação do capital criou para essa massa uma situação comum, interesses comuns. Essa massa, pois, é já, em face do capital, uma classe, mas ainda não o é para si mesma. Na luta, [...], essa massa se reúne, se constitui em classe para si mesma. Os interesses que defende se tornam interesses de classe. Mas a luta entre classes é uma luta política.

[...]Uma classe oprimida é a condição vital de toda sociedade fundada no antagonismo entre classes. A libertação da classe oprimida implica, pois, necessariamente, a criação de uma sociedade nova. Pra que a classe oprimida possa libertar-se, é preciso que os poderes produtivos já adquiridos e as relações sociais existentes não possam mais existir uns ao lados de outras. De todos os instrumentos de produção, o maior poder produtivo é a classe revolucionária mesma. A organização dos elementos revolucionários como classe supõe a existência de todas as forças produtivas que poderiam se engendrar no seio da sociedade antiga.

Isso significa que, após a ruína da velha sociedade, haverá uma nova dominação de classe, resumindo-se em um novo poder político? Não. A condição da libertação da classe laboriosa é a abolição de toda classe, assim como a condição da libertação do terceiro estado, da ordem burguesa, foi a abolição de todos os estados [aqui, estado significa as ordens da sociedade feudal] e de todas as ordens.

A classe laboriosa substituirá, no curso do seu desenvolvimento, a antiga sociedade civil por uma associação que excluirá as classes e seu antagonismo, e não haverá mais poder político propriamente dito, já que o poder político é o resumo oficial do antagonismo na sociedade civil.

Entretanto, o antagonismo entre o proletariado e a burguesia é uma luta de uma classe contra outra, luta que, levada à sua expressão mais alta, é uma revolução total. [...] Não se diga que o movimento social exclui o movimento político. Não há, jamais, movimento político que não seja, ao mesmo tempo, social.

Somente numa ordem de coisas em que não existam mais classes e antagonismos entre classes as evoluções sociais deixarão de ser revoluções políticas. Até lá, às vésperas de cada reorganização geral da sociedade, a última palavra da ciência social será sempre: “O combate ou a morte: a luta sanguinária ou nada. É assim que a questão está irresistivelmente posta”.

Notas:
(1N) Extrato do § V – As Greves e as Coalizões dos Operários – Capítulo II de Miséria da Filosofia.

FONTE: http://www.marxists.org/portugues/marx/1847/04/luta-class-luta-polit.htm