Superar a Crise ou o Capitalismo?


“Com a presente e profunda crise do sistema, a contradição fundamental do capitalismo – o carácter social da produção e a apropriação privada dos meios de produção –, torna-se mais evidente aos olhos da classe trabalhadora, agora menos armada para a intensa luta de classes, devido à derrota da URSS na Guerra-Fria, à maior divisão do movimento operário e sindical, ao reformismo que assaltou uma parte do movimento sindical unitário um pouco por todo o mundo, e ao que Losurdo chama a «autofobia da esquerda».

José Paulo Gascão – 28.12.09

Em finais de 2008, quando se tornou claro não ser mais possível esconder os efeitos em Portugal da profunda crise sistémica do capitalismo, os partidos da burguesia com o PS na liderança depois da sua fusão ideológica com a direita tradicional e os media apanharam a campanha ideológica internacional de apresentação do capitalismo como o único sistema possível e procuraram fazer crer que não havia soluções fora do sistema capitalista.

A perspectiva de colapso dos EUA – Marcelo Rebelo de Sousa reconheceu a sua inevitabilidade no passado domingo quando afirmou que o centro do império vai perder a hegemonia mundial – foi o toque a reunir para a salvação do sistema.

Políticos da burguesia de todos os matizes, passada que foi a desorientação inicial, lançaram-se numa intensa campanha ideológica com dois eixos fundamentais: responsabilizar o neoliberalismo e a falta de regulação pela crise, e prometer um capitalismo novo, racional, saudável e mais humano.

As crises são apresentadas como uma inevitabilidade não apenas do sistema mas da vida, que não seria possível fora do capitalismo. E na defesa desta quadratura do círculo, dos conservadores aos «radicais» todos procuram apresentar diferentes remédios para a crise que não ponham em causa o sistema, fugindo, cada um à sua maneira, da imperiosidade da superação do sistema e do reconhecimento da inerência das crises ao capitalismo.

«Radicais» e alguns sociais-democratas chegam a defender um novo equilíbrio entre o mercado e a regulação, entre capital privado e estatal, mas mantém intacto o poder da classe dominante; defendem como dogma a democracia representativa, fórmula política de consolidação da burguesia no poder, na verdade uma ditadura parlamentar da burguesia de fachada democráticaque, de 4 em 4 anos, decide que partido do sistema entra de turno no governo.

Como afirmação de modernidade e de resolução das contradições no seio da UE defendem o fortalecimento das suas estruturas e a criação de um governo comunitário, em detrimento da soberania do Estado-nação.

Semeando ilusões, os partidos burgueses fomentam discordâncias no que chamam temas «fracturantes», apresentando-se como diferentes em assuntos que não põem em causa o capitalismo.

A LUTA IDEOLÓGICA

Embora em qualquer sociedade as ideias dominantes sejam as da classe no poder, a que possui os meios de produção material e os de produção intelectual, com a vitória da Revolução de Outubro assistiu-se, em Portugal e no mundo, a uma intensificação da luta de classes, potenciada pelos êxitos da URSS que teve aumentos de taxas de produção industrial até então desconhecidas e impressionantes taxas de desenvolvimento da prosperidade social, que muito influenciaram as conquistas sociais no mundo capitalista.

Em duas décadas, a URSS passou de país atrasado com alguns pólos de capitalismo desenvolvido a potência mundial, à principal responsável e com acção decisiva na derrota do nazismo durante II Guerra Mundial.

Com a derrota da URSS deu-se uma enorme regressão e a esquerda e os comunistas pareceram acomodar-se à ideologia veiculada pela imprensa burguesa, que incentivou uma fase de «autofobia em todos os que não tiveram a sorte de fazer parte (…) do povo a que a providência confiou a tarefa de difundir no mundo, com todos os meios, as ideias, e as mercadorias made in USA». E não tão excepcionalmente como seria expectável, uma parte considerável da classe trabalhadora e da «esquerda acaba por inferir tudo a partir da ideologia dominante» [1].

Com a presente e profunda crise do sistema, a contradição fundamental do capitalismo – o carácter social da produção e a apropriação privada dos meios de produção –, torna-se mais evidente aos olhos da classe trabalhadora, agora menos armada para a intensa luta de classes, devido à derrota da URSS na Guerra-Fria, à maior divisão do movimento operário e sindical, ao reformismo que assaltou uma parte do movimento sindical unitário um pouco por todo o mundo, e ao que Losurdo chama a «autofobia da esquerda».

A esquerda e particularmente os comunistas não têm de se envergonhar da sua história.

No entanto, se as lutas económica e política têm ganho a classe trabalhadora, como o demonstra em Portugal a luta de massas durante o 1º governo PS chefiado por Sócrates, é evidente a sua insuficiente resposta ideológica à crescente ofensiva da burguesia.

SUPERAR A CRISE OU O CAPITALISMO?

Um ano após o reconhecimento da crise sistémica do capitalismo, governo, imprensa e gurus da economia capitalista não poupam esforços a tentar impor a ideia que o pior da crise passou, ao mesmo tempo que prevêem o aumento do desemprego em 2010, hoje já na casa dos dois dígitos. Mas se este conceito de «recuperação é estranho e contraditório, ele é também esclarecedor da opção de classe dos seus defensores.

Apregoam o aparecimento de indícios da recuperação, mas associam ao pregão a necessidade de aplacar divisões de classe e, uma vez mais, procuram atrelar a classe trabalhadora à recuperação do capital fictício, destruído pela presente crise de sobreprodução.

No modo de produção capitalista, pela sua própria finalidade a valorização do capital tende a superar os limites que lhe são imanentes, o que só é possível com o recurso a meios (desenvolvimento das forças produtivas, criação de capital fictício, liberalização do sector financeiro, substituição das normas de regulação por outras mais permissivas…) que logo se levantam à frente com violência redobrada, numa nova crise mais devastadora que a anterior.

Se capitalismo não é reformável ele também não cairá de podre, pelo que só a sua erradicação pode evitar uma nova e mais violenta crise num futuro não muito longínquo.

A luta de classes vai intensificar-se e grandes lutas se esboçam com a participação de milhões de trabalhadores.

Mas a passagem à ofensiva da classe trabalhadora só será possível quando a luta de classes for conduzida nas suas três formas – teórica, política e económica – de forma coordenada e ligadas entre si.

[1] Domenico Losurdo, Fuga da História?, 2009, edição da Cooperativa Cultural Alentejana com o patrocínio de odiario.info

FONTE: http://odiario.info/articulo.php?p=1421&more=1&c=1

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