ESTÁVAMOS NO PARAÍSO DA DÉCADA DE 50?


Cuba

Entrevista com o Dr. Arnaldo Silva Leão, professor de História de Cuba, da Universidade de Havana.

Felipa Martinez e Alina Suarez

Entre as campanhas contra a revolução cubana, a propaganda imperialista inseriu a apresentação dos anos 50, do século passado, como um período de prosperidade para a Ilha Caribenha, em um desejo perverso de “provar” as supostas vantagens que o capitalismo trazia ao nosso país.

Sobre a realidade daquele período, que no exterior rememoram como o “paraíso perdido”, falou-nos o Dr. Arnaldo Silva Leão, Professor de História de Cuba, da Universidade de Havana.

Quem são aqueles que se dedicam em “embelezar” os anos 50 e desde quando ocorre isto?

As tentativas para adoçar a década anterior à vitória revolucionária são antigas. Datam da década de 60 e 70, com intelectuais como Jorge Dominguez e Carmelo Mesa Lago. Incluem-se, também, alguns economistas burgueses cubanos de inquestionável talento, que deixaram o país, como Felipe Pazos, José Álvarez Diaz, Rufo Lopez Fresquet e Justo Carrillo, entre outro. Esforçaram-se em apresentar os anos 50 como um período de grande prosperidade e desenvolvimento social para Cuba, com apenas um problema político: a ditadura de Fulgêncio Batista, imposta por um golpe militar, em 10 de Março de 1952.

Para eles era preciso remover apenas a ditadura; restaurar a ordem constitucional e a democracia representativa burguesa, sem negar a necessidade de produzir no país uma limpeza da vida política – como proclamavam os ortodoxos -; proporcionando maior espaço econômico e político para a burguesia cubana não açucareira. Burguesia esta representada pelos economistas citados.

Esta campanha ainda persiste, protagonizada agora por personagens com muito menos informações e conhecimento da realidade cubana e ligada aos mercenários.

Que argumentos se baseiam para mostrar essa suposta antiga prosperidade?

Quase todos esses economistas utilizavam indicadores econômicos e sociais de Cuba, daquele tempo. Comparando com os mesmos indicadores de outros países da América Latina e do Caribe. É uma manipulação muito inteligente e muito hábil das estatísticas.

Considere, por exemplo, a taxa de desemprego: nos anos 50, era muito elevada. No período da entressafras, cerca de oito meses do ano, chegava a 600 mil trabalhadores, taxa de quase 25% da população economicamente ativa, estimada em dois milhões de trabalhadores. Mesmo em tempos de colheita, que era de maior ocupação, a taxa de desemprego situava-se entre 10% e 12%, um valor elevado.

Agora, eles comparam estes dados com outros países da América Latina – incluindo países como o México, Brasil, Argentina, que tiveram, às vezes, taxas maiores -. Por certo, se comparassem com as da América Central, Caribe, e os casos da Bolívia e do Paraguai, teriam taxas superiores à de Cuba.

Eles não dizem, da escassez de postos de trabalho para homens; que muitos postos eram vedados aos negros; e que a maioria das mulheres não trabalhavam, e quando o faziam, limitavam-se basicamente as profissões ligadas ao magistério, enfermagem ou serviços domésticos.

Outro exemplo de manipulação: a renda per capita nacional era maior do que quase todos os países da América Latina e do Caribe. Os economistas manejavam estes indicadores com grande habilidade, pois quase todos tinham como critério que o desenvolvimento econômico de um país era medido pelo renda per capita, o que não é exatamente verdade.

Bem, a questão é como que a renda era distribuída nacionalmente? Evidentemente, de uma forma muito desigual. Cidadãos cubanos comuns não recebiam o mesmo que Julio Lobo, Gómez Mena, Pepin Bosch, ou qualquer um dos grandes potentados.

Ocorre que os economistas aplicavam uma média aritmética: toda a renda nacional dividida pelo número de habitantes. Assim, todos nós estávamos parelhos, mas a distribuição da renda não era, sequer remotamente, parecida. Na verdade, em Cuba, a renda nacional era distribuída principalmente entre os grandes proprietários, assentados, latifundiários e a burguesia comercial.

Esses economistas não levavam em conta, sequer, que uma percentagem do rendimento nacional não permanecia no país. Era produzido aqui, mas remetido para o exterior. Era como se não existisse.

E com outros indicadores se passava o mesma coisa: televisores, rádios, jornais per capita, tudo como se fosse distribuído de forma equitativa, o que, de fato, não ocorria.

Na ordem social, tomavam o analfabetismo, que de acordo com cifras oficiais bastante precisas, obtidas no censo de 1953, em Cuba foi de 23,6%, e comparado ao México – onde, na época, era da ordem de 40% – e outras nações – algumas com até 60%. Assim, Cuba parecia uma maravilha.

Mas esses economistas não falam sobre o que representava estes 23,6% de analfabetos em uma população de mais de cinco milhões de habitantes. O referido censo revelou quase um milhão de analfabetos, sem contar os semi-analfabetos – pessoas que mal conseguiam ler três palavras, escrever o nome e, sem dúvidas, não eram capazes de ler um livro, ou a imprensa – que somavam cerca de outro um milhão de pessoas. Muitos só sabiam escrever seus nomes. Contudo, apareciam nas estatísticas como alfabetizados, o que não eram. Também, não dizem que entre os negros, mulheres e camponeses, o analfabetismo era muito maior.

Se os outros países eram piores não significa dizer que estávamos bem.

Em termos de saúde pública. Qual era a análise deles? Hoje, nós temos uma baixa taxa de mortalidade infantil inferior a 06 por 1000 nascidos vivos – enquanto na época, segundo dados oficiais a taxa era de 60 por 1000. Comparados com outros países da região, que tinham índices de 90, 100, e mais, Cuba pareceria um país muito próspero.

A expectativa de vida era de 55 anos – números oficiais – agora se aproxima de 80. 55 anos, na época, superava a taxa de expectativa de vida de muitos países.

A quantia de seis mil médicos per capita era a maior de quase toda a América Latina: um médico para cada mil habitantes. Porém, estes senhores não esclareciam que a maioria dos médicos daquele tempo, estavam em Havana; que os principais hospitais do país, também estavam na capital e que para ser atendido ali era exigido uma “cunha”: ir até o concejal (vereador), que em troca do atendimento, exigia o título de eleitor e a pessoa se via obrigada a votar nele nas próximas eleições. É verdade que algumas clínicas eram públicas como a La Dependiente, La Covadonga e outras, sobretudo na cidade de Havana, fundadas pelos espanhóis. E havia outras clínicas menores, com 10 médicos e 10 ou 15 camas.

Estas estatísticas, segundo as quais Cuba superava outros países, conduzia os economistas a inferir que nós tínhamos um progresso social e econômico extraordinário. Mas, na realidade, aqueles eram dados piores do que os nossos atuais.

Evidentemente, nessa imagem idílica, não se encaixa a prostituição, o jogo, a mendicância, os meninos engraxates ou vendedores de jornais, os deficientes nas ruas vivendo da caridade pública, entre outras realidades do cotidiano daqueles tempos.

Ainda, que Cuba tinha indicadores superiores ao resto do continente não era sinônimo de desenvolvimento, senão mais dependência, porque a ilha constituía o principal cenário dos investimentos norte-americanos e por sua posição geográfica era de grande importância para a segurança nacional dos EUA.

Como parte desse interesse em enfeitar essa fase histórica existem aqueles que também pretendem limpar a imagem do Batista.

Para estas pessoas que mencionei, a ditadura era inadmissível. Quem pode defender Batista e sua ditadura, senão quatro loucos em Miami? Esta defesa provinha principalmente de Rubén Batista Godinez, o filho mais velho de Batista, hoje já falecido, que se dedicou a elogiar o pai em uma série de discursos. Também por outros filhos que o tirano teve com Marta Fernandez, sobretudo Jorge, dedicado a falar em favor de seu pai, com base em livros escritos por Batista. O primeiro deles intitulado de Respuesta, publicado em 1960, e o segundo, Pedras e Leis, de 1961, onde faltou pouco para Batista atribuir-se a construção do Morro.

Pedras significa dizer tudo o que ele construiu, onde ele menciona muitas obras concluídas durante sua administração, mas iniciadas em épocas anteriores e que não permitiriam que ele as adjudicasse. Incluí-se, ademais, um conjunto de leis, tanto de sua ditadura como da segunda, as quais eram, em sua maioria, letra morta, sem negar algumas positivas, especialmente as do período 1936-1940, quando começou a aspirar ser presidente, que visavam obter apoio e simpatia popular, numa época em que era conveniente criar a imagem de homem democrático e progressista.

Neste livro, Pedra e Leis, algumas informações são distorcidas pelo próprio Batista, para louvá-lo e apresentá-lo como um benfeitor do povo cubano.

Essa defesa diminuiu. Quem defenda ainda Batista desacredita-se a si mesmo, pois carece de argumentos e respaldo. Essa defesa é feita por batistianos como Mario e Lincoln Díaz Balart, filhos de Rafael, um amigo de Batista; por Ileana Ross, filha de um oficial da repressiva polícia; por Roberto Martín Pérez, um ex-policial do regime, filho do assassino coronel Lutgardo Martin Perez; por filhos e netos de Batista; e outros, como Rafael Rojas, uma pessoa talentosa, que escreve para o El Nuevo Herald, onde é muito bem pago.

Você disse que na sociedade cubana dos anos 50 estava entrando em uma crise profunda…

Nos anos 50 são justapostas duas crises: a estrutural do sistema, que dependia do modelo econômico imposto pelos Estados Unidos desde o alvorecer da República; e a funcional, que são as de superprodução relativa, já estudadas por Karl Marx, em O Capital. A crise estrutural do sistema vinha dos anos 20, mas foi só nos 50 que o modelo havia se esgotado.

Quais foram as principais características deste modelo? Cuba era um país de mono-cultura, dependia do açúcar; também mono-exportador, já que 80% do valor de suas exportações vinham desse produto. Significa que qualquer problema com o açúcar gerava uma catástrofe nacional. Se os americanos ameaçavam cortar a quota de açúcar, todo mundo começava a tremer; se houvesse uma redução de preços, seja na América ou no chamado mercado livre global – para onde era exportado parte da produção cubana – desencadeava uma crise que afetava toda a economia. Nos anos 50, 24-25% da renda nacional vieram de açúcar. Era um modelo econômico com uma forte dependência deste item.

Ademais, éramos uma nação plurimportadora. Nós importávamos quase todos os bens de consumo e bens de capital que precisávamos. No caso do capital, era praticamente cem por cento, porque nós não produzíamos máquinas ou peças de reposição, nem de transporte. Nós importávamos uma grande quantidade de produtos que poderiam ser produzidos no país, como arroz, tomate, alface e outras hortaliças, que vinham dos Estados Unidos.

A quarta característica da economia era o mono-mercado: 70% do nosso comércio externo era feito com o mercado dos EUA; a quinta e última característica, essencial, é a dependência econômica: Cuba era um país com uma grande dependência de açúcar e dos Estados Unidos.

E aqui quero deter-me sobre uma coisa muito interessante, o chamado Relatório sobre Cuba, elaborado pela Missão Truslow, que nos visitou em agosto de 1950, através de um pedido do governo Prio, feito ao Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), mais tarde Banco Mundial.

A missão, encarregada de fazer uma análise da economia cubana, era composta por 17 economistas, tendo a frente Adam Truslow, alto funcionário do BIRD e presidente da Bolsa de Nova Iorque.

O documento final tinha aproximadamente 1.700 páginas. Nunca a economia cubana tinha sido submetida a um escrutínio tão grande. É como se tivesse sido introduzida em um Somatom. Isso trouxe à tona muitos problemas. Ele foi entregue em Inglês e nunca, ao meu conhecimento, foi totalmente traduzido para o espanhol. O Ministério das Finanças e do Banco Nacional fez a sua síntese e respectiva tradução.

A Missão Truslow revelou, em termos dramáticos, o esgotamento do modelo econômico. Eles concluíram que a sua persistência estava ameaçando o sistema capitalista de exploração e dominação imperialista e para preservar o sistema propunham mudanças. Na ausência destas, sobreviria, de acordo com sua análise, dois prováveis cenários políticos: a ditadura de direita e de esquerda. Não poderiam seguir com a mesma estrutura econômico-produtiva, deviam mudar para um modelo pluri-produtor, pluri-exportador, e menos dependente. Mas, isso não era fácil.

Simultaneamente, a burguesia cubana não açucareira estava pleiteando coisas muito semelhantes, em seus esforços por ganhar espaço econômico e protagonismo político, os quais tinham que competir com o imperialismo e seus aliados, a oligarquia crioula, que não queria compartilhar nada.

Tome um exemplo: em 1955 houve uma discussão relacionado com o arroz e os têxteis. Desde o governo de Carlos Prio, Cuba estava aumentando a produção de arroz, que naquele ano atingiu cifra capaz de suprir 50% do consumo nacional. Os produtores de arroz norte-americanos gritaram ao céu, pois o arroz deixou de ser importado dos Estados Unidos. A indústria têxtil começou a desenvolver-se na Ilha, a partir do sisal. Os exportadores de têxteis dos EUA, também começaram a protestar. Quando houve esta controvérsia, houve uma ameaça de reduzir a cota de açúcar.

Quer dizer, romper o modelo possuía obstáculos enormes e poderosos, e, sem dúvidas, era uma necessidade, para que o próprio sistema pudesse sobreviver. Observem a contradição na qual se movia a economia cubana durante esses anos. Dessa situação não falam Mesa Lago, nem Jorge Dominguez, e nenhum dos apologistas.

Em que medida o golpe de Batista contribuiu para aprofundar a crise?

O golpe foi, em primeiro lugar, o resultado da crise que o país vivia, ao passo que deflagrou uma situação revolucionária.

Naquele tempo os partidos burgueses se desgastaram e de desacreditaram, perdendo a liderança. Como Fidel preconizou a partir do ano de 1952, “Mais uma vez, há tirania, fala outra vez Mellas, Trejos e Guiteras”.

Durante o regime de Batista, a repressão, a corrupção; o entreguismo aos interesses dos EUA, em detrimento do nacional; a aplicação de uma política econômica que praticamente provocou o esgotamento das reservas monetárias do país; e a iminente desvalorização do peso cubano, foram agravando a crise.

Não é por acaso que a partir de 1957, as classes dominantes começaram a retirar o apoio a Batista e afastar-se dele. Claro, com cuidado. Porque eles estavam cientes de que seu regime era economicamente insustentável no poder. Posteriormente, demonstrou-se que também politicamente, porque não conseguia parar o impulso revolucionário.

A burguesia cubana e dos EUA começaram buscar uma solução sem Batista, mas não era fácil, porque o tirano era muito teimoso e foi até o último minuto. Era preciso tirá-lo à força. Porém, não o fizeram, nem a burguesia, nem os norte-americanos. Tarefa realizada pelo Exército Rebelde.

Fonte: CUBADEBATE

Tradução: Robson Luiz Ceron – Blog Solidários.

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