Para onde vai o capitalismo?


Edmilson Costa - PCB
Edmilson Costa, é doutor em Economia pela Unicamp. É autor de O Imperialismo, (Global Editora, 1986); A Política Salarial no Brasil (Boitempo Editorial, 1997); e Um projeto para o Brasil (Tecno-Científica, 1998). Intelectual orgânico do PCB.

Notas sobre a globalização neoliberal e a nova fase do imperialismo[1]

Edmilson Costa*

Parece a lenda de Ícaro, aquele mito, que buscava a qualquer custo chegar ao sol, mas quanto dele mais se aproximava mais próxima estava a sua tragédia. Com asas de cera, à medida que se avizinhava do astro-rei suas asas se debilitavam até o ponto em que se romperam e ele desabou no mar..

Introdução

O mundo vive atualmente um complexo processo de mutações em cadeia que envolve todos os setores da vida social. O capitalismo globalizado, nesta sua nova fase, apresenta-se como a esfinge mitológica, capaz de realizar inovações extraordinárias, mudanças de paradigmas, desnortear seus adversários e, ao mesmo tempo, guardar a sete chaves o segredo de seu rejuvenescimento. A nova conjuntura e, conseqüentemente, os novos desafios, impõem a todos que trabalham pela construção de um mundo novo, a necessidade de analisar esse tempo com a mente aberta, sem os dogmas que estreitam a visão e com redobrado esforço para decifrar a nova ordem.

Antes de tudo, é necessário recolher dos clássicos tudo aquilo que eles contribuíram para entender o mundo, buscando compreender a exata dimensão da época em que escreveram e as novas formas em que os fenômenos se apresentam atualmente. Quando fizeram suas reflexões, os clássicos analisaram a realidade concreta de sua época e, portanto, não poderiam adivinhar o que viria acontecer no futuro. Exatamente por terem feito uma análise concreta da situação concreta é que seus trabalhos ganharam densidade e tornaram-se referência. Além disso, é importante também não perder de vista em qualquer análise, a relação entre forma e conteúdo dos fenômenos, para não cairmos nos modismos efêmeros, nas análises de folhetim.

Quando se trata do processo de globalização em curso, isso significa compreender que o código genético do capital continua com seus mecanismos básicos e se reproduz com uma versatilidade extraordinária, muito embora sua forma de expressar-se tenha mudado de maneira impressionante. Em outras palavras, neste final do milênio o capital não só mantém a sua essência, como incrementa a exploração. Sem o contraponto do socialismo real, retoma predicados do seu passado mais bárbaro, quando a classe operária ainda não tinha consciência nem nível de organização capaz de impor limites à sua voracidade genética. Ao mesmo tempo em que redescobre sua faceta originária, apresenta-se ao mundo como a expressão da modernidade e, em nome desta, impõe aos trabalhadores um regime societário vinculado socialmente ao século passado.

Mas essa contradição em processo não é nenhum mito de sete cabeças. Da mesma forma que os clássicos desvendaram os complexos paradigmas de sua época, em situação muito mais difícil que a atual, é tarefa de todos que buscam novos horizontes realizar um grande esforço para compreender os fenômenos da contemporaneidade. Essa não é uma tarefa fácil, mas é muito mais frutífero buscar compreender esta época do que permanecer cabisbaixo diante das dificuldades da conjuntura e levar vida de lamentações, de omissões ou mesmo bater em fuga envergonhado do campo do progresso social e dar adeus ao proletariado, como se a única saída fosse a rendição ao sistema. Nestas páginas procuraremos refletir sobre alguns pontos fundamentais do capitalismo contemporâneo, procurando contribuir para um debate sobre os traços fundamentais da atualidade.

É necessário enfatizar que a globalização é um dado da realidade, ou seja, existe um processo novo na configuração do capitalismo contemporâneo, que se expressa na reestruturação produtiva e na especulação financeira de caráter global, dois eixos que marcam a dinâmica do capitalismo atual e que tem como síntese ideológica o neoliberalismo. Negar esta realidade, ou seja, negar o processo de globalização, corresponde ao instinto da avestruz, que imagina superar as adversidades enterrando a cabeça na areia. Não enfrentá-la abertamente, a partir do próprio interior do fenômeno, buscando desvendar seus segredos ou o seu significado teórico, é abandonar o principal terreno de luta e deixar de combatê-lo na arena do real.

Os marxistas só terão êxitos nesta empreitada se buscarem compreender o fenômeno a partir do coração do sistema de poder mundial, onde pulsa ou potencialmente tem condições de pulsar mais intensamente a luta de classes. É bem verdade que os elos débeis continuam cumprindo um papel essencial para o debilitamento geral do capital, enquanto forma global de dominação. Mas a sua crise profunda só poderá configurar um estatuto terminal quando atingir o núcleo do poder, o coração da Tríade imperial. Ou seja, a crise geral do capital só estará madura quando atingir os Estados Unidos, a Alemanha e o Japão.

O processo de globalização em curso não pode ser visto de maneira errática, como muitos analistas o tem observado em diversas ocasiões, buscando negá-la ou combatê-la pelos flancos ou mesmo creditando seu início a períodos históricos sem relação direta com a época atual. Trata-se de um fenômeno contemporâneo, fruto do capitalismo organizado e transnacionalizado. Portanto, não tem nenhuma semelhança com a expansão do império romano, com as grandes navegações ou mesmo com a construção do capitalismo enquanto sistema mundial. A globalização é um fenômeno da época imperialista mais recente, quando o capital passou a extrair diretamente o valor fora de suas fronteiras nacionais[2].

Estamos vivendo uma época em que os velhos ramos de produção oriundos da metal-mecânica, da química ou do plástico estão em decadência e em seu lugar, como ocorre sempre nos processos históricos de transição do capitalismo, novos ramos produtivos oriundos do avanço do conhecimento científico de nossa época, estão ocupando a hegemonia do sistema produtivo. A indústria do século XXI terá um perfil inteiramente diferente da indústria que surgiu com a segunda revolução industrial.

Como conseqüência dessa mudança estrutural no chão da fábrica, ou seja, com o desenvolvimento das forças produtivas da reestruturação industrial, inevitavelmente surgirão novos fenômenos sociais, econômicos, culturais, políticos e até militares, como sempre ocorre toda vez que o sistema capitalista muda de patamar. Apenas no que se refere ao mundo do trabalho, teremos no século XXI uma classe operária com o perfil inteiramente diferente da classe operária clássica da segunda revolução industrial, na qual estarão incluídos os cientistas modernos.

Vale lembrar também que, como tudo na vida está em constante movimento e transformação, as contradições oriundas da reestruturação produtiva, ou globalização industrial, terão também componentes inteiramente novos, não imaginados pelos clássicos do marxismo, até mesmo porque eles não tinham a obrigação de prever o futuro. A geração atual é que tem obrigação de compreender a época em que vivemos e, seguindo as pistas estruturais que eles nos legaram, buscar responder as questões atuais e propor soluções concretas para a ruptura com esta nova fase do capital.

Também não é difícil compreender que o processo de circulação do capital na órbita financeira está em processo de velozes transformações e, mais uma vez, busca seu autocrescimento na esfera especulativa, num movimento que nega a tradição clássica de valorização por meio da produção. A ousadia especulativa do capital tem configurado um novo fenômeno nas relações capitalistas mundiais: a financeirização da riqueza[3]. Nunca em sua história chegou a uma dinâmica em que a órbita financeira superasse de forma tão abrangente a produção, hegemonizando as relações econômicas internacionais e disciplinando a alocação de recursos até mesmo na esfera produtiva.

O capital especulativo pode movimentar-se hoje 24 horas por dia. A partir das operações com satélites, aliadas à informática e à internet, o capital pode estar presente em qualquer hora do dia e da noite em alguma parte do mundo onde possam realizar-se operações financeiras. Ganhou a possibilidade de valorizar-se continuamente (muito embora artificialmente, em termos de longo prazo), rompendo a barreira do espaço-tempo e fechando assim um ciclo de auto-acrescentamento buscado desde os seus primórdios. Parece a lenda de Ícaro, aquele mito que buscava a qualquer custo chegar ao sol, mas quanto dele mais se aproximava mais próxima estava a sua tragédia. Com asas de cera, à medida que se avizinhava do astro-rei suas asas se debilitavam até o ponto em que se romperam e ele desabou no mar…

Se as contradições oriundas das mudanças na área produtiva já são expressivas, aquelas que estão sendo produzidas na órbita financeira podem ser consideradas explosivas. A experiência histórica tem nos ensinado que as épocas de euforia financeira são seguidas de crises agudas e, quanto maior a especulação, maior a crise dela resultante. Ora, como hoje há um descolamento sem precedentes entre o setor produtivo e o setor financeiro, pode-se depreender logicamente que as crises decorrentes da globalização financeira serão muito maiores que as crises anteriores. Ou seja, o destino do capital está hoje muito mais em perigo do na época da grande depressão, em 1929.

Há uma crise sistêmica em curso que vem se intensificando na exata medida da dinâmica especulativa. Se observarmos a década de 90 poderemos constatar que o primeiro grande sinal vermelho foi aceso com a crise mexicana, em 1994. Como tratava de um país especial, fronteira com os Estados Unidos, não foi difícil encontrar recursos para socorrer o México ou os especuladores da Tríade que por lá se aventuravam. Posteriormente, veio a crise asiática, agora envolvendo não mais um País, mas grande parte de um continente. Esta crise contaminou posteriormente a Rússia e levou pânico aos mercados financeiros mundiais. A seguir podemos registrar a crise no Brasil e na Argentina. Até agora, o sistema de poder da Tríade ainda teve fôlego para intervir nesses processos e retomar a calmaria, mas em algum momento a crise será maior que os mecanismos para enfrentá-la.

Como em toda época histórica de transição, o setor hegemônico da burguesia busca implantar sua ideologia e transformá-la em núcleo referencial para toda a humanidade. Neste momento, o capital conseguiu implantar em caráter global a ideologia neoliberal, cujos fundamentos irradiaram-se para todos os setores da vida social. Apesar de seus argumentos pobres e amarelados pelo tempo, o neoliberalismo conseguiu penetrar no âmago do senso comum das pessoas, do núcleo dominante às mais simples, quebrando valores longamente estabelecidos, como a solidariedade, a busca de soluções coletivas, e em seu lugar implantou o individualismo mais mesquinho e a lógica do mercado e da iniciativa privada.

No entanto, o produto social da globalização e de sua ideologia, o neoliberalismo, tem sido o mais dramático possível. Em pouco tempo esse novo regime de acumulação desagregou sociedades, tornou os ricos mais ricos e ampliou a pobreza em praticamente todos os cantos do mundo, especialmente nas nações da periferia, onde a barbárie social vem esgarçando o tecido social e incrementando a violência em todos os sentidos.

Para que este movimento tenha sido realizado foi necessária uma mudança de fundo na composição das classes dominantes. A velha elite ligada ao antigo capitalismo monopolista de Estado, construída após os anos 30 e, especialmente, após a segunda guerra mundial, foi substituída no centro do poder da Tríade por um novo bloco de forças sociais, mais agressivas e mais reacionárias, que subordinaram política e economicamente todos os outros setores e impuseram o neoliberalismo como forma de organização socioeconômica e rentismo como forma particular de acumulação, subordinando inclusive o setor produtivo à nova lógica financeira. Este novo bloco da classe dominante está hoje no centro do poder mundial, buscando configurar o mundo à sua imagem e aplicando uma espécie de vingança histórica de classe aos trabalhadores.

Diante de uma situação dessa ordem, com mutações tão profundas em todos os setores, é necessário repensar uma nova forma de interpretar o mundo, a partir da constatação de que os fundamentos teóricos oriundos da segunda revolução industrial, que antes explicavam o imperialismo, necessitam de uma releitura radical, posto que o capitalismo contemporâneo, apesar de manter na essência o seu código genético, apresenta-se ao mundo atualmente com uma qualidade nova e, portanto, precisa de uma nova interpretação.

Em outras palavras, os fundamentos do imperialismo que encontramos em Hobson, Hilferding, Bukárim, Rosa de Luxemburgo e Lênin já não explicam em plenitude esta nova forma do capital. Torna-se necessário recolher destes clássicos todo aquilo que ainda permanece atual e avançar na busca de uma alternativa teórica que não só decifre os segredos da esfinge da globalização, mas especialmente que arme a nova classe operária com uma teoria capaz de dar sustentação ideológica para a luta contra o capital em outro patamar.

O processo de globalização

Estes fenômenos têm sido freqüentemente denominados de globalização. Qual é a natureza desse novo processo? Que fenômenos novos têm produzido esta nova fase do capitalismo? Quais as conseqüências deste processo para a classe operária e para a humanidade em geral? Que perspectivas estão colocadas para o desenvolvimento histórico da sociedade? O socialismo continuará sendo uma bandeira viável? Terá capacidade de ressurgir sem os vícios e deformações do passado recente e se tornar novamente uma referência da humanidade progressista?

A natureza mais de fundo da globalização está ligada a uma nova fase do imperialismo, onde o grande capital busca reconfigurar novamente o mundo à sua maneira, tanto no plano econômico-financeiro, quanto no político, social, cultural e militar – num processo semelhante ao que ocorreu no final do século passado com a formação e posterior fusão dos monopólios bancários e industriais. No bojo desta ofensiva não só busca consolidar as corporações transnacionais como destacamentos avançados do sistema, como também pretende abolir direitos e garantias históricos conquistados pelos trabalhadores no último século e meio, numa espécie de vingança de classe estratégica.

Em nosso entendimento, esse processo de reconfiguração do capital tem seu início concreto num movimento estratégico, que envolveu duas articulações básicas: a globalização produtiva e a globalização financeira que, por motivos analíticos, estamos analisando separadamente.

a) A globalização produtiva

A globalização produtiva que ora se processa especialmente nos países centrais, mas com incidência também em alguns países periféricos, é fruto da natureza do próprio desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo, que necessitam revolucionar constantemente suas bases materiais, de forma a que o sistema ganhe dinâmica e desenvolvimento. Ao longo de sua existência, o sistema capitalista passou por três grandes mudanças ou três grandes revoluções industriais, cada qual redesenhando o perfil industrial, o perfil das classes sociais e a hegemonia mundial.

A primeira ocorreu no século XVIII, com a mecanização das fábricas e resultou no capitalismo concorrencial e na hegemonia inglesa. A segunda aconteceu no final do século XIX, a partir da incorporação das grandes inovações tecnológicas inseridas na produção, da fusão do capital bancário com o capital industrial, do aparecimento dos monopólios, da intervenção do estado na economia, fatores que proporcionaram uma nova qualidade ao capitalismo, que a partir de então passou a viver sua fase imperialista. A liderança dessa nova fase passou das mãos inglesas para a Alemanha e Estados Unidos.

A terceira mudança em curso é caracterizada pela introdução de novos ramos industriais no processo produtivo. Nesta nova configuração ficam em segundo plano os ramos produtivos ligados à metal-mecânica, à química, ao plástico e, em seu lugar estão assumindo a liderança produtiva novos setores industriais, tais como a microeletrônica, a informática, a engenharia genética, a biotecnologia, a telemática, a robótica, aliados a certo grau de inteligência artificial no interior das plantas fabris. A nova produção, oriunda desta mudança, proporcionará enormes ganhos de produtividade aos países que internalizarem essa nova base técnica.

Um dado novo na globalização produtiva é que ele já se processa dentro de um quadro de internacionalização da produção, com a burguesia passando a extrair diretamente o valor em escala global. As duas grandes mudanças anteriores foram realizadas de maneira assimétrica nos países centrais, ou seja, cada País marcou à sua maneira a inserção na industrialização. No entanto, o processo atual se desenvolve de maneira simétrica nos países centrais, em função da internacionalização da produção e da remonopolização da burguesia nos anos 90. Em função da padronização produtiva global, até mesmo os países periféricos que têm em sua base territorial filiais das corporações transnacionais estão vivenciando esta mudança nos nichos de desenvolvimento lá instalados.

A globalização produtiva é liderada pelas corporações transnacionais, que funcionam nesta fase como destacamentos avançados da Tríade imperial no interior de cada um desses países, não só buscando a valorização do capital, mas também influenciando a política econômica desses países. Estas corporações, com suas redes de filiais espalhadas pelo mundo, têm a possibilidade de se aproveitar dos mais preciosos recursos minerais a preços baixos, de mão-de-obra barata e articular a produção em escala global, rompendo assim com os estreitos limites da produção nacional e com eventuais carências de matérias-primas e mão-de-obra.

Em outras palavras, a internacionalização da produção transformou o mundo numa imensa reserva de matérias-primas e mão-de-obra à disposição das corporações transnacionais. Estes conglomerados elaboram a produção em escala mundial, quer segmentando a construção de peças, de acordo com o menor custo de produção, quer fabricando o produto inteiro no país onde há mão-de-obra e matérias-primas mais baratos. Por exemplo, no caso de um automóvel, podem fabricar o chassi e o motor no Brasil, os paralamas no México,o sistema elétrico na Coréia e a montagem final nos Estados Unidos. Ou simplesmente pode-se fazer o produto total na Ásia, como ocorre com os tênis Nike, para depois vendê-lo no mercado mundial.

De acordo com os dados do Centro das Nações Unidas para o Estudo das Transnacionais (desativado por pressões dos Estados Unidos, em 1993 e posteriormente incorporado à UNCTAD, com uma equipe menor), em 1994 existiam cerca de 37 mil transnacionais no mundo, muito embora as 100 maiores são as que realmente hegemonizam o sistema econômico, tendo em vista que concentram um terço do investimento externo e possuem ativos no valor de US$ 3,2 trilhões, sendo 40% fora dos países de origem[4]. Isso significa que o patrimônio dessas corporações é maior que o Produto Interno Bruto da grande maioria das nações do planeta, o que por si só pode dar uma idéia do imenso poder de barganha que possuem junto às nações da periferia.

Em função da privatização do conhecimento com o aparecimento dos monopólios e sua hegemonia quase que completa nos tempos da globalização, as corporações transnacionais concentram a maior parte da pesquisa e desenvolvimento em praticamente todas as áreas do saber científico. Isso significa o controle das inovações tecnológicas e a ampliação do poder de mercado. Mas o problema maior dessa conjuntura no campo tecnológico é que cada vez mais se alarga o fosso tecnológico entre as nações centrais, onde se estabelecem as matrizes das corporações transnacionais, e as nações da periferia, que são obrigadas a comprar pacotes tecnológicos prontos, aprofundando assim a dependência e as relações de subordinação Norte-Sul.

Contradições e perspectivas

Esta reestruturação produtiva, aliada à grande inserção de ciência na produção, tende a promover uma violenta subversão das chamadas vantagens comparativas. A intensa qualificação da mão-de-obra, a produção de matérias-primas em laboratórios são elementos que podem formatar um quadro onde os fatores de produção tendem a não mais se constituir em instrumento de competitividade por alocação de recursos. Um dos desejos históricos do capital é produzir sem a necessidade do trabalho vivo e elaborar seus próprios insumos. Por isso alavanca a tecnologia, buscando desesperadamente se desvencilhar de sua contradição originária, num processo semelhante ao Sísifo mitológico. É bem verdade que pela lógica do sistema, a eliminação do trabalho vivo e a produção de suas próprias matérias-primas inviabilizaria o sistema enquanto tal. Portanto, antes que isso possa acontecer o próprio sistema entrará em colapso.

A globalização produtiva cria uma contradição com a própria lógica de reprodução do sistema, pois tensiona de maneira radical a tendência entre a automação e a produção de mais-valia. “Pode-se imaginar uma economia localizada, que adote intensivamente a automação, com a utilização de reduzida mão-de-obra. Esta economia poderá escoar seus produtos para outros países e, no processo de circulação, se apropriar da mais-valia produzida em outras economias, em virtude da vantagem relativa de maior produtividade. Essa economia teria, temporariamente, a dominância sobre as outras economias. Não se pode imaginar, porém, esta situação estendida a todos os países capitalistas, pois isso inviabilizaria, em função da impossibilidade de realização do sobrevalor, a continuidade de operação do sistema[5]”.

Do ponto de vista da classe operária, quais as principais conseqüências da reestruturação produtiva? Este processo aprofunda uma velha contradição do capitalismo, expressa no caráter social da produção e na apropriação privada de seus resultados. Com a inserção cada vez maior da ciência no processo produtivo, cria-se uma enorme potencialidade produtiva, que não pode ser viabilizada em função da demanda das massas. Ou seja, no momento em que o sistema capitalista tem mais possibilidade de produzir, é exatamente neste momento em que não encontra a demanda agregada para atingir seus objetivos, uma vez que o ritmo de acumulação do período globalizante é extraordinariamente maior que o ritmo de crescimento do poder aquisitivo das massas.

Esta contradição, que no período anterior do capitalismo monopolista de Estado, não atingia os Estados Nacionais de maneira simétrica, agora se apresenta com um caráter global, em função da internacionalização da produção e da restruturação produtiva. Estabelece-se agora com muito mais intensidade a velha contradição produção-consumo e aprofunda-se assim a fase que aponta para um ciclo mundial de crise na esfera produtiva, possivelmente muito mais grave que no período anterior, tendo em vista que, em sendo global, a crise atingirá a todas economias que internacionalizaram seus processos produtivos, pois não poderão escoar sua produção para outras regiões como faziam no passado. Como não se pode vender ainda mercadorias para a lua, marte ou júpiter, a crise terá que ser resolvida no planeta terra, pelos próprios habitantes da terra.

A inserção da ciência na produção aprofunda a tendência de substituir trabalho vivo por trabalho realizado. Como esse fenômeno está sendo verificado também nas áreas de serviços, tradicionais absorvedores de mão-de-obra, a tendência é a ampliação do desemprego, o que deverá estreitar ainda mais os mercados internos e a possibilidade de realização da produção. Ressalte-se que o desemprego atual pode ser considerado estrutural, uma vez que o ciclo do emprego está se tornando inelástico às vicissitudes da conjuntura econômica. Esse fenômeno ocorre justamente em regiões onde a cultura e a organização da classe operária tendem a oferecer grande resistência a essa conjuntura. Uma coisa é subtrair direitos e garantias em áreas onde a miséria é parte do cotidiano da vida das pessoas; outra é retroagir para a barbárie trabalhadores com elevado nível de consciência e organização e um padrão de vida duramente conquistados e longamente usufruídos.

A reestruturação produtiva cria também a sua contraface, o pólo dialético que abre um novo horizonte de possibilidades para a ruptura com o velho modo de produção. A nova classe operária oriunda deste processo terá um perfil completamente diferente da atual classe operária. Tratar-se de um operário altamente qualificado, polivalente, e com nível de instrução bem maior que os seus companheiros da segunda revolução industrial, o que deverá reduzir a distância entre o trabalho manual e o trabalho intelectual[6]. Desta nova classe operária farão parte operários altamente especializados, inclusive os cientistas dos novos ramos produtivos.

Além desses aspectos, a mudança de perfil da classe operária terá repercussões profundas no interior das plantas fabris, no movimento operário nacional e em sua organização internacional. Em todas as grandes mudanças da época capitalista foram exatamente os setores mais avançados dos trabalhadores aqueles que mais rapidamente compreenderam a necessidade de mudanças e que efetivamente lideraram as transformações. Não se trata mais dos operários tayloristas, que apenas cumpriam cegamente funções rotineiras, mas de uma nova classe, que retomou a iniciativa no chão da fábrica e realiza um trabalho mais criador, mesmo dentro da alienação global do sistema. Ninguém deverá ficar surpreso se dentro de alguns anos, cientista assalariados, analistas de sistemas, engenheiros ou ferramenteiro eletrônicos (o construtor de chips), liderarem o movimento operário e buscarem as transformações necessárias para a construção de um novo sistema sócio-econômico.

b) Globalização financeira

A dinâmica especulativa que envolve o capitalismo atual está ligada, de um lado, à desregulamentação das atividades das finanças a partir dos governos Reagan e Tatcher e mantém laços bastante próximos com o processo de formação do euromercado, além de também estar ligada ao desenvolvimento das próprias forças produtivas do capitalismo, tais como a generalização dos satélites, a universalização dos computadores pessoais e o desenvolvimento das fibras óticas. Estas descobertas possibilitaram ao sistema financeiro a interconexão mundial on line, dinamizando de maneira extraordinária as relações entre os diversos mercados financeiros mundiais e os mais variados tipos de investidores-especuladores.

O desenvolvimento dos negócios na área financeira, aliado à possibilidade de aplicações 24 horas por dia e incrementado pela diversificações dos instrumentos financeiros, transformaram o mundo num imenso cassino, principalmente em função da rapidez do retorno financeiro e da remuneração mais elevada que na área produtiva. Esta dinâmica, impulsionada pelo novo bloco dominante do capital, transformou a atividade financeira na principal arena de negócios do capitalismo contemporâneo. Para se ter uma idéia, o mercado especulativo movimenta diariamente cerca de 1,9 trilhão de dólares[7], quantia cerca de 10 vezes maior que os recursos que giram na área produtiva, um panorama sem precedentes na história do capitalismo. Cálculos de várias fontes indicam que atualmente existe no mercado especulativo uma massa de recursos de mais de US$ 64 trilhões de dólares.

Vale ressaltar que, quanto mais se alarga o palco das operações, quanto mais se diversifica a variedade de aplicações, mais essa conjuntura realimenta o frenesi especulativo, configurando um processo de retroalimentação que vai impondo a hegemonia financeira sobre a órbita produtiva. Ou seja, as aplicações especulativas e seus derivativos vêm transformando o mercado financeiro num instrumento desindutor do investimento global baseado na produção, invertendo de forma sem precedentes a lógica da acumulação baseada na lei do valor.

Estão ligados por esse frenesi não apenas o mercado de títulos, o mercado de futuros, o mercado de ações, mas também o mercado cambial, fato que completa o circulo da especulação, incrementando assim a financeirização da riqueza, que consiste em um processo de valorização fictícia do capital, tanto por parte dos especuladores tradicioinais, quanto dos fundos de investimentos, fundos de pensões e até mesmo por um significativo percentual dos recursos das empresas produtivas. Em outras palavras, a defesa da riqueza está se dando muito mais na área financeira do que na produtiva, numa espécie de festival especulativo de ganhos fáceis e rápidos.

Mais precisamente, a globalização financeira, que deveria unificar os mercados financeiros mundiais, gerando capitais disponíveis para impulsionar as forças produtivas, está fazendo justamente o contrário, ou seja, em função da possibilidade de lucros em curto espaço de tempo, a área financeira está concentrando o lócus da atividade da atividade capitalista, relegando a um segundo plano a atividade produtiva. Esta situação é tão grave que atualmente um percentual cada vez mais crescente dos lucros das empresas produtivas estão sendo obtidos na órbita financeira. Isso significa que o capital especulativo está levando para o interior da própria empresa produtiva a disputa pela alocação de capitais, numa ousadia nunca percebida.

Por mais paradoxal que pareça, um dos atores que bancam, em última instância, esse delírio especulativo são os países da periferia que se renderam à globalização neoliberal. Isso ocorre porque grande parte dos capitais especulativos está alocada nos mercados financeiros dos países periféricos (ironicamente chamados de emergentes). Para que esses países obtenham capitais externos são obrigados a elevar suas taxas de juros internas a um patamar bem maior que as taxas de juros internacionais. Com isso fecham os seus balanços de pagamentos, normalmente deficitários em função da abertura econômica e do pagamento da dívida externa, mas em contrapartida acumulam uma dívida interna que inviabiliza o desenvolvimento econômico, tendo em vista que o pagamento dos juros dessa dívida absorve cada vez mais um percentual maior do PIB.

Dito de outra forma, esta transferência de recursos do setor público para o privado e, especialmente, para o capital especulativo internacional, é uma das formas mais perversas de apropriação da mais-valia e uma radicalização nos métodos de saque histórico que os países centrais impõem à periferia. Não se trata mais do período em que se utilizava as caravelas com suas canhoneiras para extorquir as riquezas das colônias, nem do período em se capturava o valor por meio da troca desigual, agora o capital financeiro transformou as nações da periferia em reféns dos especuladores internacionais e ampliou a extorsão.

Para se ter uma idéia de como esse saque é perverso, torna-se necessário exemplificar um caso emblemático, o Brasil. Em 1994, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso assumiu o poder, a dívida pública interna era de R$ 62,5 bilhões (nessa época existia uma paridade entre o dólar e o real – 1 dólar valia um real); ano passado (1999) esta dívida já tinha atingido R$ 513 bilhões (U$ 301 bilhões), num aumento impressionante de cerca de 720% no período, ou uma média anual de crescimento de 52,3%. A contrapartida desse enorme endividamento é um pagamento de juros, que no mesmo período somou cerca de R$ 250 bilhões (U$ 147 bilhões). A conseqüência desse montante de pagamento é a redução das verbas orçamentárias para a área da educação, saúde, saneamento básico, entre outros itens da agenda social.

Todavia, o deslocamento contínuo entre a órbita financeira e o setor produtivo não deverá durar eternamente, pois haverá necessariamente, como já aconteceu em períodos anteriores, um momento de um ajuste de contas entre a produção real na economia e a especulação financeira, ocasião em que essa riqueza fictícia será esterilizada, com conseqüências graves para os especuladores e para o conjunto da economia capitalista. A crise financeira do México, a crise asiática, a crise da Rússia, do Brasil e da Argentina são apenas a ponta do iciberg de um processo mais fundo que está se gestando e que terá seu epicentro terminal quando atingir o coração do sistema capitalista, os Estados Unidos da América, a Alemanha e o Japão, os líderes da Tríade imperial.

A macro-organização do capital

Enquanto a globalização segue seu curso, os países centrais procuram reorganizar-se para uma nova partilha econômica do mundo, semelhante ao que ocorreu por ocasião da segunda grande mudança no capitalismo. O primeiro destes grandes movimentos é a consolidação e/ou formação dos blocos econômicos na Europa, na Ásia e na América; o segundo grande movimento, que é conseqüência do primeiro, é a disputa surda pela hegemonia mundial, especialmente após a queda da União Soviética e dos países do Leste Europeu. O terceiro é uma espécie de recolonização sofisticada da periferia capitalista. Não se trata mais de ocupar os países e transformá-los em colônias como no passado, mas de dominá-los mediante os próprios instrumentos criados pelos países centrais, como o FMI e o Banco Mundial.

À exceção da Europa, onde esse processo está mais desenvolvido, inclusive com a possibilidade de implantação de uma moeda única, a formação dos blocos econômicos está em construção tanto na América quanto na Ásia. Na América, com uma hegemonia incontestável dos Estados Unidos, está em discussão a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), com resistência de vários países, inclusive do Brasil. Nesta região, o governo americano tenta substituir o NAFTA, bloco que englobava EUA, Canadá e México, mas que não se desenvolveu plenamente neste último país. Agora os Estados Unidos querem um mercado mais amplo, onde possam exercer mais diretamente sua hegemonia e impedir eventuais acordos paralelos entre países latinoamericanos e europeus ou asiáticos.

Prevista para 2005, a ALCA está sendo vista com reservas por vários países latinoamericanos porque há um temor bastante real de que a formação da ALCA seja uma espécie de abraço de urso por parte dos Estados Unidos. Em setembro de 2000, os presidentes da América do Sul estiveram reunidos em Brasília, com o objetivo de traçar uma estratégia de negociação conjunta com os norte-americanos, de forma a barganhar uma melhor inserção na formação desse mercado. É uma manifestação ainda tímida porque vem exatamente de governos com elevado grau de subserviência aos EUA, mas indica que setores burgueses locais temem que a construção de um mercado único nas Américas, hegemonizado absolutamente pelos Estados Unidos, atinja seus próprios interesses.

A formação de um mercado comum na Ásia também vem encontrando alguns problemas, uma vez que o Japão, líder econômico da região, vive uma crise econômica há vários anos, o que o impede de influenciar mais decisivamente na formação deste bloco. Além disso, existe a questão da China, cuja economia vem obtendo um crescimento médio anual acima de 10% nos últimos 12 anos. Caso prossiga nesta performance, em mais uma década transformar-se-á na principal economia da região, isso sem contar que é a nação mais populosa do planeta. Portanto, está em curso uma disputa por hegemonia na Ásia, o que certamente dificultará a formação deste bloco.

Teoricamente, a formação dos blocos econômicos deve funcionar como espaços supranacionais de acumulação, a partir dos quais poderá desenvolver-se o processo de concorrência do novo padrão industrial globalizado. Em outros termos, os mega-blocos seriam uma forma de gerir a interdependência dos países centrais a partir de cada bloco, de hierarquizar as preferências comerciais e as reciprocidades entre essas nações, na tentativa de buscar uma regulação macroeconômica num patamar superior, em busca uma estabilidade econômica mundial.

Mas em função das próprias contradições entre os blocos, pode também ser um espaço de poder econômico que irá acirrar a concorrência, criando enormes tensões no comércio mundial. Além disso, essa macro-organização da burguesia, do ponto de vista do capital em si, se expressa na remonopolização burguesa em caráter mundial, mediante um processo de fusões e aquisições que vem se desenvolvendo de maneira acelerada nos países centrais[8]. Este processo não está ainda plenamente configurado, tendo em vista não só os problemas decorrentes da formação dos blocos econômicos, mas principalmente devido às próprias contradições interblocos.

Enquanto os países centrais buscam reorganizar-se para melhor se posicionar diante da globalização em curso, há uma tentativa dos Estados Unidos de transformar a antiga ordem bipolar do período em que existia a União Soviética em ordem unipolar, na qual despontariam como potência hegemônica indiscutível. Para tanto, vem procurando de todos as formas impor pela diplomacia e/ou pela força militar essa liderança. Para tanto, tem buscado transformar o Conselho de Segurança das Nações Unidas em instrumento de sua política nacional e se utilizado de todo o peso que detém nos organismos multilaterais para cumprir esta meta. Em alguns casos tem até buscado transformar sua legislação interna em direito internacional.

Foi assim que, sob a proteção do Conselho de Segurança da ONU, invadiu o Iraque, destruiu a infra-estrutura do País, e até hoje continua impondo o bloqueio econômico àquele País, muito embora várias nações aliadas desejem o fim do bloqueio em função de seus interesses específicos. No entanto, quando a diplomacia não é funcional, os Estados Unidos esquecem as aparências e passam a operar exclusivamente a partir de seus próprios interesses estratégicos. Foi o caso da invasão da Iugoslávia. Temendo problemas no Conselho de Segurança, os Estados Unidos se utilizaram a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), instituição na qual os norte-americanos tem hegemonia absoluta, para atacar um País soberano. Esta ação pode ser emblemática porque representa o passo decisivo para imposição da hegemonia a qualquer custo, uma espécie de teste para sentir as reações dos aliados.

No entanto, há interesses divergentes no seio da Tríade imperial. As economias do Mercado Comum Europeu juntas, com sua moeda única, se assemelham, em termos de poder econômico, à economia americana e dificilmente os europeus irão aceitar pacificamente uma hegemonia forjada por meio do poder militar. Além disso, os próprios oligopólios europeus têm interesses nos mercados mundiais, inclusive na América, o que certamente sinaliza um processo de disputas acirradas de hegemonia no seio da Tríade. Além disso, caso a China mantenha o nível de seu crescimento, será também um pólo fundamental de contestação ao poder solitário americano.

O terceiro grande movimento está ligado às novas relações que estão sendo forjadas entre os países centrais e os países da periferia, em função da globalização. A tendência principal, especialmente na América Latina, é a tentativa dos Estados Unidos de buscar uma espécie de recolonização sofisticada, onde não se utilizariam mais os instrumentos clássicos da colonização passada, porém novos instrumentos mais sofisticados, de caráter econômico e financeiro, como o FMI, Banco Mundial, BID e outros, ou mesmo a dolarização da região, com os quais poderia se obter resultados econômicos mais vantajosos que na colonização clássica, sem necessitar formalmente acabar com a soberania desses países.

As duas últimas décadas têm sido pródigas de exemplos de como está se desenvolvendo de maneira contundente e meticulosa uma estratégia de recolonização sofisticada. Desde o início da década de 80 que os países da região vêm sendo obrigados (evidentemente com o aval das classes dominantes locais, tradicionalmente subservientes) a desestruturarem suas economias para atender aos interesses do grande capital internacional, especialmente o norte-americano. Primeiro foi a questão da dívida externa, que gerou uma transferência de recursos digna dos tempos de Pizarro e Cortez. Nos anos 90 a política neoliberal vem completando esse processo, ampliando a subordinação das economias nacionais aos interesses do capital especulativo internacional.

Em termos concretos, a política econômica dos países da região já não é desenvolvida de maneira soberana, mas segue rigorosamente o receituário imposto pelo Fundo Monetário Internacional, pelo Banco Mundial e pelos banqueiros internacionais, deixando nula a margem de manobra para os governos locais fazerem algum tipo de política que não seja a do capital especulativo internacional. Um exemplo característico desse novo processo de recolonização sofisticada é a discussão sobre a dolarização em vários países com problemas estruturais, fruto inclusive da própria ação do capital internacional. Trata-se na verdade de um balão de ensaio, mas é com certeza parte da estratégia norte-americana transformar as nações da região em estados yanques informais, pois ao perder o monopólio da moeda perde também os últimos vestígios da soberania.

Neoliberalismo e a ideologia do capital

O neoliberalismo é síntese de todo esse processo de mudanças profundas que estão ocorrendo no sistema capitalista; funciona como uma espécie de gerenciador ideológico, político, econômico, social e cultural dessa nova fase do imperialismo. Trata-se de uma ideologia primitiva para os tempos atuais, com postulados do século XVIII, época do capitalismo concorrencial, mas com um apelo espantoso ao senso comum. A ideologia neoliberal procura manipular os sentimentos mais atrasados das massas, revigorando os preconceitos, açulando o individualismo, distorcendo o significado das coisas, reduzindo os fenômenos à sua aparência, de forma a ganhar os corações e mentes para o jogo do livre mercado e da livre iniciativa.

Como se trata de velhos dogmas sepultados pelo tempo, o neoliberalismo procura manipular os conceitos, a linguagem e até mesmo as palavras de ordem da esquerda para confundir a população e implementar seus objetivos estratégicos. Para tanto, conta com os meios de comunicação de massa, que se transformaram nos principais difusores desta ideologia. Diariamente, o jornal, o rádio e, especialmente, a televisão realizam uma batalha ideológica contumaz no sentido transformar o neoliberalismo na referência para o modo de vida da humanidade.

Dessa forma, a desregulamentação da economia, as privatizações e a ofensiva contra direitos e garantias dos trabalhadores são propagandeados como reformas estruturais, o corte nos gastos públicos, o aperto no crédito e a retirada do Estado da economia, são vistos como ajustes estruturais e a própria palavra liberdade, tão cara às forças de esquerda, especialmente da América Latina, é manipulada para servir aos interesses do capital[9]. Até mesmo invasões militares de países soberanos, como ocorreu recentemente com a Iugoslávia, são realizadas em nome dos direitos humanos e da democracia.

No que se refere à política propriamente dita, a ideologia neoliberal não tem nenhum escrúpulo: desde que o governante no poder cumpra as metas estabelecidas pelas elites financeiras dos países centrais, esse dirigente é não só tolerado como seu governo defendido nos fóruns internacionais e na mídia. Assim, o neoliberalismo pode se utilizar de um bêbado moribundo na antiga União Soviética, como Yeltsin; de um dançarino de tanto brega na Argentina, como Menem; de um nissei histriônico e fascista, como Fujimori no Peru; de um corrupto sofisticado no México, como Salinas de Gortari; ou ainda um intelectual que deu adeus ao proletariado, como Fernando Henrique Cardoso no Brasil.

Em outras palavras, para os neoliberais, que hoje podem ser considerados os fundamentalistas do Ocidente, não importa os meios ou os métodos para atingir seus objetivos. O importante é garantir a hegemonia do neoliberalismo em todos os setores da vida social, pois só assim poderão reconfigurar o mundo à sua maneira. Este fenômeno está na raiz da intolerância e da agressividade com que procuram desqualificar seus adversários. No entanto, se analisarmos mais pormenorizadamente, poderemos detectar uma enorme insegurança dos defensores desta teoria, pois sempre que esta doutrina é confrontada com o real, perde substância. É por isso que eles sempre têm uma resposta na ponta da língua para os constantes fracassos dos seus programas. Quando algo não dá certo… é porque não se aplicou em plenitude o receituário neoliberal. Isso se assemelha muito às novas seitas evangélicas, que prometem o paraíso para seus fiéis e, quando estes não o alcançam… é por que não tiveram fé suficiente.

Quais são, então, os fundamentos do neoliberalismo? Este espaço é exíguo para uma abordagem mais completa do problema, portanto procuramos apenas traçar suas linhas fundamentais. Esta ideologia tem uma relação doutrinária com os liberais do século XVIII e uma relação operacional com os neoliberais deste século, especialmente Hayek e Friedman. O primeiro, desde o final dos anos 40, já contestava a regulação do mercado por parte do Estado, o poder das entidades sindicais e a proteção social do Welfare State[10]; já o segundo praticamente montou o programa neoliberal implementado a partir dos governos Reagan e Tatcher. A partir da âncora do livre mercado e da livre iniciativa, propôs a desregulamentação da economia, a abertura das fronteiras e a livre competição internacional, o ajuste das contas públicas, reformas nos sistemas monetários, a redução dos impostos para os ricos e, especialmente, a retirada do Estado da economia, o qual só deveria garantir os contratos e a ordem neoliberal[11].

Estes postulados, que operaram no período do capitalismo concorrencial, não possuem nenhuma aderência à realidade, serve apenas à mistificação e a ampliação do poder do grande capital. Ora, como se pode falar em livre competição entre as grandes corporações transnacionais, com seu gigantesco poder econômico e financeiro, e as outras empresas mais frágeis? Como se pode liberar uma economia periférica e deixar ao sabor da livre concorrência a disputa no interior dos seus mercados entre as transnacionais e as empresas nacionais? Como uma economia encilhada na armadilha do capital especulativo pode gerar empregos e fazer políticas sociais? Por que privatizar empresas lucrativas do setor público? Qual a lógica que explica menores impostos para os ricos? Por que ajustar as economias de acordo com os interesses do capital financeiro e não de acordo com os interesses da nação?

No passado, a ideologia liberal foi um instrumento do império inglês para que os países abrissem seus mercados para os produtos manufaturados britânicos e consolidasse a hegemonia inglesa. Da mesma forma, a ideologia neoliberal é um instrumento do setor mais reacionário e mais parasitário do bloco de classes dominantes dos países centrais, especialmente dos Estados Unidos, para subordinar as nações aos seus interesses econômicos financeiros[12]. Livre mercado, livre iniciativa, desregulamentação, reformas, ajustes, saída do Estado da economia são apenas cortina de fumaça para encobrir o saque das riquezas nacionais, a superexploração dos trabalhadores. Todos os países da periferia que se renderam ao neoliberalismo ficaram mais pobres, perderam grande parte de seu patrimônio, e tornaram-se mais endividados. Do ponto de vista social, ocorreu uma enorme concentração de renda entre a parcela mais rica da população, um desemprego crônico, uma queda nos salários dos trabalhadores e a ampliação da barbárie social – esse é o resultado do neoliberalismo na periferia capitalista.

A partir da eleição de Ronald Reagan e Margareth Tatcher o mundo passou por uma radical contra-revolução monetarista[13], que mais tarde se tornaria conhecida como neoliberalismo. Os governos Reagan-Tatcher, no bojo da crise do keynesianismo da década de 70, aproveitaram o vazio ideológico para reconfigurar o sistema capitalista dentro de novas regras. Implementaram mecanismos para garantir o livre mercado e fortalecer a livre iniciativa, desregulamentar a economia, afastar o Estado do sistema econômico, realizar as privatizações, atacar o movimento operário e estimular a livre competição individual. Por estarem no centro hegemônico do planeta, irradiaram esta ideologia para os quatro cantos do mundo e ganharam grande parte da intelectualidade e das elites locais para o neoliberalismo.

Como num castelo de cartas, os governos nacionais foram aderindo às novas regras do capital e os meios de comunicação multiplicando avassaladoramente o fetiche neoliberal. Mas o serviço ainda não estava completo: as economias centrais, quase todas, já estavam enquadradas no novo figurino, mas alguns países com peso importante na economia mundial ainda não tinham aderido completamente à nova ideologia, como o Brasil. Num grande esforço para formalizar as experiências monetaristas mundiais e buscar uma convergência mundial para as novas idéias e programas econômicos, organizou-se em Washington, em novembro de 1989, um grande encontro, o “Latin American Adjustment: How Much Has Happened?” para discutir os rumos das chamadas reformas e a estratégia para a próxima década.

Este encontro reuniu funcionários do governo norte-americano, dos organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento, além de diversos economistas latino-americanos. Apesar de informal, suas conclusões transformaram-se em normas para o grande capital e, especialmente, para as relações entre os países periféricos e os organismos internacionais[14] e passaram a ser conhecidas como o Consenso de Washington.

A ordem a partir daí, particularmente na América Latina, foi a radicalização das reformas e sua implementação naqueles países que não as tinham operado internamente, como o Brasil. Poucos anos depois, um fato inesperado vinha consolidar o ciclo avassalador do neoliberalismo: a queda do muro de Berlim e a desagregação da União Soviética e dos países do Leste Europeu. Sem o contraponto socialista, o neoliberalismo sentiu-se sem travas para hegemonizar completamente a economia mundial. Praticamente todos os países do mundo passaram a operar sobre a nova ótica do capital.

Um balanço desses 20 anos de contra-revolução conservadora nos permite afirmar que o neoliberalismo constituiu-se num grande retrocesso para a humanidade, em praticamente todos os setores da vida social. Mas a contrapartida dessa conjuntura é a desmoralização generalizada das políticas neoliberais, até mesmo em círculos que até pouco tempo advogavam esta ideologia como redenção para a humanidade. A ferocidade ideológica e regressividade social geraram um produto social tão deformado, que está forjando situações sociais insustentáveis nas grandes metrópoles e assustando até mesmo as elites burguesas. A corrupção generalizada, o saque das riquezas nacionais, a violência urbana, a ampliação da pobreza entre as populações das cidades e do campo, a descrença generalizada nas instituições forjadas há séculos pelo capital, estão criando níveis de resistência que, embora ainda embrionários, apontam no sentido de que está se gestando nessas sociedades novos sujeitos políticos, capazes de apresentar alternativas de mudanças.

Que conclusões teóricas poderemos conceber, a partir do balanço desses 20 anos de retrocesso? A primeira das conclusões a que poderemos chegar é a de que nenhuma conquista está garantida no capitalismo. Ao contrário do que acreditavam os colaboradores de classe ou os ingênuos, o capital não se civilizou após a segunda guerra mundial, com o Welfare State. Pelo contrário, foi só perceber a conjuntura defensiva do movimento operário que resolveu tirar a máscara e expor com rudeza explícita a ferocidade original do capitalismo, demonstrando que os clássicos tinham razão ao afirmar que o capital, enquanto tal, não perde a sua essência exploradora.

A segunda conclusão é a de que, apesar dos duros golpes e derrotas, o capitalismo não se transformou numa opção consensual para a humanidade, nem tampouco destruiu a perspectiva de uma sociedade sem exploração. Está se gestando em várias partes do mundo e, especialmente, na América Latina, uma contra-ofensiva popular que vem se expressando de várias formas. Em alguns momentos se expressa por meio do voto, como na Venezuela, outras mediante a insurreição popular, como no Equador, em outras através da luta armada, como na Colômbia, ou ainda por meio da luta direta das massas, como o Movimento dos Sem Terra no Brasil ou os movimentos camponeses e indígenas de vários países da América Latina.

A impressão que se tem é que o neoliberalismo tornou mais aberta a luta entre capital e trabalho, processo que no período anterior estava camuflado, quer mediante o Welfare State, quer mediante a convivência e aceitação do movimento operário e de algumas de suas conquistas históricas por parte do capital. A agressividade do neoliberalismo colocou em cheque todos os direitos e garantias dos trabalhadores, diversificou as formas de exploração e desmoralizou as instituições. Portanto, é natural que a contra-ofensiva popular também responda a esta conjuntura com as mais diversificadas formas de luta.

Os clássicos e o imperialismo

Pelo que podemos observar até aqui, estamos diante de um conjunto de fenômenos novos. Resta saber se estes configuram uma mudança de patamar na história do capitalismo ou se trata apenas de uma evolução natural das forças produtivas capitalistas. Entendemos que se trata de uma nova fase do capitalismo, semelhante à que ocorreu no final do século passado com a fusão dos capitais bancário e industrial. A globalização produtiva alterou o lócus de extração do valor, a partir do qual a burguesia passou a capturar a mais-valia fora de suas fronteiras nacionais. No período anterior, a burguesia se apropriava da mais-valia nos países da periferia mediante a troca de mercadorias ou pela exportação de capital, agora passou a explorar diretamente os trabalhadores nestas regiões, o que altera de maneira significativa o processo de acumulação do capital. Os velhos oligopólios tornaram-se transnacionais e transformaram-se em destacamentos avançados desta nova fase do imperialismo, não só por estar presente fisicamente em todos os continentes, mas especialmente porque, em função do seu poder econômico, podem influenciar diretamente as políticas locais.

A exemplo também do período anterior, a reestruturação produtiva marca também uma dinâmica nova nas forças produtivas do capitalismo. Os velhos ramos de produção, típicos da segunda revolução industrial estão sendo relegados a um plano secundário e novos setores produtivos passam a hegemonizar a dinâmica do capital. Essa nova indústria está se consolidando velozmente e mudando radicalmente o perfil das forças produtivas capitalistas. Do ponto de vista patrimonial, o processo de fusões de aquisições em curso nos países centrais não só se assemelha ao passado, como indica a constituição de uma burguesia cosmopolitizada, se não ainda em termos mundiais, pelo menos do ponto de vista regional, quebrando assim, em grande parte, o elo nacional da burguesia e dando um aspecto novo à luta de classe.

O comércio intracorporações, que atualmente responde por cerca de 40% do comércio mundial, subverte radicalmente as chamadas vantagens comparativas, pois abre a possibilidade de se construir relações comerciais entre as nações baseadas exclusivamente nos interesses das corporações transnacionais. Nestas novas relações matriz-filial o subfaturamento e o superfaturamento implementado por parte destas empresas não só violam a lei do valor, como tornam-se um instrumento poderosíssimo de transferência ilegal de recursos da periferia para o centro

Na área financeira, as mudanças são ainda mais profundas. O novo bloco de classe que assumiu o poder no final da década de 70 impôs ao mundo a lógica da especulação como espaço privilegiado para a acumulação do capital e subordinou todas as outras atividades econômicas à dinâmica especulativa. O movimento especulativo no mercado financeiro mundial ganhou uma magnitude nunca antes observada, movimentando uma quantidade de recurso cerca de 10 vezes maior do que aqueles que giram na órbita produtiva. Nem mesmo os mais delirantes especuladores sonhavam com uma situação desta. Essa lógica é tão perversa que força as próprias empresas produtivas a aplicarem uma parte de seus recursos no mercado financeiro, de forma a obterem lucros mais compatíveis com o conjunto da atividade econômica.

No bojo desse frenesi especulativo, os negócios bancários de velha intermediação entre aplicadores e tomadores de empréstimos tornaram-se coisa do passado. Um conjunto de novas instituições não bancárias assumiu a liderança dos negócios e criou uma quantidade tal de novos instrumentos financeiros e derivativos, que hoje pode-se especular com mercadorias reais nas bolsas de futuro, com o câmbio de qualquer nação, com o mais variado leque de títulos públicos e privados ou até mesmo com o salto das pulgas, se acaso alguém estiver interessado nesse tipo de aposta. Não há mais fronteiras para a especulação: ganha-se e perde-se bilhões de dólares do dia para a noite e os capitais mudam de países à velocidade da luz, como se o capital especulativo tivesse encontrado o calcanhar de Aquiles para seu auto-acrescentamento eterno.

A articulação da reestruturação produtiva e da globalização financeira com o neoliberalismo completam o ciclo de mudanças na lógica operativa do capital, pois o neoliberalismo é a expressão ideológica deste processo.Tornou-se hegemônico no mundo e vem refundando todos os estatutos da dominação, numa espécie de vingança tardia de classe contra o trabalho vivo e, no interior do mundo do trabalho, também uma vingança contra as organizações sindicais, bem como contra os direitos e garantias conquistados pelos trabalhadores.

Portanto, em nosso entendimento, esta nova era marca uma fase qualitativamente nova na história do capitalismo, pois os fenômenos que procuramos identificar não se referem apenas à evolução natural do capitalismo, mas constituem um processo novo, semelhante ao que ocorreu na primeira e na segunda revolução industrial. Desta forma, estamos num ambiente em que as teorias que expressavam os fenômenos relativos à segunda revolução industrial não mais respondem plenamente à conjuntura objetiva da globalização.

Portanto, é necessário entender o capitalismo contemporâneo com a cabeça aberta, sem os dogmas e estereótipos que geralmente marcam as pessoas que não gostam de encarar o novo. Vladimir Lênin, o maior quadro teórico deste século, teve a coragem e a grandeza de verificar que a época imperialista diferia do capitalismo concorrencial descrito magistralmente por Marx. Portanto, merecia não só um novo diagnóstico, mas uma nova teoria para que se pudesse compreender a época dos monopólios. Tanto Marx quanto Lênin escreveram sobre o seu tempo; não tinham obrigação nem estavam interessados em adivinhar o futuro. Mas o lastro no qual desenvolveram suas teorias, o método dialético, é uma fonte fértil para que os marxistas de nossa época dêem prosseguimento à sua obra teórica. O objetivo deste ensaio não é criar uma nova teoria do imperialismo, mas levantar um debate sobre estas novas questões e indicar alguns traços fundamentais de nossa época.

Elegendo a obra de Lenin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, como síntese paradigmática da interpretação do imperialismo oriundo da segunda revolução industrial, procuraremos analisar os eixos fundamentais daquela obra para aferir se ainda possui aderência à realidade atual. Lênin elencou cinco traços fundamentais que caracterizavam a nova fase do capitalismo: 1) a concentração da produção e do capital e o aparecimento dos monopólios, os quais desempenham um papel decisivo na vida econômica; 2) a fusão do capital industrial com o capital bancário e o aparecimento da oligarquia financeira; 3) a exportação de capitais, ao contrário da exportação de mercadorias; 4) a formação das associações monopolistas que partilham economicamente o mundo entre si; 5) a partilha territorial do mundo entre as potênciais mais importantes. Lênin caracteriza ainda que o imperialismo não era uma nova formação sócio-econômica, mas a fase superior do capitalismo, em que se aguçariam todas as contradições do capital. Nesse sentido, Lênin afirmava que esta fase seria marcada pelo capitalismo parasitário, em decomposição e agonizante, a ante-sala do socialismo[15]. Vejamos como se apresenta cada uma dessas características no mundo atual:

A concentração da produção e do capital continuam sua marcha histórica, como Marx já havia identificado anteriormente, baseado na própria lógica da acumulação. No entanto, o que distingue a época atual do período de Lênin é que as corporações transnacionais passaram a extrair diretamente, e de maneira generalizada, o valor fora de suas fronteiras nacionais, tornando-se exploradoras diretas tanto no centro quanto na periferia capitalista, ao contrário do que acontecia anteriormente quando se apropriavam da mais-valia mediante a exportação de mercadorias ou a exportação de capitais.

Em conseqüência da globalização, o grande capital passa novamente por uma remonopolização global, através de um processo intenso de mega-fusões e incorporações em todos os estamentos do capital – industrial, bancário e de serviços. Isso poderá redefinir uma nova partilha econômica do mundo, possivelmente em função da área de influência da Tríade imperial a partir de suas regiões de origem, e dar um caráter novo à luta pela hegemonia entre os blocos do grande capital. Em outras palavras, diante dos novos fenômenos oriundos da globalização, impôs-se novamente a necessidade de uma remonopolização global, de forma a que o grande capital pudesse unificar novamente sua estratégia, não só para reorganizar-se diante da globalização para impor uma nova disciplina ao mundo do trabalho, mas principalmente para contrarrestar a tendência decrescente da taxa de lucro que caracterizava a conjuntura após a segunda guerra mundial. Ou seja, a qualidade desse processo não é movida simplesmente por uma nova fusão do capital bancário com o capital industrial, mas por uma configuração inteiramente nova, que envolve praticamente todas as fases do ciclo do capital.

A exportação de capitais hoje difere significativamente do período da segunda revolução industrial e mesmo no período de ouro do Walfare State. No período inicial do imperialismo, a exportação de capitais era destinada à construção de estradas de ferro, minas, portos e outros equipamentos de infra-estrutura, sem que houvesse grandes inversões na área fabril, até mesmo porque não era interessante para os países líderes desse processo a industrialização da periferia. Isso pode ser constatado pelo fato de que apenas alguns desses países conseguiram realizar sua industrialização, assim mesmo muito tardiamente. Somente com a internacionalização da produção é que os capitais migraram para a construção de plantas fabris em alguns países da periferia, mas aí já se tratava de um processo novo, onde a internacionalização da produção conduzia a burguesia a extrair o valor diretamente nestas regiões.

Ouro aspecto que chama a atenção na exportação de capital atual é o fato de que cerca de 80% do investimento direto externo não está direcionado aos países da periferia, mas aos países centrais, ressaltando-se ainda que vem decrescendo a participação dos países periféricos neste tipo de investimento[16]. Se a exportação de capital está se desenvolvendo centralmente entre os próprios países imperialistas, a relação de subordinação e de trocas desiguais deve ter uma nova leitura, e não ficar restrita à tradicional subordinação entre os países imperialistas do passado e suas colônias ou nações satélites. É bem verdade que a subordinação é a lógica da relação centro-periferia, mas o montante de recursos dessas operações direciona o centro do fenômeno para outras regiões e não para a periferia.

Todavia, o aspecto mais importante a exportações de capitais hoje não se verifica na esfera produtiva, mas essencialmente na órbita financeira. A partir do final dos anos 60, constata-se crescentemente a privatização da liquidez internacional, ao contrário do período anterior, quando a maioria dos empréstimos era oriunda de entidades financeiras internacionais. Essa privatização foi fruto de um movimento do capital norte-americano no sentido de burlar as leis restritivas a saídas de capitais do País. Para tanto, os bancos começaram a criar títulos com valor em dólar americano, mas emitidos fora dos EUA, mecanismo que foi crescendo como uma bola de neve e formando um peculiar mercado de moedas, que posteriormente transformaria e Europa e, especialmente, Londres, no principal centro financiador das atividades mundiais[17].

A internacionalização do capital bancário consolidou-se com a criação dos consórcios internacionais e das agências insulares nos paraísos fiscais. “Este conjunto de fatores provocou uma verdadeira explosão dos negócios bancários, o que se incrementou com o aumento dos preços do petróleo praticados pela OPEP. Os bancos, já experientes neste tipo de serviço, iniciaram uma extraordinária reciclagem dos petrodólares, ampliando de maneira acentuada os empréstimos para o terceiro mundo[18]”. O Mercado de eurodólares começou a descobrir que era mais vantajoso emprestar para nações do que para empresas e assim transformou-se no principal financiador das operações de dívida externa desses países, gerando um débito gigantesco e aprisionando essas nações nas malhas dos interesses bancários desregulados.

Mas é importante ressaltar que, com o mercado de eurodólares, processa-se uma mudança profunda na exportação de capitais, que viria consolidar-se e incrementar-se com a desregulamentação dos governos Reagan-Tatcher. “Para ampliar seus lucros a oligarquia financeira mudou o seu centro de gravidade, reduzindo os investimentos diretos em função do capital de empréstimos, o que amplia o caráter parasitário do imperialismo”[19]. Se o centro de gravidade da exportação de capitais já estava alterado com a formação da dívida externa dos países da periferia, a desregulamentação veio intensificar de maneira extraordinária esse processo, que hoje se constitui de mera especulação com o dinheiro.

Outro dado novo na exportação de capitais é o fato de que as instituições multilaterais, formadas na Conferência de Bretton Woods, romperam com seus estatutos originários e se transformaram pura e simplesmente em instrumentos do neoliberalismo, respaldando o frenesi financeiro em curso no mundo e impondo políticas destrutivas nos países da periferia. Desde a crise da dívida externa, a partir de 1982 com a moratória mexicana, que o Banco Mundial e, principalmente, o Fundo Monetário Internacional transformaram-se numa espécie de Comitê Político-Financeiro do bloco de forças sociais que passaram a hegemonizar a economia mundial e que têm na especulação financeira o lócus de sua atividade econômica.

A partilha econômica e territorial do mundo também se desenvolve de maneira bastante diferenciada do período inicial do imperialismo. No que se refere à territorialidade, há uma tentativa desesperada dos Estados Unidos no sentido de se transformar numa potência hegemônica incontestável e, a partir desta posição, tirar o máximo proveito da nova ordem econômica internacional e realizar uma recolonização sofisticada dos países da periferia, onde o aspecto central seria o controle absoluto destas economias, se possível com a instituição da dolarização generalizada. Trata-se de uma recolonização que não inclui a ocupação geográfica no sentido clássico (a não ser em regiões rebeldes, ou ainda onde for determinante os interesses americanos, como na Amazônia, por exemplo), mas busca o controle econômico-financeiro dessas regiões.

Ainda com relação à partilha territorial, está em curso, com uma série de problemas, a formação dos blocos econômicos nas principais regiões econômicas do mundo. Estes blocos refletem, de um lado, os problemas e contradições da luta interburguesa, e de outro, uma surda luta de resistência contra a tentativa norte-americana de construir uma ordem unipolar, tendo a nação yanque como centro. Como se trata de um processo em construção, não se pode visualizar ainda o desfecho definitivo. Mas, de qualquer forma, a partilha territorial do mundo hoje tem aspectos radicalmente divergentes dos tempos dos primeiros monopólios.

Do ponto de vista econômico, a partilha definitiva também será resultado da luta surda pela hegemonia em curso nos países centrais. Mas o processo intenso de mega-fusões e incorporações que vem sendo realizada especialmente na década de 90 indica uma remonopolização da burguesia e a tentativa de cosmopolitização, se não plena pelo menos regional. A configuração do controle dos mercados, tanto no que diz respeito ao investimento produtivo quanto financeiro, vai depender não só do sucesso da globalização produtiva, mas principalmente do resultado do processo de financeirização da riqueza imposto pelo bloco de forças no poder nos países centrais e da periferia.

Finalmente, a tendência à decomposição e ao parasitismo, identificado por Lenin como sendo uma das características da oligarquia financeira mantém a sua essência, mas foi aprofundada de maneira extraordinária e revela aspectos novos e relevantes. A oligarquia financeira ampliou o seu parasitismo e muitos Estados imperialistas transformaram-se em nações rentistas[20], o que lhes permite ampliar o poder regulador e orientador dessa nova fase do capital. A transferência de recursos dos países da periferia para os países centrais nas duas últimas décadas, por conta principalmente dos mecanismos financeiros impostos pela nova elite no poder, pode ser considerada muito maior que toda a extorsão realizada no período colonial, o que por si só dá uma dimensão do rentismo institucionalizado de nossa época.

Como se sabe, a financeirização da riqueza ou o rentismo institucionalizado, é uma expressão degenerada da acumulação de capitais e demonstra um aprofundamento sem precedentes do parasitismo da nova burguesia. A “valorização” da riqueza pela via financeira cria uma contradição entre a velocidade de expansão da órbita financeira, o crescimento do setor produtivo e o poder aquisitivo das massas, tornando assim a defesa da riqueza por esta via uma aventura sem futuro, pois haverá inevitavelmente um momento de ruptura desse processo para compatibilizá-lo com a economia real, o que deverá ter conseqüências dramáticas tanto para especuladores quanto para a ordem econômica capitalista.

Dilemas e perspectivas

O século XX pode ser considerado uma época de mudanças extraordinárias para a humanidade, um século revolucionário, muito embora com um final trágico. Nestes 100 anos o mundo conheceu pela primeira vez em sua história um novo modo de produção e uma nova formação social, que abolia a propriedade privada dos meios de produção e instituía uma sociedade governada pelos produtores. Mas também foi testemunha de uma tragédia histórica: a queda da União Soviética e dos países do Leste Europeu e a restauração capitalista nesses. Além disso, o sistema capitalista reestruturou-se com uma vitalidade impressionante, capaz de impor novamente à humanidade regras e normas que se imaginava sepultadas pela história.

O século começa com uma grande revolução no México, em 1910, quando os camponeses cumprem uma jornada revolucionária, que abala todas as estruturas sócio-econômicas do País, muito embora, por suas limitações ideológicas, não tenham completado o ciclo revolucionário. Somente a partir de 1917, com a revolução bolchevique, abre-se efetivamente um ciclo novo na história da humanidade. A partir daí parecia que o mundo estava em marcha para o socialismo. Essa visão consolidou-se com a derrota do nazismo, para a qual a União Soviética teve um papel preponderante, quando cerca de um terço da humanidade passou a viver em sistemas diferentes do capitalismo. A marcha progressista prosseguiria com as lutas de libertação nacional e a descolonização das décadas de 50 e 60 e as lutas de libertação nacional em todo o mundo, inclusive com a criação de uma primeira nação socialista nas Américas – Cuba, além de outras nações em transição para o socialismo na África.

O ciclo progressista que se iniciou em 1917 seguiu vitorioso até a revolução sandinista, em 1979, mas fechou-se bruscamente no final da década de 80, com a queda do Muro de Berlim, e especialmente no início da década de 90, com a desagregação do bloco socialista do Leste europeu. O capitalismo, ao contrário do que imaginavam os clássicos e os revolucionários de todo o mundo, não foi a bancarrota. Pelo contrário, no final do século XX conseguiu demonstrar ainda uma enorme vitalidade, não só ao derrotar as primeiras experiências socialistas, mas também ao realizar uma reestruturação produtiva e uma nova configuração financeira, que vêm produzindo uma mudança de qualidade neste velho modo de produção.

No entanto, o ciclo de euforia dos capitalistas que se abriu com as derrotas da década de 90 está se esgotando, pois o núcleo central de sua ideologia, o neoliberalismo, está cada vez mais intensamente sendo contestado não só por expressivos setores da população, mas até por segmentos burgueses que antes o apoiavam entusiasticamente. O produto social destas duas décadas, por sua agressividade contra o movimento operário, por sua arrogância contra os valores humanos e sociais, pela imensa concentração de renda e ampliação da barbárie social, tornou mais aberta e mais clara luta de classe. Além disso, a desmoralização das instituições burguesas e a manipulação indiscriminada dos meios de comunicação, estão servindo para desmistificar ilusões e criar entre as massas um sentimento de independência política, muito embora não se tenha ainda uma síntese que as oriente no sentido da buscas de mudanças profundas no sistema.

Objetivamente, o sistema capitalista está potencialmente mais fraco que no período do imperialismo clássico. As modificações que o sistema vem sofrendo nesta nova fase aprofundaram todas as suas contradições, podendo-se afirmar que hoje estamos muito mais próximos do socialismo, em caráter global, do que no período em que Lenin escreveu “O Imperialismo”. A globalização produtiva, com seu imenso potencial, tende à crise pela superprodução de mercadorias, oriunda da superacumulação de capitais. Caso os capitalistas da área produtiva queiram regular a produção, desviando recursos para a órbita financeira, e assim evitando a superprodução, não poderão desvencilhar-se da armadilha das contradições, uma vez que a fuga para frente na órbita financeira, apenas incrementará a crise nesta área. Por qualquer dos ângulos que se possa observar a economia contemporânea, há uma perspectiva de crise em larga escala. Isso não significa que o capitalismo está no fim, mas indica que o volume de contradições é tão grande que a crise poderá originar uma situação revolucionária.

Estes momentos históricos de transição são pródigos de acontecimentos inesperados, tanto no campo social quanto político. Ora, numa situação dessa ordem, a tendência principal é a de que, quanto maior for a crise, maiores possibilidades terão as classes populares para disputar a hegemonia com a burguesia. A reestruturação produtiva está criando uma classe operária mais moderna, mais especializada e com muito mais iniciativa no interior das plantas fabris. Esta classe será a vanguarda da luta pelas transformações, não só pelo seu papel no interior da produção, mas porque a nova conjuntura necessitará de sujeitos políticos mais preparados e com peso suficientes para assestar golpes decisivos aos inimigos de classe.

Além disso, a diversidade de formas de exploração, a agressividade social do neoliberalismo e a desmoralização das instituições seculares estruturadas pelo capitalismo podem abrir possibilidades para que as classes populares encaminhem suas lutas de forma diferente. Um dos fatores que mais se destaca nesta nossa época é a clara limitação das lutas institucionais. Afinal não se pode combater esta nova fase do imperialismo com as armas da fase anterior. A via institucional, como caminho privilegiado para as mudanças, está esgotada, mantida esta institucionalidade do grande capital. Privilegiar apenas esse caminho significa optar pela frustração periódica, pois a cada embate político, como no caso das eleições, a burguesia utilizará todo o seu poder econômico, bem como os métodos de manipulação para impor os seus interesses, restando às forças progressistas apenas a lamentação e a perplexidade.

Por isso é importante verificar a experiência das lutas dos últimos anos. Uma característica de destaque atualmente é o fato de que somente aqueles que estão lutando de forma diferente, contra um inimigo que se utiliza métodos também diferentes, é que estão conseguindo vitórias. Foi a luta direta das massas que transformou o Movimento dos Sem Terra, no Brasil, no principal pólo de oposição ao neoliberalismo e na única instituição a derrotar sucessivamente o governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso. Foi a luta direta das massas que construiu na Colômbia um poder paralelo, que vem assestando golpes cada vez mais duros à oligarquia reacionária daquele País. Foi a luta direta das massas que possibilitou a insurreição no Equador que, apesar de derrotada, abriu um enorme espaço para as massas atuarem politicamente e buscaram novamente as transformações no país. Foi a luta direta das massas que transformou um pequeno Estado do México em referência de resistência naquele País, sendo que até hoje o governo não conseguiu derrotar o movimento zapatista. Existem muitos mais exemplos na conjuntura atual, mas estes bastam para configura uma via luta contra o neoliberalismo.

Em síntese, apesar da derrota da primeira experiência do socialismo, o sistema capitalista não se transformou num referencial para a humanidade, nem destruiu a possibilidade de construção de uma sociedade sem classes. Há a possibilidade real de que a crise oriunda do fracasso do neoliberalismo abra uma nova e prodigiosa situação revolucionária, onde a questão do socialismo reapareça como uma vitalidade bem maior da que ocorreu com o aparecimento dos monopólios, só que agora livre das deformações e dos desvios que ocorreram no recente passado socialista.

Além disso, por mais paradoxal que pareça, a reestruturação produtiva está construindo as bases para uma sociedade da abundância, uma vez que o desenvolvimento das forças produtivas incrementará de maneira extraordinária a produtividade do trabalho. No entanto, como todos sabemos, o sistema capitalista não tem nenhum compromisso com o progresso social e, portanto, não será capaz de satisfazer as necessidades materiais da população. Mesmo assim, essas forças produtivas sofisticadas proporcionam os elementos objetivos para a sociedade da abundância de bens e serviços. Caso se conquiste as transformações estruturais do capitalismo no decorrer de uma crise mundial do sistema, já se tem as bases materiais para a construção da sociedade comunista.

* Edmilson Costa, é doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ex-diretor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo e atualmente coordenador do Instituto de Pesquisas Econômicas, Sociais e Administrativas da Universidade do Grande ABC, em São Paulo, onde leciona Economia e Metodologia da Pesquisa Científica. É autor de O Imperialismo, (Global Editora, 1986); A Política Salarial no Brasil (Boitempo Editorial, 1997); e Um projeto para o Brasil (Tecno-Científica, 1998), além de artigos publicados no Brasil e no exterior.

[1] Este ensaio é uma releitura de um conjunto de trabalhos que o autor publicou sobre o tema, entre os quais “O Imperialismo”, Global Editora, 1986; “Reflexões sobre o capitalismo contemporâneo”, Revista Análise, PUC-RS, 1993; “O capitalismo contemporâneo e a crise dos Estados nacionais” in “O Leviatã”, 1996.;“A encruzilhada da globalização ou a necessidade de reinventar a utopia”, Cadernos CPV e Brasil Revolucionário, 1998; “Contribuição para o debate sobre a globalização”, texto para o XI Congresso do PCB; Curso sobre “Globalização e Mercosul”, realizado na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, 1997; além de reflexões mais atuais sobre a globalização e a nova fase do imperialismo.

[2] A extração da valor fora das fronteiras nacionais foi profundamente estudada por Charles-Albert Michalet, em Capitalismo Mundial. São Paulo: Paz e Terra, 1984, muito embora o trabalho de Michalet não esteja vinculado ao processo de globalização atual.

[3] Este é o título de uma trabalho pioneiro no Brasil de Braga, José Carlos de Souza. A financeirização da riqueza – a macroestrutura financeira e a nova dinâmica dos capitalismos centrais. Texto para discussão. Fundap, 1991.

[4] Dados citados em Chesnais, François. A Mundialização do Capital. São Paulo: Xamã, 1996.

[5] Resoluções do X Congresso do PCB, 1993.

[6] Inozentsev, N. O capitalismo contemporâneo, novas realidades e contradições. Venda Nova–Amadora: Manuel Xavier Editores, 1975.

[7] Kurtzman, Joel. A morte do dinheiro – como a economia eletrônica desestabilizou os mercados mundiais e criou o caos financeiro. São Paulo: Atlas, 1995.

[8] O processo de remonopolização global já era indicado em ensaio que elaboramos em 1992 e que posteriormente foi publicado em 1993, em Reflexões Sobre o Capitalismo Contemporâneo (Revista Análise, vol. 4, No. 1. PUC-RS. Porto Alegre, 1993). “Em nível do capital, haverá um processo de refusão das burguesias, mediante fusões e incorporações de grandes conglomerados industriais e financeiros, levando inevitavelmente a uma remonopolização mundial, novas partilhas de mercado e uma maior cosmopolitização burguesa, hierarquizada a partir do seu pólo hegemônico”.

[9] Petras, James. Neoliberalismo en América latina – la izquierda devolve el golpe. Rosario, Argentina: Homo Sapiens Ediciones, 1997.

[10] Anderson, Perry. Balanço do neoliberalismo in Pós-neoliberalismo, organizado por Emir Sader e Pablo Gentili. São Paulo: Paz e Terra, 1995.

[11] Friedman, Milton. Capitalismo e liberdade. Coleção “Os Economistas”. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

[12] Petras, op. cit.

[13] Este é o título de um livro pioneiro de René Villareal, A Contrarevolução Monetarista. Rio de Janeiro: Record, 1984. São Paulo: Record, 1984.

[14] Batista, Paulo Nogueira. O Consenso de Washington – a visão neoliberal dos problemas latino-americanos. In Cadernos da dívida externa. São Paulo, 1995.

[15] Lênin, Vladimir. Imperialismo, fase superior do capitalismo. Lisboa: edições Avante, 1975.

[16] Chesnais, François. A Mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996

[17] Moffit, Michel. O dinheiro do Mundo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.

[18] Costa, Edmilson. Imperialismo. 2. ed. São Paulo: Global, 1989.

[19] Idem, op. cit.

FONTE: http://globalization.sites.uol.com.br/Paraondevai.htm

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