Vidas Secas completa 70 anos


GR
Graciliano Ramos na redação da Tribuna Popular, jornal do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Da esquerda para a direita: Paulo Motta Lima, Astrogildo Pereira, Graciliano, Aydano do Couto Ferraz, Ruy Facó, Dalcídio Jurandir e Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro, 1945. Fonte: http://www.graciliano.com.br/vida_album02.html.

Conexões entre vida social e forma literária são debatidas durante três dias em evento em Brasília por meio da obra de Graciliano Ramos

Rafael Villas Bôas
Gustavo Arnt
de Brasília (DF)

Entre os dias 3 e 5 de dezembro, pesquisadores de nove universidades públicas brasileiras e do CEFET de Minas Gerais reuniram-se na Universidade de Brasília, a convite do grupo de pesquisa Literatura e Modernidade Periférica, para participar do colóquio “Graciliano Ramos – Os setenta fôlegos de um livro: o senso histórico de Vidas Secas”.

Durante os três dias do evento, foram debatidos a atualidade de Vidas Secas na dimensão histórica da vida brasileira; a temática da relação entre rural e urbano na representação estética e política da nação, presente na obra de Graciliano Ramos; e o sentido da obra do escritor para o conjunto da literatura brasileira.

De acordo com o professor Hermenegildo Bastos, coordenador do grupo Literatura e Modernidade Periférica, “o colóquio propiciou discussões muito atuais sobre literatura brasileira e sobre o país”.

Tendo como ponto de partida a obra de Graciliano Ramos, os conferencistas, debatedores e o público presente retomaram o debate (que sempre corre o risco de ser neutralizado pela academia e pela indústria cultural) sobre arte e sociedade. O debate foi também sobre o papel da crítica no mundo de hoje.

Sacudir a poeira

Os anos 30 do século passado nos legaram o conhecimento do país e dos seus impasses. Na atualidade, a forma mais consistente de ser contemporâneo é evitar que o passado seja soterrado pela poeira do tempo. O tempo não é uma entidade apenas cronológica, mas sobretudo uma função da ideologia dominante.

Ler e discutir Graciliano Ramos hoje é ainda pensar o Brasil e o mundo. A cachorra Baleia de Vidas Secas é uma personagem metáfora da morte da natureza e do homem.

Escrito em 1938, o livro integra o ciclo do romance regionalista do Nordeste –produção responsável por um conjunto fundamental de figurações sobre a experiência brasileira – expressando com absoluta originalidade a consciência dilacerada de nosso atraso, conforme sugeriu Antonio Candido, em contraponto à consciência amena do atraso, que transformava nosso fardo histórico em promessa redentora da grande nação em formação, cujo projeto, hoje sabemos, não vingou.

Atualidade do livro

Para Mario Frungillo, professor de Teoria Literária da Unicamp, “todo grande livro que trata de problemas humanos, mesmo quando esses foram superados, mantém seu interesse para a humanidade. Quando um grande romance trata de problemas ainda não superados, a questão é mais candente. O mundo abordado em Vidas Secas ainda não mudou, essencialmente, e isso faz com que a atualidade seja mais forte, porque além do interesse humano, há uma consciência inquietante de que ainda não caminhamos adiante”.

Segundo Elizabeth Ramos, professora do Departamento de Línguas Germânicas da Universidade Federal da Bahia e neta de Graciliano Ramos, “enquanto houver injustiça social, criança passando fome, trabalhadores sendo explorados, etc., Vidas Secas será uma obra atual, pois ela foi construída baseada nessa realidade de exclusão e opressão”. Além disso, ela ressalta que, em termos de texto, a linguagem da escassez, traço marcante da obra, contribui para sua recepção nos dias de hoje.

Vigência da práxis

Ana Paula Pacheco, professora de Teoria Literária da Universidade de São Paulo, ressalta uma concepção da literatura e da crítica literária como formas de conhecimento da realidade social. “A idéia da imanência da obra nesse sentido não se opõe à idéia de práxis, se ela nos faz ver melhor, como forma, aquilo que não enxergamos no dia-a-dia. A literatura nos faz ver melhor não porque ela seja o terreno do excepcional (mesmo o excepcional nela é historicamente configurado), e sim porque configura as contradições sociais de modo mais claro.

Para a professora, “a crítica literária, ao entender que as contradições na literatura são forma em sentido forte, isto é, são sedimentações de conteúdos sociais, é uma tentativa de colocar-se para fora da ideologia, sempre dominante. Porque na forma, para usar uma definição clássica, as contradições sociais estão equacionadas porém não resolvidas. Essa maneira de entender a função da crítica literária é oposta a outras correntes (novas e velhas modas) que enfatizam a imanência da obra como “pura autonomia”, que a fizesse flanar, sem peso, para além ou para aquém do chão histórico em que vivemos”.

Assim, para desfazer um lugar comum, Ana Paula ressalta que a crítica que entende a literatura como oposta à realidade social (porque esta seria muito banal para as “alturas” do literário) é uma crítica que não se interessa pela vida, uma vez que aquilo que nos diz respeito é sempre socialmente determinado – seja a própria (não-) constituição da subjetividade, seja a (não-) formação do nosso país, seja a história local dos ditos universais, ou a história e as especificidades locais no quadro pós-nações.

Impacto da crise

Para Belmira Magalhães, professora de Literatura Brasileira da Universidade Federal de Alagoas, a crise sistêmica pode descortinar dois panoramas para a produção literária contemporânea: “De um lado, a crise pode trazer a possibilidade de uma literatura mais crítica, menos colada na realidade, dado o agudizamento das contradições. Por outro lado, pode trazer também uma vertente de produção mais focada em alguns problemas, sem necessariamente estabelecer conexões com aspectos mais gerais”.

Quanto ao trabalho da crítica literária, pondera que ela se apresenta no momento posterior ao influxo da possível nova produção. Mas, além disso, refletindo sobre a discussão aflorada por ocasião do centenário de Machado de Assis, Belmira avalia que é também tarefa da crítica rediscutir e socializar o legado crítico dos grandes nomes da literatura brasileira.

FONTE: http://www.brasildefato.com.br/

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