91 anos da Revolução Russa


10 dias que continuam a abalar o mundo
(Breves Notas Sobre a Revolução de Outubro)

Quando em Outubro (Novembro)[1] de 1917 o grupo político-partidário dos Bolcheviques, liderados por Vladimir Ilitch Ulianov (Lênin), assumiam o poder político na Rússia Czarista não apenas quebrava-se a corrente internacional do capitalismo, que até então gozava de uma expressiva hegemonia sobre o mundo, como também surgia a comprovação prática das teses de Lênin, polêmicas no Movimento Comunista Internacional, e divergente de seu centro prestigioso, a II Internacional.

O grupamento político liderado por Lênin surgia como uma dissidência dentro da II Internacional. Com fortes critícas dirigida a cúpula do prestigiado corpo dirigente da Social Democracia Européia:

“A Falência da II Internacional exprimiu-se com especial clareza na traição escandalosa, pela maioria dos partidos social-democratas oficiais da Europa, de suas convicções e de suas resoluções (…) Mas essa falência, que marca a vitória total do oportunismo, além da transformação dos partidos social-democratas em partidos operários nacional-liberais, não é senão o resultado de toda a época histórica da II Internacional, do final do Século XIX ao começo do Século XX. As condições objetivas dessa época de transição – que vai do encerramento das revoluções burguesas e nacionais na Europa Ocidental ao principio das revoluções socialistas – engendraram e alimentaram o oportunismo. Em certos países da Europa, pudemos observar, no decorrer desse período, uma cisão do movimento operário e socialista, cisão que se produziu, no seu conjunto, em função do repúdio a linha oportunista (…) A crise gerada pela guerra ergueu o véu, varreu as convenções, rebentou o abscesso já de há muito maduro e mostrou o oportunismo no seu verdadeiro papel de aliado da burguesia”[2]

Assim, essa dissidência dirigia, a II Internacional nucleada até então pelo forte Partido Social Democrata Alemão de Kautsky, severas criticas e apontavam a irreconciliável possibilidade de unidade. Tendo além de Lênin, líder do Partido Bolchevique Russo, vários outros membros de Partidos Socialistas e sociais democratas, inclusive no interior do próprio Partido Alemão, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, que viriam a ser lideres da dissidência Alemã do Partido Social Democrata.[3]

Tais críticos da doutrina oficial do Marxismo na Europa ganharam força com o advento da Grande Guerra Mundial (1914-1918). Evento em que os Partidos Sociais Democratas da Europa em consonância com as lideranças da II Internacional assumiram a defesa de seus países, inclusive vindo a participar da organização da Guerra ao lado das respectivas burguesias nacionais:

“A Guerra trouxe à classe dos capitalistas não apenas benefícios fabulosos e magníficas perspectivas de novas pilhagens (Turquia, China etc.), novas encomendas calculadas em bilhões, novos empréstimos com taxas de lucro majoradas, mas também trouxe à classe dos capitalistas vantagens políticas bem superiores, dividindo e corrompendo o proletariado. Kautsky ajuda nessa corrupção”[4]

A Grande Guerra foi um evento que marcou profundamente a Europa. Não havia acontecido até então uma guerra de tamanha proporção em violência, onde novas armas mudavam para sempre a lógica das guerras. Porém, não se limitando ao cenário do capitalismo, a guerra marcaria a definitiva ruptura no interior do Movimento Comunista Internacional, fortalecendo a critica da falência da II Internacional, que ao cumprir o papel de unificador nacional durante a guerra, demonstraria suas limitações em conduzir o movimento do proletariado em momentos de revoluções e rupturas, diante das novas características do capitalismo, já em forma de imperialismo, sua fase superior.[5]

Em 25 de Outubro de 1917, (7 de Novembro em nosso calendário), os bolcheviques se lançam a tomada revolucionária do poder, que não era um momento isolado, mas o ato final de um processo que se iniciara na revolução de fevereiro, com vários momentos o antecedendo. Momentos como o desembarque de Lênin na estação Finlândia, as passeatas de junho e julho, intensos debates e disputas no interior dos Sovietes, toda uma preparação nos círculos militares. Uma seqüência de momentos construídos até seu momento maior, a conquista do poder político, conduzindo as idéias gestadas no século XIX por Marx e Engels e todo um jovem movimento operário até seu objetivo programático.

Heitor Ferreira Lima, que entrara no Partido Comunista Brasileiro em 1923, um ano após sua fundação, assim descreve o impacto da Revolução dos Comunistas na velha Rússia:

“Na madrugada de 7 de novembro de 1917, acontecimento de maior relevância na história moderna ocorreu na velha Rússia dos Czares, marcando sempre sinal luminoso no seu decurso, dividindo o mundo em dois sistemas antagônicos: sistema capitalista e o sistema soviético, sendo este encabeçado pelo Conselho de Operários, Camponeses Soldados e Marinheiros. Sua instalação foi dificílima, árdua, demorada, tendo por finalidade a supressão do regime capitalista, objetivando o socialismo, para chegar no comunismo (…).”[6]

E na Rússia, marcada pelo atraso e por uma Guerra fracassada, onde os comunistas liderados por Lênin, Trotsky, Stalin e outros bolcheviques começaram a construir não apenas o regime socialista, como a reorganizar o movimento comunista, agora, através de uma nova internacional, a Internacional Comunista (Komintern). Com vários novos Partidos Comunistas nascendo no calor da Revolução que transformou a Rússia no primeiro país socialista do mundo, e em seguida, pela união de vários países e territórios, na fundação da União das Republicas Socialistas Soviética, URSS.

Lênin narra à importância da revolução de outubro e a construção do socialismo, assim como também as lições de outubro para o proletariado mundial na ocasião do 4º aniversário da Revolução:

“Esta primeira vitória não é ainda a vitória definitiva, e a nossa revolução de outubro de Outubro alcançou-a com privações e dificuldades inauditas, com sofrimento sem precedentes,(…); Pela primeira vez depois de séculos e milênios, a promessa de responder à guerra entre escravistas com a revolução dos escravos contra toda espécie de escravista foi cumprida até o fim … e é cumprida apesar de todas as dificuldades. Nós começamos esta obra. Quando precisamente, em que prazo os proletários de qual nação culminarão esta obra – é uma questão não essencial. O essencial é que se quebrou o gelo, que se abriu caminho, que se indicou a via.”[7]

A hegemonia internacional do capitalismo estava rompida, e logo após a revolução triunfante dos bolcheviques, a invasão do país por vários exércitos estrangeiros, inclusive inimigos na Guerra que findara há pouco, mostrava que o mundo passaria a uma nova fase: marcada pela divisão entre capitalismo e socialismo, que com breve intervalo durante a II Guerra Mundial (1939-1945)[8] percorreria todo o século XX.

De tal forma se rompia também a corrente internacional do marxismo, agora o movimento ganharia alguns aspectos novos em relação ao ideário da II Internacional, com uma releitura da própria obra de Marx e Engels acrescida pela teoria e prática do Partido Bolchevique, agora Partido Comunista. O Marxismo-Leninismo seria a nova mola propulsora do movimento comunista internacional, com a organização inclusive de uma nova Internacional, a III Internacional (Internacional Comunista ou Komintern) e reordenação dos comunistas, uns rompendo com a social democracia e construindo um Partido Comunista, outros com o acúmulo de seus próprios movimentos operários ora anarquistas ora de natureza socialista. Surgia uma nova denominação e uma nova cultura política no cenário internacional, os PCs, e um novo centro revolucionário, Moscou, capital da URSS.

O novo movimento agora sob o signo da III Internacional se diferenciava muito ideologicamente da II Internacional, se esta possuía ares de uma federação a III Internacional possuia características de um só partido comunista internacional, um forte centro político de atribuições ampliadas, Moscou passaria a ser agora a irradiadora da Revolução Mundial:

“Atualmente já possuímos uma experiência internacional bastante considerável, experiência que demonstra, com absoluta clareza, que alguns aspectos fundamentais da nossa revolução não tem apenas significação local, particularmente nacional, russa, mas revestem-se, também, de significação internacional (…)”[9]

Os Partidos Comunistas formavam-se, os antigos partidos sociais democratas sofriam rupturas internas com os novos adeptos do Marxismo-Leninismo. Ganhava força dentro do MCI o conjunto de proposta da Revolução como uma tomada violenta do Estado Burguês, sua demolição a partir da construção do novo regime.[10] Estava aberta à Era do Socialismo, a Era dos Sovietes que marcaria profundamente todo o decorrer do século XX, causando influências diretas em todo o mundo.

As elites do mundo capitalista, seus governantes, passariam a organizar toda a sua política internacional e até mesmo interna (os comunistas eram vistos como inimigos internos) diante do medo de uma revolução mundial, onde a URSS lideraria a classe dos trabalhadores. E os primeiros sinais eram aterrorizantes, justificavam os maiores medos dos capitalistas, explodiam movimentos revolucionários na Europa ainda se recompondo da Grande Guerra. Os trabalhadores não mais falavam em conquista de direito, mas na possibilidade da conquista do poder político.

O mundo que agora se dividiria até o final do século XX pela contradição socialismo e capitalismo, e no interior de cada país pela contradição capital e trabalho marcaria profundamente os rumos políticos, não somente do século XX, mas do futuro da humanidade.

O Socialismo se apresentava agora como uma possibilidade real, que ao longo do Século conquistaria o poder em diversos países, e mesmo depois de sua queda no apagar das luzes do século XX, mostra que continua atual, não somente em suas criticas e análises, mas também na sua proposta de solução. Cerca de 20 anos depois do colapso do bloco socialista, as perguntas que o socialismo propôs ainda não foram respondidas pelos que decretaram o fim da história. Talvez essa profecia do fim da história tenha sido a profecia com validade mais curta da história. Os problemas continuam, de forma diferente, mas sobre a mesma contradição fundamental, Capital e Trabalho.

NOTAS____________________
[1] Diferença no calendário utilizado na Rússia até o período da revolução.

[2] LENIN, Vladimir I. A Falência da II Internacional. São Paulo. Kairós, 1979. p.70

[3] ROCHA, Ronald. O Movimento Socialista no Limiar dos Impérios Financeiros (crônica da Segunda Internacional).Belo Horizonte. Editora O Lutador, 2006. p.156

[4] LENIN, Vladimir I. A Falência da II Internacional. São Paulo. Kairós, 1979. p.47.

[5] ROCHA, Ronald. O Movimento Socialista no Limiar dos Impérios Financeiros (crônica da Segunda Internacional).Belo Horizonte. Editora O Lutador, 2006. p.158

[6] LIMA, Ferreira Heitor. A Revolução Russa e a Fundação do PCB In: REVISTA INTERNACIONAL : Problemas da Paz e do Socialismo. Ano VI, nº 4 Outubro-Novembro-Dezembro de 1987. p. 59.

[7] Trecho do Artigo de LENIN, Vladimir I. “Para o quarto aniversário da Revolução de Outubro” publicado em 18 de Outubro de 1921, no Nº 234 do Pravda: in LENIN, Vladimir I. Obras Escolhidas V. III. São Paulo. ALFA-OMEGA. 1980. p.548.

[8] Evento onde ocorreu uma aliança das principais potências capitalistas (Inglaterra, EUA e França) com a URSS na luta contra a ameaça do Capitalismo de Exceção, o fascismo.

[9] LENIN, Vladimir I. Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo. Rio de Janeiro, Editora Vitória, 1960. p.9.

[10] Conferir analise de Lênin sobre a necessidade de derrubar o estado em: LENIN, Vladimir I. O Estado e a Revolução In: LENIN, Vladimir I. Obras Escolhidas V: II. São Paulo, ALFA-OMEGA, 1980.

FONTE: http://trincheiravirtual.spaces.live.com/blog/cns!D5167D0F0A905144!263.entry

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