Existe esquerda liberal?


Será que o Estado capitalista, tradicional inimigo dos trabalhadores, estaria sendo atacado também pelos ideólogos da burguesia? Estado burocrático, ineficiente, corrupto … não eram estas críticas igualmente feitas por setores da esquerda a algumas experiências de construção do socialismo? Qual o problema em considerar a sociedade civil – o conjunto dos interesses e demandas particulares – uma instância social mais dinâmica, democrática e justa em comparação com a “pesada” sociedade política?

Não foram poucos os militantes de esquerda que, desgostosos com rumos e formas assumidas pela luta de classes no mundo, abraçaram o programa neoliberal, não em seus elementos centrais, de desmonte do “Estado Social”, mas sim em relação a fatores complementares, como a criação de agências paraestatais voltadas à formulação de demandas particulares e ao enfrentamento a problemas advindos da falta de políticas públicas em geral. Esta esquerda liberal (social-liberal ou mesmo neoliberal), no Brasil, contou com o amparo de alguns teóricos marxistas, cuja leitura enviesada da proposição gramsciana de “guerra de posições” levou à formulação de teses como a da democracia como valor universal. Para essa vertente, o Estado teria se ampliado de tal forma que estaria cada vez mais diluído na sociedade civil. Com o desenvolvimento das práticas neoliberais, esta formulação teórica acabou servindo para justificar uma ação política restrita ao campo da cidadania e para combater os projetos de transformação revolucionária da sociedade, calcados na luta de classes. Caberia aos novos movimentos sociais (de perfil particularista) forçar o Estado a abrir-se à participação cidadã e forçar as empresas a respeitarem os direitos dos consumidores; aumentar a transparência da atividade política e democratizar o mercado; lutar pela cidadania, pelo direito à consideração das diferenças e a sua incorporação nos planejamentos públicos e privados.

Numa América Latina em pleno processo de superação de regimes militares, a luta pela democratização acabou sendo confundida com este liberalismo de esquerda, que não põe em questão o capitalismo e a sua superação. No Brasil, onde os 21 anos de ditadura civil-militar apagaram muito da memória das lutas populares, essa esquerda liberal, montada no patrimônio político do sindicalismo do ABC, começou a ocupar – a partir do final dos anos oitenta – posições no Estado, como prefeituras de grandes cidades. Com o tempo, exerceu um papel complementar ao neoliberalismo da nova direita tucana, que pregava o pragmatismo econômico e a intocabilidade do mercado. Foram e são complementares, pois se o neoliberalismo mitifica o mercado enquanto promotor do desenvolvimento, esta esquerda liberal e institucionalizada mitifica a sociedade civil enquanto promotora da justiça social. Com os governos petistas a questão das parcerias e da cooperação do setor privado com o público entra com força na pauta política. Busca-se fabricar assim uma desideologização do funcionamento do Estado e a responsabilização dos indivíduos e suas entidades representativas frente à busca de soluções dentro da ordem, vista como inquestionável e única possível – daí falar-se em pensamento único, em fim da história, sendo o capitalismo visto como única possibilidade de organização da produção social.

Leia na íntegra clicando aqui…

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