Sobre os ombros de Kornilov


Por: Jorge Sanmartino* (especial para ARGENPRESS.info)
Originalmente publicado em 06/08/2008

A Central Operária da Bolívia (Central Obrera de Bolívia, COB) iniciou no dia 21 de julho, uns quinze dias antes do referendo revogatório, uma greve geral por tempo indeterminado com bloqueio de vias e manifestações permanentes até que seu projeto de lei sobre pensões seja votado no Congresso Nacional. É o protesto mais importante que a COB realiza em anos. Jaime Solares, o mais radical dentre todas as lideranças da COB, defendeu inclusive que, no caso do projeto não ser aprovado, fariam um “voto de castigo”. O atual Secretário Executivo da Central Operária do Departamento de Oruro, foi Secretário Executivo da COB até 2006. De tom combativo, Solares parece invocar Lênin para exemplificar alguns de seus próprios atos. Poderíamos então invocar os conselhos do velho líder bolchevique para exemplificar o que hoje está fazendo a COB? Porque sua greve geral por tempo indefinido, com bloqueio da principal estrada do país, explosão de pontes com dinamite e enfrentamentos diretos, acaba de cobrar a vida de dois mineiros de Huanuni e mais de 30 feridos.

A repressão foi feroz, com balas de chumbo, e se um delicado equilíbrio entre operários e camponeses existia até hoje, é possível que ele se rompa aceleradamente. O governo insiste que não deu ordens de reprimir com balas mortais. Quem ganha? Desconcertados, olhamos para um e outro lado, bloqueios aqui e ali, greves pela direita e pela esquerda, piquetes de um lado e de outro. A poucos dias do referendo revogatório. É curioso, por que não há um militante sequer da esquerda radical na Bolívia que não conheça o processo desestabilizador que sofre o governo de Evo Morales pelas mãos da direita.

Em sua monumental História da Revolução Russa, Leon Trotsky descreve a capacidade política e tática de Vladimir, seu olfato para interpretar cada momento político, cada conjuntura, porque em definitivo, na política como na guerra, não se pode conseguir o objetivo estratégico se não acertamos nas conjunturas críticas. Trotsky nos relata o caso do assédio ao governo de Kerensky pelas tropas de assalto do general Kornilov. A fórmula magistral de Lênin foi a de disparar contra Kornilov sobre os ombros de Kerensky. Não podia opor-se diretamente ao chefe do governo provisório enquanto sua própria cabeça perigava (não nas mãos dos sovietes, mas sim em função de um possível golpe restaurador). Lênin disputava com Kerensky a direção da luta contra este golpe. Jaime Solares me fez recordar esta história. Pôs aquele episódio de tentativa de golpe num espelho. Inverteu-o. Solares dispara contra Kerensky apoiando seu rifle no ombro de Kornilov.

Conheci Solares em outubro de 2006, num encontro de sindicatos latino-americanos em Caracas. Nos alojamos no mesmo hotel, no Anauco, onde estavam todas as delegações estrangeiras. Apresentaram-me a ele no lobby do hotel e conversamos menos de meia hora. Foi o suficiente. Evo Morales havia assumido em janeiro desse mesmo ano. Solares contou-me, como a um amigo, que na COB já estavam prontos para a derrubada do governo, caso este não cumprisse a agenda de outubro. Disse, ainda, que lhe dariam três meses mais. Não mais. Só lhes faltava resolver, argumentava, o tema do armamento. Uma mistura de charlatão profissional, verborrágico e fabulador, Solares dedicava-se a impressionar aos turistas radicais com seu exército proletário de papelão. Deixei minha garrafinha de cerveja sobre a mesa e me retirei precipitado para outra tarefa. Solares era a comédia que o drama da gloriosa COB do passado deixou como resíduo.

A esquerda radical boliviana pretende que o “governo camponês” aceite a proposta operária. Se pudéssemos dar-lhes um conselho, daqueles que os ensinamentos de Lênin ofereciam, lhes diríamos que tratem de conseguir a unidade operário-camponesa, e não o ódio eterno que as grandes maiorias nacionais, camponesas e indígenas, estão a ponto de sentir pela COB. Uma ferida que talvez não cicatrize durante muito tempo. Se a COB houvesse entrado de cabeça na campanha pela reeleição presidencial, participando junto à imensa maioria do povo na defesa de seu governo assediado pelas forças superiores de dentro e de fora, poderia receber, no dia seguinte, o apoio entusiástico de muitos bolivianos ao seu próprio projeto de lei de pensões ou, pelo menos, a um projeto que supere as insuficiências neoliberais do projeto oficial. Estariam inclusive em melhores condições se eventualmente não lhes restasse outro caminho que o de uma greve nacional. Quem lhes reprovaria fazer o jogo da direita, se a COB jogasse esse jogo que soube jogar o seu mentor Vladimir Illich? Mas não.

Quando Evo Morales os acusou de fazerem o jogo do imperialismo, algo que Lênin evitou disparando contra Kornilov sobre os ombros de Kerensky, Jaime Solares lhe respondeu que “o único instrumento fiel do imperialismo internacional e servidor submisso do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, é Evo Morales”, alimentando a fraseologia ultradireitista de que Evo Morales é um títere de Chávez. Disse exatamente isso. Outros grupos da esquerda radical, por sorte muito minoritários, têm chamado ao “boicote ativo desde referendo ilegal e reacionário”. Como o governo do MAS é frágil com a direita, como não a combate com as armas na mão. que ganhe a direita! Como se poderia catalogar semelhante reivindicação sem sugerir adjetivos qualificativos?

O governo da Bolívia sofre há muito tempo um permanente processo de desestabilização. A direita local, sob o manto do “autonomismo” e sustentada pela administração estadunidense, vem insistentemente golpeando no sentido de varrer do mapa o presidente indígena. A poucos dias do referendo revogatório, novas manifestações, greves de fome, bloqueios de aeroportos, piquetes e advertências de não pisar em Sucre, são outras tantas ações para impedir que se realizem finalmente as eleições, pois a direita unida é candidata a perder nas urnas. Ainda assim já disseram que, seja qual for o resultado, continuarão com seu plano autonomista. Ativistas cívicos e universitários de Tarija tomaram ontem o hotel El Sol, onde se alojariam militares venezuelanos. O Comitê Pró-Santa Cruz patrocina uma greve de fome “até que o governo nos devolva os fundos do IDH”, o Imposto Direto aos Hidrocarburos. Encabeçando o piquete, está o agroindustrial e presidente cívico Branko Marinkovic.

Certamente, para frear a direita é necessário adotar medidas mais radicais em todos os terrenos: a entrega de terras aos camponeses, a melhoria de salários e de condições de vida do povo e, inclusive, a mobilização popular mais ampla e combativa possível, algo com que Evo segue vacilando. Mas nada disso poderá ser promovido a partir de um caminho estreito e contrário ao caminho que o próprio povo boliviano já iniciou e sente como o seu caminho. A esquerda radical, se pretende ter algum papel que mereça ser resgatado pela história, poderá cumpri-lo na condição de saber em direção a quem e de onde se deve disparar nas circunstâncias atuais.

* Jorge Sanmartino é integrante do Economistas de Esquerda, da Associação Gramsciana e da Corrente Práxis.

Tradução: Rodrigo Fonseca

FONTE: http://www.pcb.org.br/kornilov.htm

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