Crise em Darfur: Sangue, fome e petróleo


Mohammed Hassan

Mohammed Hassan

Entrevista com Mohammed Hassan. Crise em Darfur: Sangue, fome e petróleo

Da guerra do Darfur pouco se sabe no mundo Ocidental e as notícias que aparecem nos jornais servem fundamentalmente para desinformar.
Nesta entrevista, o ex-diplomata etíope Mohammed Hassan faz uma esclarecedora resenha das origens e do desenvolvimento dos problemas do Darfur e do Sudão.
Com a descoberta do petróleo, a mundialização e o desenvolvimento das redes de informação, toda a gente quer a sua parte do bodo. Assim, as elites do sul, a burguesia de Darfur, reclamam actualmente a repartição das riquezas perante um governo central que monopoliza o poder e os recursos. O que é específico na crise do Darfur é que estas contradições foram ampliadas e politizadas devido ao compromisso da China com o Sudão.

Grégoire Lalieu y Michel Collon

Está prestes a consumar-se no Darfur o primeiro genocídio do século XXI? Esta província do Sudão é o palco de um conflito que sensibiliza a opinião pública internacional. Como em qualquer outro conflito em solo africano, chegam-nos imagens de miséria: homens destroçados, crianças a chorar e banhos de sangue. No entanto, África é o continente mais rico do mundo. Neste novo capítulo da nossa séria «compreender o mundo muçulmano», Mohammed Hassan revela-nos as origens do paradoxo africano e recorda-nos que o Sudão acolhe diferentes etnias e religiões, tal como dali transborda sobretudo petróleo.

Grégoire Lalieu y Michel Collon (GL e MC): – Quais são as origens da crise no Darfur ? O actor estadounidense Georges Clooney é membro da associação «Salvemos o Darfur» e denuncia o massacre às mãos das milícias árabes. Num sentido contrário, Bernard-Henry Levy, que tenta mobilizar a opinião pública internacional, assegura que se trata de um conflito entre o Islão radical e o Islão moderado. A crise do Darfur tem origem étnica ou religiosa?
Mohammed Hassan (MH):
– Trata-se de uma enorme região de África, rica em recursos, que poderia estar unida e desenvolvida. Os que pretendem que a crise de Darfur se deve a um problema étnico ou religioso não conhece bem a região. Esta guerra é realmente uma guerra económica. As potencias coloniais de ontem e as potencias imperialistas de hoje são as responsáveis pelas desgraças da África.

Toda a região, desde o Sudão até Senegal partilhava no passado as mesmas origens culturais e transbordava riqueza. Poderia estar unida e desenvolvida se o colonialismo do século XIX não tivesse estabelecido fronteiras artificiais no seu interior. Digo que se tratam de fronteiras artificiais porque foram criadas de acordo com as relações de força entre as potências coloniais, sem terem em conta a realidade do território e ainda menos a vontade do povo africano. No Sudão, foram os colonos britânicos que ao aplicarem a política do «divide e vencerás» lançaram as bases dos conflitos que dilaceram o país.

GL e MC: – O Sudão foi uma colónia britânica. Que interesse tinha a Grã-Bretanha nesse país?
MH: -
No século XIX a concorrência na Europa era feroz. Na luta pela hegemonia as potências europeias tinham necessidade de recursos humanos, financeiros e materiais. Até então, a Grã-Bretanha contava com a sua adorada colónia, a Índia, mas circunstâncias especiais levaram-na a investir em África: em 1805, Mohamed Ali, um dos governadores do Império Otomano, meteu ombros à tarefa de transformar o Egipto num Estado modernocujas fronteiras não cessavam de se estender, alcançando a costa da Somália e incorporando o Sudão. O grau de desenvolvimento conseguido por quem hoje é considerado o pai do Egipto moderno inquietou muito a Grã-Bretanha, que via aí nascer um concorrente. Então, o Império Britânico invadiu o Egipto para o converter em colónia e, por arrasto, o Sudão também se converteu em colónia anglo-egípcia em 1898.

GL e MC: – Quais foram as consequências da colonização britânica no Sudão?
MH: -
Como em qualquer outra colónia africana a Grã-Bretanha aplicou a política do «divide e vencerás». Então, o Sudão foi fragmentado em duas partes: no norte, conservou-se o árabe como língua oficial e manteve-se o Islão, no sul impôs-se o inglês e os missionários converteram a população ao protestantismo. Não devia existir intercâmbio nenhum entre as duas novas regiões constituídas. Inclusivamente, os britânicos levaram para lá minorias gregas e arménias para constituírem um colchão de separação entre o norte e o sul!

Além disso, a Grã- Bretnha introduziu um sistema económico moderno no Sudão, a que poderíamos chamar de capitalismo. Construíram-se linhas de caminho-de-ferro: a primeira unia a colónia com o Egipto, enquanto a segunda partia de Kartum e chegava a Porto Sudão, na csta do Mar Vermelho. Esta última era verdadeiramente o eixo do espólio do Sudão. Por ela escapavam as riquezas do país até à Grã-Bretanha ou para serem vendidas nos mercados internacionais. Por escolha dos britânicos, Kartum transformou-se numa cidade muito dinâmica no plano económico e ali emergiu uma burguesia. A divisão do Sudão entre o norte e o sul levada a cabo pela Grã-Bretanha e a escolha de Kartum como centro da actividade colonial iam ter um impacte desastroso na história do Sudão. Ambos os factores conduziram à primeira guerra civil no país.

GL e MC: – Quais foram as razões desta primeira guerra civil?
MH: -
Quando o Sudão consegue a sua independência em 1956, não existia nenhuma relação entre as duas partes do país. O norte muçulmano considerava-se árabe e tinha obtido benefícios da actividade económica durante a colonização britânica, de tal forma que o poder e as riquezas tinham-se centralizado à volta de Kartum. O sul era protestante e apresentava-se como uma sociedade africana tradicional, e ao longo da primeira guerra civil, que durou até 1972, reclamou uma distribuição equitativa das riquezas. Naquela data, assinou-se um acordo de paz e o Sudão passou a Estado Federal. Nos finais dos anos 70, a companhia petrolífera estadounidense Chevron descobriu importantes jazidas de petróleo no Sudão. O presidente de então, Numeiri, quis alterar as fronteiras do Estado federal para que o Poder Central pudesse controlar a riqueza petrolífera. Esta violação do acordo de paz reabre a guerra civil entre o norte e o sul do país em 1980. Uma guerra que vai durar mais de 25 anos.

A província de Darfur encontra-se no oeste do Sudão, que é atravessado pelo rio Nilo.

Assim, em pouco mais de 50 anos, O Sudão viveu duas guerras civis. E hoje a crise da Darfur afecta o oeste do país. A situação étnica ali parece explosiva. Compreende-se melhor porque é que alguns meios de informação falam de barril de pólvora quando se referem a este país.

Não se trata disso. A maioria das etnias que vivem no norte do país são muçulmanas, fisicamente parecem-se com os egípcios e, se bem que muitas têm dialecto próprio, todas falam árabe como língua oficial. As comunidades do sul são mais características da região do Nilo. A sua pele é mais escura e as religiões dominantes são o cristianismo e o animismo. Mas as guerras civis que enfrentaram as duas partes do país não foram étnicas nem religiosas, mas foram, de facto, originadas pela repartição equitativa das suas riquezas. Analisemos a situação actual do Darfur. Trata-se de um cadinho de etnias, onde as tribos nómadas muçulmanas e arábicas, como os Janjawid ou os Takawa circundam os agricultores sedentários. Quando há grandes secas, estas tribos nómadas emigram para a zona dos agricultores e aí dão-se confrontos. A ideia de que os árabes massacraram os africanos baseia-se na consideração errónea que os Janjawid são árabes. Mas mesmo que esta tribo reivindique umas hipotéticas origens árabes, na realidade, não se vislumbra neles nada do que que caracteriza os actuais árabes.

Há um outro factor importante nesta crise e de que se fala muito pouco: os interesses da burguesia regional. Com a descoberta do petróleo, a mundialização e o desenvolvimento das redes de informação, toda a gente quer a sua parte do bodo. Assim, as elites do sul, a burguesia de Darfur reclama actualmente a repartição das riquezas perante um governo central que monopoliza o poder e os recursos. O que é específico na crise do Darfur é que estas contradições foram ampliadas e politizadas devido ao compromisso da China com o Sudão.

GL e MC: – Que papel desempenha a China no Sudão?
MH: -
Depois de ter importantes jazidas de petróleo, a Chevron teve de abandonar o Sudão por dois motivos. Em primeiro lugar, o novo país tinha-se tornado instável devido à segunda guerra civil. Em segundo, se bem que os Estados Unidos tivessem mantido até aí boas relações com o Sudão, o novo regime islâmico criado por Omar al-Bachir, em 1989, era-lhe claramente hostil. O petróleo sudanês escapava das mãos estadounidenses. É então que chega a China com a seguinte mensagem: «Vou comprar as vossas matérias-primas aos preços actuais do mercado internacional.» Uma situação de vantagens comparativas, tanto para a China como para o Sudão. A primeira pode dispor dos recursos que necessita para o seu desenvolvimento, enquanto o segundo não se vê obrigado a solicitar empréstimos às instituições internacionais. No entanto, esta intromissão chinesa em África é de importância histórica e é o que assusta os imperialistas europeus e estadounidenses.

GL e MC: – O que entende por vantagens comparativas?
MH: -
David Ricardo, o economista burguês mais importante depois de Adam Smith, desenvolveu a teoria do que ele chama vantagem comparativa, conceito aplicado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial (BM) nos países do Terceiro Mundo durante os últimos cinquenta anos. Imaginemos que somos um país produtor de bananas. Chega o FMI e diz-me: «Vós produzis bananas, tem conhecimentos sobre o seu cultivo e desenvolveram os recursos humanos para isso: especializaram-se! E quanto mais se especializarem nessa cultura, mais reduzirão os custos de produção e serão mais eficazes. Se seguirem esta metodologia terão uma vantagem comparativa no mercado e o vosso país desenvolver-se-á». Então, eu aumento a minha produção de bananas, mas o meu vizinho faz o mesmo. O resultado é que passa a haver demasiadas bananas no mercado! E como o consumidor não as vai consumir noite e dia, os preços caiem. É como o método de um médico que tem uma multidão de doentes a quem prescreve o mesmo medicamento, qualquer que seja a doença.

Agora temos que ter em conta o seguinte: Quando em 1990 se deu a derrota da URSS e do bloco de Leste, o imperialismo ocidental pensou que podia dominar o mundo inteiro. Mas a China começou a transformar-se economicamente e hoje tem necessidade de tudo, desde bananas e amendoins a petróleo e minerais. Este novo gigante vai, por isso, ao encontro dos países ricos em matérias-primas com vontade de comprar as suas reservas a preços de mercado. Evidentemente, todos os países africanos que possuem abundantes recursos se voltam para a China. Qualquer homem de negócios que desejasse ter melhores lucros o faria! O capitalismo deslocado para a Ásia e África deve habituar-se a esta nova situação.

África foi sempre uma coutada do Ocidente. Esta é uma grande mudança.

Esse é o cerne da questão. O Ocidente adoptou uma posição muito ambígua sobre este assunto. Por um lado, tira enormes lucros da sua associação com a China, por outro, não aceita de modo algum que África negoceie como gigante asiático. Com efeito, as potências imperialistas não querem perder o seu domínio sobre o rico continente africano. Perante este dilema, o Ocidente mantém a sua atitude vergonhosa: em vez de enfrentar abertamente a China, exerce pressões sobre os governos africanos que escaparam ao seu controlo e explora as crises humanitárias em seu próprio benefício.

GL e MC: – Como tenta o Ocidente que o Sudão comercie directamente coma China?
MH: -
Fazendo tudo para desestabilizar o governo. E para isso aplica a regra de ouro do colonialismo «dividir para reinar». Durante a segunda guerra civil, os Estados Unidos apoiaram financeiramente o Exército Popular de Libertação do Sudão, um movimento rebelde do sul. Como este movimento recebia dinheiro e armas, e o Governo tinha podido melhorar o seu Exército com os proventos do petróleo, o conflito durou mais de vinte anos, e só terminou, finalmente, em 2005. Mal acabou a segunda guerra civil iniciou-se a crise de Darfur. Também é verdade que o governo sudanês adoptou uma atitude militarista em vez de privilegiar a via do diálogo. Não obstante, as potências imperialistas ampliam o problema, a fim de mobilizar a opinião pública internacional e desestabilizar o governo sudanês. Mas se, amanhã, Kartum anunciar que deixa de comerciar com a China, ninguém mais falará de Darfur.

GL e MC: – Poderão as grandes potências ocidentais evitar um confronto directo com a China e conservar o controlo sobre as riquezas do continente africano?
MH: -
Naturalmente. A sua atitude é vergonhosa. De facto, esses países imperialistas são racistas. Desde a colonização do século XIX sempre impediram que África se desenvolvesse, para conservar o controlo das suas riquezas. Mas por que é que este continente não poderia ter relações comerciais com a China quando o ocidente o faz? Por que é que as crianças africanas não podem ter bons sapatos, mesas abastecidas e boas escolas? As potências neocoloniais mantêm o continente mais rico no subdesenvolvimento para manter o controlo das suas riquezas.

Nos Estados Unidos a mobilização pelo Darfur é importante. Muitas associações judias estão implicadas nesta campanha. Porquê?

As razões deste comprometimento são essencialmente históricas. No conflito que durante muito tempo o Estado judeuteve com o Egipto, o Sudão ocupava uma poição estratégica. Na verdade, o Nilo atravessa este país antes de chegar ao Egipto. Hoje Telavive e o Cairo mantêm excelentes relações mas, devido à simpatia da população egípcia para com a causa palestina, esta cumplicidade poderá deteriorar-se. Numa estratégia a longo prazo, Israel sabe que os seus interesses estratégicos no Sudão são importantes. Quem controlar a água do Nilo pode controlar o Egipto. No tempo da primeira guerra civil sudanesa, Israel já apoiava o movimento rebelde do sul, Anyani, com o objectivo de debilitar o presidente egípcio Nasse. Hoje, quando dois movimentos de Darfur assinaram um a cordo de paz com Kartum, Israel continua a apoiar o movimento que prossegue a luta. É por essa razão que o líder líbio Kadhafi, declarou que a crise do Darfur não era um problema sudanês, mas um problema israelense.!

Também é preciso saber que as associações sionistas implicadas nesta campanha de mobilização pelo Darfur nos Estados Unidos tinham o desejo inicial de criar uma frente comum com a s organizações afro-americanas. Uma delas, a Nação do Islão, e o seu líder, Louis Farrakhan, foram ao Sudão, analisaram a situação in loco e tiveram uma discussão firme com o Governo e o seu presidente, Omar al-Bachir. Esta organização, finalmente, chegou à sua própria conclusão: tudo o que está a acontecer não tem nada a ver com negros e árabes. Foi por essa razão que o projecto de integração, tão querido às associações judias, fracassou.

Desde que o Tribunal Penal Internacional emitiu a ordem de captura contra o presidente Omar al-Bachir as reacções estão ainda mais divididas. Os Estados Unidos e a França declararam que o presidente sudanês devia ser julgado. Contrariamente, a China e os países árabes consideram que isso ainda poderia desestabilizar mais o país.

Creio que um Tribunal que apenas ouve o que quer ouvir não é um Tribunal. Deixem-me que lhes dê alguns exemplos. O povo somali esteve sempre em guerra. Mas, no princípio de 2006, organizou-se uma Intifada dirigida pelo Conselho Islâmico. Os rebeldes conseguiram vencer de forma pacífica os senhores da guerra. Restabeleceram a paz em grande parte do país. Retomou-se o comércio, os camponeses voltaram a trabalhar os seus terrenos e desenvolveu-se a comunicação dentro da sociedade. A esperança renascia! Seis meses depois o regime fantoche da Etiópia, manipulado pela CIA e os neoconservadores estadounidenses, invadiu a Somália. O conflito provocou dois milhões de deslocados somalis; 60.000 morreram; muitos afogaram-se no Oceano Índico a tentar chegar ao Yémen; inclusivamente, a Etiópia utilizou bombas de napalm contra civis em Mogadíscio e destruiu a maior parte da cidade. Por que é que nenhum meio de informação alertou a opinião pública sobre este drama? Por que é que não há um Tribunal contra os autores desta tragédia?

O Uganda destruiu o Congo Equatorial e apoderou-se do seu ouro. Para justificar a sua legitimidade o Tribunal deteve Jean Pierre Bemba, um peixe miúdo. Mas o autor daquele trágico plano, o governo ugandês continua em liberdade. Actualmente as suas tropas assassinam civis na Somália. Por que é que não são julgados?

Em 1988, a Etiópia começou a guerra na Eritreia. Com um estilo perfeitamente nazi, apropriaram-se dos bens dos etíopes de origem eritreia. Vários milhares de eritreus foram internados em campos de concentração onde muitos sucumbiram à malária e a outras infecções. Por que é que não há tribunais contra esses criminosos?

Um milhão de iraquianos foi assassinado. Quatro milhões foram deslocados. Um Estado moderno foi destruído. Por que é que não se julga Cheney, Rumsfield ou Bush?

A indústria dos diamantes da África do Sul arrasou a Serra Leoa, foi ela e mais ninguém, quem levou o ex-presidente liberiano, Charles Taylor, perante um tribunal internacional , com acusações tão falsas que deixam qualquer um perplexo sobre a integridade desta Justiça,

Mas cometeram-se crime no Darfur. E, mesmo que o Tribunal Penal Internacional (TPI) não seja imparcial, não deveria Omar al-Bachir ser julgado?

Não nego que se mataram pessoas no Darfur. Mas falar de genocídio é um exagero de um Tribunal imperialista que não é neutral. Todos os partidos políticos sudaneses consideraram que aquela ordem de captura ia contra a soberania do país. O julgamento de Omar al-Bachir deve fazê-lo os africanos. A realidade é que o TPI está ali para pressionar a deixar de comerciar com a China e para que se volte para o ocidente. Provavelmente isso não vai funcionar com o Sudão, mas é um sinal lançado em relação a outros países que estão tentados a seguir o seu exemplo.

GL e MC: – Os camponeses sudaneses enfrentam graves problemas de seca. Não pode o Governo insistir os proventos do petróleo para construir redes de rega? Por que é que um país, que alguns comparam com a Arábia Saudita pelas suas reservas de petróleo é tão pobre?
MH: -
Na Europa tendes países pobres com gente rica. Ao contrário, o Sudão é um país rico com pessoas pobres. É certo que o governo sudanês teria podido investir o dinheiro do petróleo de maneira mais eficaz, mas o facto é que não existe uma solução progressista para todo o país. Por outro lado, a burguesia regional está muito envolvida na corrupção [1]. Depois do acordo de Naivasha que pôs fim à segunda guerra civil, as autoridades do sul receberam seis mil milhões de dólares com o argumento de proceder a uma repartição mais equitativa da riqueza. Mas com todo esse dinheiro, não construíram nem uma só escola! O Sudão necessita de uma verdadeira resposta, mas nós não podemos dar a nossa, porque cabe ao povo sudanês chegar a essa conclusão.

GL e MC: – A solução não seria o federalismo ou o confederalismo?
MH: –
Essa é a solução defendida pelos Estados Unidos para acabar com o conflito com o sul para resolver a crise de Darfur. Um referendo a curto prazo poderia ser a solução, e deveria decidir o estatuto das duas regiões. O interesse das potências ocidentais é enorme: se não podem negociar a exploração do petróleo com Kartum, fá-lo-ão com as regiões autónomas.

Mas o federalismo não é um bálsamo milagroso para todos os problemas políticos do mundo. Na Bélgica convivem três comunidades linguísticas: os nederlandófonos, os francófonos e os germanófilos. Ali, o federalismo estabeleceu-se com base nas línguas existentes o que originou a existência de fronteiras. A Bélgica com um pequeno território, tem seis governos, 550 parlamentares e 55 ministros. O maior índice por habitante do mundo! Apesar desse exército político, o país tem periodicamente problemas comunitários. Na Suiça, pelo contrário, o federalismo baseia-se em cantões, o que torna o sistema mais eficaz. Enquanto 75% da população é germanófila, o Parlamento do país expressa-se em francês sem qualquer problema. Mas é aqui que nos encontramos: a burguesia sudanesa quer um modelo belga.

GL e MC: – Qual a saída para a crise sudanesa?
MH: –
O Sudão é um país muito rico, dotado de tudo o que a natureza lhe podia dar. Mas para sua desgraça, não existe nenhum movimento capaz de integrar toda a sua população à volta da construção de um Estado democrático, unido e igualitário; um Sudão sem chauvinismos nem discriminações; um Sudão que utilizasse todas as suas riquezas na construção de um futuro seguro para o seu povo. Os actuais partidos, incluindo o governo militar, utilizam todo o tipo de slogans: socialismo sudanês, árabe, ou islâmico, nacionalização ou privatização… Mas são incapazes de criar e levar o país para uma democracia moderna e progressista. A burguesia que dirige o país antepõe os seus próprios interesses aos interesses da nação. No entanto, a crise económica e a queda dos preços das matérias-primas não vão proporcionar tantas entradas de dinheiro como no passado. A pobreza vai aumentar ainda mais. Aí estão as circunstâncias que poderão criar o que o Sudão mais necessita: Uma resistência progressista e democrática.

Nota
[1] http://www.southsudannation.com/pres%20afwerki%20interview4.htm
Mohammed Hassan recomenda a lectura dos seguintes artigos::
- Oil in Sudan: Facts and impact on Sudanese Domestic and International Relations
- Oil in Darfur? Special Ops in Somalia?

* Michel Collon é escritor e professor de jornalismo; Grégoire Lalieu é membro do «Centre de Jeunes de la Louvière (Bélgica).
Mohamed Hassan, ex-diplomata etíope

FONTE: http://odiario.info/articulo.php?p=1117&more=1&c=1

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