A Guerra Cibernética – Inovação na contra-revolução Cubana


A Guerra Cibernética
Inovação na contra-revolução Cubana

Hernando Calvo Ospina Após 8 impiedosos anos de administração George W Bush, Barack Obama encaixa como peça de puzzle na imperiosa necessidade de recuperar o sistema através do herói individual. Mais do que as hipócritas declarações de intenções, é a inovação na prossecução dos objectivos imperialistas que caracteriza essência das decisões da administração de Obama. A pega, mesmo com penas de pavão…

Hernando Calvo Ospina – 09.12.09

Nunca antes a cubana Yoani Sánchez me tinha chamado a atenção. Aconteceu quando recolhia informação sobre as políticas do presidente Obama para a América Latina. Mas achei que as suas actividades se inseriam na minha busca. Todos sabemos que Obama não é George Bush filho. Obama pretende ser um inovador.

Dá palmadinhas nas costas, oferece confiança. Ainda que, a pouco e pouco, nos vamos dando conta que por trás deste carinhoso método, a prática recorda que é em Washington que deve decidir-se o destino dos países situados a sul do Rio Bravo.

Com Bush era pau e chicote. Obama deseja renovar: beijos com pau. Demonstrou-o perfeitamente com o golpe de Estado nas Honduras. Condenou-o mas, por baixo da mesa, mantém os golpistas no poder. E para manter a forma de tempos a tempos reconquista-nos.

Bush declarou hostis aos interesses do seu país os governos da Venezuela, Equador, Bolívia e Nicarágua. Ou seja, inimigos a derrotar. Obama envia mensagens de conciliação enquanto reforça os planos para os desestabilizar.

Com Cuba, esse inimigo de meio século, não podia ser diferente. Aí também entrou a renovar. Por exemplo, em 29 de Setembro último, a Secção de Interesses estadunidenses em Havana (SINA) preparou uma grande recepção. Convidou dezenas de artistas e intelectuais cubanos leais à Revolução. E com surpresa geral não foi convidado nenhum dos contra-revolucionários, coisa que não sucedia há dez anos.

Pode ser parte da renovação dos métodos. Talvez se tente atrair algumas destas personalidades que tem prestígio junto da população.

Em cinquenta anos a contra-revolução não serviu ara atingir o objectivo máximo: destruir a Revolução. Porque os seus membros são conhecidos dos vizinhos. E são-no também dos correspondentes da imprensa estrangeira que, com apaixonada morbidez, transmitem para as suas metrópoles quase exclusivamente, as suas versões da realidade cubana.

Esta contra-revolução está desprestigiada por corrupta e inoperante.

Washington tinha urgência em inovar. Além de mandar abrir as portas da SINA aos revolucionários, fez uma coisa que nenhum outro presidente daquela nação tinha feito. Em tempo recorde teve a resposta de um embo da contra-revolução: precisamente Yoani Sánchez.

Foi isto que me chamou a atenção para a senhora Sánchez. Por um lado ela usa o estilo do presidente, por outro encaixa-se na estratégia desestabilizadora de Washington.

A Yoani a Revolução deu-lhe tudo para que obtivesse o título de filóloga. Diz-se na Internet que depois que saiu de Cuba se radicou durante onze meses na Suiça e Alemanha. Em Abril de 2007, de novo a viver em Cuba, aparece o seu blog «geração e».

Utilizando o seu computador portátil, e a partir de hotéis, começou a fazer o que poucos cubanos e não muitos estrangeiros podem fazer em Cuba: pagar a ligação à Internet. Fazia-o durante horas, apesar do elevado preço que temeste serviço. Um preço que corresponde com o que Cuba tem de pagar às empresas estrangeiras que prestam este serviço, uma das consequências do bloqueio imposto pelos Estados Unidos.

Se em alguma coisa Yoani se parece com a contra-revolução tradicional é que não encontra nada de positivo na Revolução. Em linguagem coloquial fala das «desgraças» e no futuro de Cuba.

Cada escrito seu é imediatamente traduzido em 18 idiomas. É muito provável que nenhum outro bloguista do mundo consiga tanto. Nem as transnacionais tem essa capacidade com as suas web. Seguramente só algumas, poucas, entidades da ONU ou da União Europeia.

Em Outubro de 2007, seis meses após a criação do blog de Yoani, o correspondente da agência Reuters emitiu um despacho sobre o blog. Foi publicado por vários media do mundo.

Dois meses depois, The Wall Street Journal recomendava em chamada na primeira página a leitura da página inteira sobre o blog de Yoani que publicava no interior. Poucos dias depois. Em 3 de Janeiro, o diário espanhol El País publica uma entrevista na última página. Em Abril poucos ficaram surpreendidos ao ler que a senhora Yoani, uma completa desconhecida, tinha recebido o prémio Ortega y Gasset, do jornalismo digital, acompanhada de quinze mil euros. O prémio é oferecido pelo Grupo Prisa, proprietário do El País. Grupo e diário inimigos declarados da Revolução cubana.

Em surpreendente cascata chegaram mais prémios e menções na grande imprensa mundial.

Em Maio, Time Magazine situa-a entre as 100 pessoas mais influentes do mundo. Um ano apenas após a criação do seu blog, de ser uma pessoa pública, e já se colocava Yoani a dividir tão destacada menção com personalidades como…

Brad Pitt, reconhecido actor estadunidense, e Angeline Jolie, também actriz e Embaixadora de Boa Vontade da ONU, entre outros títulos. Com políticos como George W. Bush, Evo Morales, Hu jintao e o Dalai Lama…

Alucinante!

Em Fevereiro de 2009, Yoani foi seleccionada como uma das 10 intelectuais mais influentes da América Latina. Isto foi dito pela Fundação Carnigie, na sua revista Foreign Policy. Colocaram-na em quinto lugar, precedida de Gabriel Garcia Marquez, Vargas Llosa, Fidel Castro e José Saramago. E precedia Eduardo Galeano, Carlos Fuentes e Fernando Savater.

Nem a transbordante imaginação de Garcia Marquez o teria posto em letra de forma.

Em Outubro último foi-lhe atribuída uma menção no prémio Maria Moors Cabot, atribuído pela Universidade de Columbia. Este é considerado o mais antigo prémio de jornalismo. Integrando o prémio iam mais quinze mil dólares.

Uma particularidade destes galardões e nomeações: é reduzido o número de membros e decisores do Júri. Em nenhum deles há a votação de grandes colectivos ou do público em geral.

É que quando isto sucede as coisas mudam de figura. Se alguém visitar a página web «lalistawip», Yoani não existe, nem como bloguista. Aí já deixou de ser uma «personalidade». Esta página web é uma das mais importantes do mundo no seu género. E apesar de ser patrocinada pelo Grupo Prisa e El País, entre outros, as estatísticas fazem-se a partir dos votos dos visitantes. Assim não se pode aldrabar, porque os registos podem ser consultados.

Ainda que o sitio mãe do blog de Yoani esteja situado em, o servidor está localizada na Alemanha. Isso é facilmente comprovado, tal como saber que pertence a um tal Josef Biechele. Por sua vez, este sitio web tem um servidor europeu de «cronos AG regensburg», uma sucursal da empresa Strato, igualmente alemã.

Há um pormenor que prende a atenção. Ao visitar esse fornecedor de Internet constata-se que um bloguista não pode estar entre os seus clientes. Não fornecem lista de preços nem da tramitação necessária para ser cliente, ou as características dos seus serviços. Os contratos são feitos por contacto directo.

Outro pormenor mais: o chamado registo do domínio do blog faz-se através da GoDady, uma das empresas utilizadas pelo Pentágono para a «ciberguerra». Talvez isto explique porque pode a senhora Yoani utilizar a tecnologia estadunidense. É que sendo cubana a viver em Cuba as disposições do bloqueio deveriam impedi-la disso.

Foi assim que Yoani Sánchez se transformou numa reconhecida bloguista. De poderosas e variadas formas lhe chegaram ajudas. Já vimos algumas. Essas contribuições não as têm os quase 700 bloguistas que vivem em Cuba. Na sua maioria discutem sobre os problemas existentes na nação, ma com o objectivo de melhorar a Revolução. O contrário de Yoani.

Pondo ao seu serviço a mais moderna tecnologia de comunicação, os inimigos de Cuba converteram-na numa contra-revolucionária de novo tipo. Inovaram.

Também não se deve descartar: o facto de ser mulher e magra também deve ter contado no momento da selecção. Alguém assim frágil a enfrentar a «terrível ditadura».

«É revelador – respondia o presidente Obama a Yoani – que a Internet lhes tenha oferecido, a ti e outros valentes bloguistas cubanos um meio de expressão tão livre (…) A minha administração tomou importantes decisões para promover a liberdade de informação proveniente de e dirigida ao povo cubano, particularmente através das novas tecnologias…»

Até a mais extremista contra-revolução de Miami viu com bons olhos o trabalho de Yoani. O Conselho para a Liberdade de Cuba (CLC) atribuiu-lhe a medalha «Heróis pela Liberdade».

Um dos seus dirigentes contou ao Diário Las Américas (19/11/09) que tinha «perguntado a Yoani se aceitaria receber a condecoração máxima do CLC. E ela surpreendeu ao responder que sim, que era «uma grande honra».

E remata: «Não se pode desconhecer que a guerra é um confronto cibernético. E isso não quer dizer, de forma alguma, que renunciemos à insurreição popular para derrubar a ditadura dos Castro, mas simplesmente que apoiamos qualquer via que seja boa».

* Jornalista e escritor colombiano e colaborador de Monde Diplomatique, residente em França

Este artigo foi publicado em www.rebelión.org

Tradução de José Paulo Gascão

FONTE: http://www.odiario.info/articulo.php?p=1399&more=1&c=1

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