CHE E A FARSA DA VEJA


Renato Nucci Junior*

No próximo 8 de outubro comemoram-se os 40 anos da morte de um dos maiores revolucionários do mundo: Ernesto “Che” Guevara. Em muitos países, especialmente na América Latina, inúmeras atividades patrocinadas por organizações de esquerda recordarão a trajetória e o exemplo de heroísmo desse grande revolucionário. E a revista Veja, fiel a sua cruzada anti-socialista e antipopular, temperada com uma retórica moralista e conservadora, resolveu dar sua contribuição. Sua edição de 3 de outubro de 2007, tráz uma reportagem especial dedicada a tentar ridiculamente desconstruir o mito e a mística construída em torno do “Che”. Em sua capa ostenta-se o arrogante título “Che, A Farsa do Herói”.

Quem bate os olhos na revista logo imagina que a publicação trará alguma revelação bombástica sobre a vida do revolucionário argentino. Pensamos imediatamente que se descobriu, por força de algum arquivo ultra-secreto agora aberto ao público, algo sobre o passado do Che que poderia macular sua heróica trajetória. Contudo, ao lermos as dez páginas da matéria, constatamos que seu conteúdo não apresenta nada de novo. Muitas das histórias descritas se referem a fatos publicamente conhecidos, como os fuzilamentos de torturadores do regime ditatorial de Batista após a vitória da Revolução em 1959 e a execução de colaboradores do governo infiltrados na guerrilha. Tais fatos não foram capazes, mesmo à época de seus acontecimentos, de tirar do Che e da Revolução Cubana seu valor e sua importância política e histórica. O único destaque que se pode dar à matéria, se é que se pode dizer assim, são os termos adjetivados, característicos do semanário em questão, além de “revelações” que caberiam, muito bem, em revistas de fofocas de celebridades.

O Rancor da Direita

A primeira “grande revelação” da Veja, na página que abre a reportagem, é descobrir que o Che tinha um hábito pouco louvável: o de não gostar de banho. Sim, acreditem, mas os editores e repórteres do semanário gastam tinta e papel, além de torrar nossa paciência, para trazer ao público uma “revelação” cuja mediocridade expõem o nível de inteligência de seus escrevinhadores. Ela quer medir o valor e a importância histórica de um indivíduo por seus hábitos higiênicos.

Assim como “a falta de higiene do Che”, também é um crime grave, aos olhos dos perfumados editores da Veja, outras atitudes que recebem a mesma reprimenda da publicação. A principal delas é o seu método de luta política, a criação do foco guerrilheiro, vista como única forma de combater regimes autoritários que pululavam pela América Latina. Mas, ao invés de fazer uma análise política que busca compreender os motivos que levaram Che a essa opção, deduzindo daí se sua generalização para outros países estava certa ou errada, Veja conclui que ela se deve ao perfil psicológico de seu formulador. E lá vem uma torrente de termos próprios de uma direita rançosa, rancorosa e ignorante, que o qualificam de “assassino cruel e maníaco”, “narcisista suicida”, “brutal”, entre outras. Sem contar que são usadas frases ditas por Che em diversos momentos de sua trajetória política, que retiradas de seu devido contexto, “revelam sua personalidade”, sedenta por sangue e morte.

Como um reforço aos seus argumentos Veja vai buscar, em exilados cubanos e figuras da esquerda latino-americana que há muito renegaram o socialismo, o manancial de informações que revelariam um Che menos heróico e mais humano. Ainda que a publicação nos alerte, numa falsa tentativa de parecer imparcial, que os exilados cubanos, em sua maioria membros da velha elite nacional, sejam as “vozes de maior credibilidade”, podem carregar em suas avaliações um “rancor que pode apimentar suas lembranças”, é nestes senhores que ela estrutura toda a sua matéria. Uma matéria caluniosa que deu voz apenas aos exilados cubanos que vivem em Miami, ao abrigo político dos setores mais conservadores da sociedade norte-americana. E estes, como bem sabemos, não passam de um bando de terroristas organizados em torno de grupos cujo sonho é o de derrubar o regime socialista de Cuba por meio de sabotagens e assassinatos. Como exemplo, um dos representantes dos exilados cubanos é o senhor Luis Posada Carrilles, que há muito vive nos Estados Unidos sob a proteção da Casa Branca. Em 1976, ele foi o responsável por um atentado terrorista contra um avião civil da empresa aérea Cubana de Aviación, que resultou na morte de 73 pessoas.

Entre os especialistas e historiadores não cubanos consultados pela revista para avaliar o legado do Che, está o mexicano Jorge Castañeda. Este, com credenciais muito pouco confiáveis para avaliar com imparcialidade o papel histórico de Guevara, começa sua militância política no Partido Comunista Mexicano. Porém, com as voltas que o mundo dá, no final da década de 1990 ele acabou como assessor do candidato presidencial Vicente Fox Quesada, do conservador PAN, de quem se tornou posteriormente Secretário de Relações Exteriores. Além do mais, Castañeda foi acusado em 2000 pelo jornalista Raymundo Riva Palácio de ser, desde a juventude, agente da CIA, o serviço de inteligência norte-americano, fato que nem o ex-chanceler e, nem mesmo o governo dos Estados Unidos, se deu trabalho de negar.

Terá Jorge Castañeda e os exilados cubanos credibilidade e independência política e moral para julgar o Che? Se Veja pretendia fazer uma reportagem séria, que pudesse dimensionar com mais clareza o papel histórico cumprido por Guevara, por quê ela descartou estudiosos com opiniões diferentes dos exilados cubanos e de Castañeda? À revista Veja não importa fazer um jornalismo sério e objetivo, mais interessado em informar do que em julgar. A ela importa, sim, ser um veículo de desinformação e de defesa dos interesses da classe dominante brasileira, papel que ela vem se prestando há décadas.

Se Veja intentou com sua retórica rancorosa e adjetivada, que busca mais caluniar que explicar seria o suficiente para destruir a imagem e a trajetória heróica do Che, ela se enganou rotundamente. Não se decreta a morte de figuras históricas da importância como a do revolucionário argentino, eleito em seu país como o político mais importante do século XX, ainda que sua vida política não tenha se passado por lá, pelo decreto de editorialistas que escrevem a soldo dos interesses mais conservadores de nossa sociedade. A imagem do Che não perderá sua força simbólica e seu apelo à luta por uma nova sociedade, enquanto os povos latino-americanos não jogarem na lata de lixo da história um sistema de dominação e todos os que a sustentam, inclusive os que se arvoram como jornalistas, que há 500 anos nos sangra e nos explora brutalmente. A imagem do Che com sua postura rebelde e antiimperialista, continuará poderosa a nos invocar que lutemos por uma nova sociedade, enquanto a América Latina não conquistar sua segunda e definitiva independência.

O Algoz do Che

Mário Terán, o tenente do exército boliviano a quem coube a responsabilidade de executar Che, recentemente passou por uma cirurgia no olho. Vítima de catarata, vivia o ex-militar em situação de indigência e no mais completo anonimato, na cidade de Santa Cruz. Ele pode recuperar a visão graças à Operação Milagro, uma campanha internacionalista implementada pelo governo cubano que oferece aos países latino-americanos, cirurgias gratuitas a quem possui diferentes problemas de visão e que não pode pagá-las. Em dois anos, cerca de 110 mil bolivianos submeteram-se a tratamento de diversas enfermidades oftalmológicas por causa da campanha. E entre os contemplados estava o algoz do Che.

Singelo, este exemplo de solidariedade e internacionalismo do governo e do povo cubano evidencia as conquistas de uma revolução que Veja, em diversas edições, sistematicamente esconde ou ignora. Che, como quer a Veja, não é uma farsa. Ele ainda vive, vingando-se de seus algozes e caluniadores, através das conquistas da revolução vitoriosa que ele ajudou a dirigir.

Campinas, outubro de 2007.

* Renato Nucci Junior é militante do movimento sindical e popular de Campinas, estado de São Paulo, Brasil, e dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

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