A ESQUERDA E A SOLIDARIEDADE ÀS LUTAS NA AMÉRICA LATINA


Ivan Pinheiro*

Mesmo pessoas progressistas e bem informadas acham que quem é de esquerda é “esquerdista”. Faz sentido, pois chamamos de “direitista” quem é de direita.

Mas no campo da esquerda, em função da grande diversidade de idéias e posições, há os “direitistas” e os “esquerdistas”, conforme o nosso jargão. Vejamos, como exemplo, a posição de alguns setores da esquerda brasileira frente ao processo de lutas por que passam alguns países da América Latina.

Os “direitistas” são aqueles que nunca enxergam (ou não querem enxergar) qualquer raio de luz do socialismo no escuro túnel da hegemonia burguesa. Amortecem a luta de classe, iludem as massas. Acham que é possível reformar e humanizar o capitalismo.

A maioria desses setores não pode dar solidariedade conseqüente a Cuba, à Venezuela e à Bolívia, além de vagas declarações burocráticas. Estão atrelados ao governo brasileiro que, na arena internacional, se move pelo pragmatismo, à busca de mercados e investidores, e pela obsessão de obter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança do ONU.

Mas a vacilação na solidariedade internacionalista não é privilégio da esquerda governista. Tanto na base de sustentação como na oposição a Lula há personalidades de esquerda que, embora falem genericamente de “socialismo”, não passam de reformistas. Fazem questão de se distinguirem dos comunistas, passando-se por uma “nova esquerda” ou “esquerda democrática”. Em verdade, o ideário dessas personalidades não ultrapassa as bandeiras (“republicanas”, para usar uma expressão da moda) da Revolução Francesa: igualdade, liberdade e fraternidade, hoje sintetizadas numa palavra mágica: cidadania. A principal divergência entre eles é a questão da ética.
Como a disputa eleitoral é seu principal campo de luta e o mandato o principal instrumento, não podem contrariar o que imaginam ser o sentimento do eleitor brasileiro e muito menos a grande mídia, para não perder votos e espaço. Não remam contra a maré! Se a Bolívia nacionaliza interesses da Petrobrás ou se a Venezuela não renova a concessão de uma emissora golpista, não podemos contar com a solidariedade deles.

Mas não podemos deixar de criticar também os “esquerdistas”, tão bem definidos por Lênin, em “O esquerdismo: a doença infantil do comunismo”.

Como o processo revolucionário, tanto na Venezuela como na Bolívia, ainda é de caráter popular-democrático e não socialista, alguns setores “esquerdistas” se colocam em oposição aos governos desses países, caracterizando-os, irresponsavelmente, de “burgueses”. Imaginam o advento do caráter socialista de um processo revolucionário como um ato de vontade, um decreto unilateral de governo, sem entender que a luta de classe não é um processo linear, até porque a burguesia resiste com as poderosas armas econômicas, políticas, midiáticas e estatais de que dispõe, para manter o poder, que jamais entrega de graça.

Essas visões esquerdistas, que vicejam na pequena-burguesia radicalizada, não conseguem enxergar as diferenças entre o Brasil e esses países, como o grau de desenvolvimento do capitalismo. Enquanto no Brasil ele é complexo e desenvolvido (a oitava economia do mundo), na Venezuela e na Bolívia as grandes empresas são basicamente estatais ligadas à indústria petrolífera.

Não podemos conciliar com esses setores voluntaristas, esquemáticos e sectários, que confundem suas vontades com a realidade, acham-se os únicos revolucionários, têm uma fórmula mágica para a revolução mundial e só acreditam em processos em que a corrente a que pertencem seja hegemônica, aqui ou em outro país. São os mesmos que nunca deram solidariedade a Cuba e sempre fizeram coro com o imperialismo, na cantilena de que ali existe um regime “totalitário e burocrático”. Enquanto existia a União Soviética, podíamos até entender a crítica que vinha dessa esquerda, embora já não concordássemos. Era a acusação de que Cuba era um “satélite”. Mas e agora? Satélite de quem? É óbvio que o socialismo só sobrevive e avança em Cuba (enfrentando agressão e bloqueio e resistindo ao fim da União Soviética), pelo fato de ser defendido com garra pelo povo cubano e por se tratar de uma democracia popular.

Hoje, na questão internacional, os “direitistas” e “esquerdistas” acabam cumprindo o mesmo papel, apesar do discurso diferenciado. Por ação ou omissão, fazem o jogo da burguesia, que se ocupa de satanizar os processos revolucionários que ocorrem na Venezuela e na Bolívia e, em menor escala, no Equador e na Nicarágua. Toda a grande mídia brasileira manipula diariamente os acontecimentos nesses países, sem que muitas representações de esquerda façam o contraponto necessário!

O caso da RCTV é emblemático. Chavez esperou pacientemente, durante anos, até esgotar-se o prazo de concessão da emissora que foi o instrumento principal de um golpe de estado contra ele e que continuava manipulando escandalosamente os fatos. Agindo rigorosamente dentro da lei, o governo venezuelano não renovou a concessão, prática comum em vários países, inclusive nos EUA.

Diante da campanha orquestrada contra a Venezuela, os setores vacilantes da esquerda se calam e alguns “esquerdistas” se unem à banda de música da direita, dando solidariedade à RCTV! Há até uma corrente política que chega ao ponto de criticar a decisão do governo venezuelano, apropriando-se de citações de Trotsky a respeito da liberdade de imprensa, do início do século passado, quando não havia nem jornais de massa nem rádios, que dirá as grandes redes de televisão da burguesia que entram na casa de todos, disputando (e ganhando) as mentes e os corações das amplas massas!

Neste quadro, é grande a responsabilidade de todos os verdadeiros internacionalistas: está mais do que na hora de organizarmos um amplo movimento de solidariedade aos povos irmãos da América Latina. Com independência política, para podermos criticar o que nos parecer equivocado, e conjugando a solidariedade internacional com a luta para construir, em nosso próprio país, uma sociedade justa, fraterna, livre e soberana.

* Ivan Pinheiro é Secretário-Geral do PCB

FONTE: PCB

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