As cinzas do 8 de março


Mauro Iasi

Por quanto tempo deve o ser humano trabalhar? Dezoito horas, oito horas, seis horas? Sessenta anos, setenta, uma vida inteira, uma existência? Por quanto tempo é lícito sugar as “faculdades físicas e espirituais que existem na corporalidade, na personalidade viva” de um ser humano? Por quanto tempo é considerado justo transformar um ser humano em mercadoria e consumi-lo no processo de trabalho e de valorização? Algumas mulheres, muitos anos atrás, cruza­ram os braços sobre os seios cobertos de “devil’s dust”, do pó mortal que cobre o ar nas tecelagens e lhes impregna o pulmão, e disseram que oito horas eram o bastante.

Que por um tempo do dia elas se pertenceriam, que seus corpos seriam caricias e não fios, que seus lábios seriam beijos e não mercadorias, que seus cérebros teriam idéias só delas. Que por uma parte do dia, ao menos, levariam seus corpos a passear e cuidariam de si e de seus amados, olhariam o mundo lavado pela chuva e respirariam o cheiro puro em seus pulmões cansados.

Quando as portas da fábrica se fecharam não sabemos da expressão de pânico em seus rostos, podemos apenas adivinhar o pavor nos olhos que a pouco brilhavam como apenas brilham os olhos de quem descobre sua força e sua dignidade, podemos imaginar as narinas dilatadas pelo medo, podemos supor o último abraço na companheira ao lado que chorava enquanto as chamas consumiam o capital constante, o prédio, as máquinas, os estoques, não mais lambidas pelo fogo do trabalho vivo, mas agora pelo ódio de classe, pelo ódio assassino.

Podemos ainda ouvir o último suspiro e a esperança carbonizada naqueles corpos de meninas.
Naqueles minutos onde tudo ardia viam-se sombras sobre o telhado da fábrica em chamas. Espectros de bruxas e parteiras, de meninas que acariciavam seu sexo e adivinhavam o futuro, fantasmas de mães e filhas, de avós e netas, de pitonisas, poetisas e prostitutas que riam dos deuses, dos homens e suas certezas; até que tudo não foi mais que cinzas.

Por isso, depois que o carnaval passar com seus cortejos e março trouxer novamente suas cinzas neste oito de março; recolha-as, beije-as com carinho, pois são as cinzas de nossas meninas que há tanto tempo vagueiam pelo mundo levadas pelo tempo carregando a mesma pergunta: por quanto tempo, por quanto tempo… por quanto tempo ainda ?

FONTE: http://pcbfranca.vilabol.uol.com.br/opiniao/brasil_cinzas_mar2008.htm

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