A Criação de um Mito


A nova face da alienação política do período petista.

Pela primeira vez na história do cinema, um presidente da república ainda em pleno mandato, tem dedicada sua biografia à sétima arte, com um grande apelo à trajetória de quem venceu a fome e as péssimas condições as quais os retirantes nordestinos são submetidos desde o êxodo do sertão até chegar às favelas na periferia de São Paulo.

O filme sobre a trajetória de Lula é uma superprodução para os padrões brasileiros, financiado com recursos de diversas empresas privadas, entre elas empreiteiras que estão diretamente envolvidas nas obras do PAC, tais como a Odebrecht e Camargo Corrêa e empresas prestadoras de serviços ou parceiras na exploração do Pré-sal, como o grupo EMX, do empresário Eike Batista.

Mas o que nos chama a atenção no filme não é a grande quantidade de empresas privadas que financiaram a obra e nem tão pouco a qualidade cinematográfica e o investimento no elenco.

O que nos chama a atenção são as mensagens que estão evidenciadas nessa obra e o quanto a era Lula dá indícios de que ainda irá perdurar por algum tempo no cenário político brasileiro.

Podemos avaliar o filme em pelo menos três aspectos, sendo que todos eles são partes de um todo que pode ser resumido na tentativa da reificação de um mito vivo no imaginário da população.

O 1º aspecto trata da superação e da conquista de outro patamar de vida, ao qual de certa forma, todos(as) os(as) trabalhadores(as) são envolvidos ao se verem retratar na pele de um menino pobre, de uma família numerosa e retirante, que sonha com uma perspectiva melhor ao virem para São Paulo e que são sujeitados a todo o tipo de prova: fome, miséria, enchentes destruindo tudo nas madrugadas, humilhações etc, etc.

Lula encarna a figura do herói épico que vence com afinco as determinações às quais a classe trabalhadora estaria subjugada.

Uma vez operário, ainda jovem, se horroriza com o vandalismo das greves dirigidas pelos comunistas, como o seu irmão mais velho, conhecido na época como “Frei Chico” e não vê sentido em tratar os patrões e o Governo, leia-se o capital, como os inimigos de classe dos trabalhadores(as).

Lula quer namorar, curtir o futebol, tomar cerveja e viver a vida, mesmo que sob o obscurantismo da Ditadura Militar e as perseguições e arrochos sob os quais o operariado vivia no Brasil naquele momento. Representa o trabalhador comum, mas sensível aos dilemas de seu tempo. Por sua vez, escolhe outra forma de se posicionar frente a esse contexto; critica a luta armada, o radicalismo ideológico da esquerda marxista, presente nos diálogos com o irmão.
Após a perda trágica da 1ª esposa, morta em trabalho de parto junto com o filho, Lula se deprime e envolve-se então de corpo e alma com o sindicato dos metalúrgicos do ABC, à época dirigido por um sindicalista oportunista e que possuía relações espúrias com o Governo e o empresariado. Eis o 2º aspecto da peça, o operário comum que desde cedo não se condicionou pelo enfrentamento ideológico, mas que buscou encontrar outras formas de convivência com o capital, aceita o estabelecimento do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) e passa a propagandear as vantagens em se aceitar a transição, ao contrário dos comunistas que denunciavam o ataque ao direito da estabilidade por tempo de serviço. É o sindicalista que aos poucos vai retirando o sindicato do isolamento e vai condicionando aos trabalhadores do ABC uma voz ativa frente aos arrochos promovidos pela política econômica.

No filme, em seu discurso de posse em 1975, Lula reafirma que o papel fundamental do sindicato seria “buscar o entendimento” e de que “ não são os patrões os nossos inimigos”. Está plantada aí a semente ideológica de um modelo sindical que se alastrou e firmou raízes em diversos segmentos da classe trabalhadora em todo o Brasil e que alguns anos mais tarde estaria bem representada na organização político e sindical conhecida como Articulação, a principal corrente do Partido dos Trabalhadores e da Central Única dos Trabalhadores ( CUT).

Nesse momento o aspecto ideológico fica muito evidente. O novo sindicalismo forjado nas lutas do ABC no final dos anos 70 e início dos 80 é um sindicalismo que superou tanto o “velho” modelo comunista, baseado na luta de classes, como também o peleguismo, típico do período intervencionista na estrutura sindical, constituindo através das greves e da mobilização de base o despertar do sonho de uma classe por um futuro mais digno e a superação das amarras da Ditadura.

É o herói coletivo, aquele que encarna todo o sentimento de esperança e rebeldia de um momento histórico, de transição, mas ao mesmo tempo de estabelecimento de um novo modelo de relação entre o capital e o trabalho no coração da indústria brasileira.

O 3º e último ato da peça encerra todo o sentido da obra. Lula supera as adversidades, “conquista” junto com seus companheiros de sindicato um novo patamar não apenas para os metalúrgicos do ABC mas também para o conjunto da população brasileira ao se tornar o 1º operário eleito presidente da república.

Um líder sindical que através da persistência e da fidelidade com suas origens, imbuído de suas convicções, entre elas a de que os “patrões não são os nossos inimigos” consegue chegar ao mais alto posto do poder político no Brasil.

Enfim o filme: “Lula, O Filho do Brasil” é um fantástico documentário de propaganda política e ideológica da perspectiva social democrata, não para a época retratada no filme; mas para a nossa atualidade.

Muitos críticos vêem no filme mais um elemento de campanha eleitoral para a ministra chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, o que não deixa de ser verdade. Mas essa obra também serve como elemento de propagação de uma idéia, de uma mensagem aos trabalhadores em época de crise econômica mundial e acentuada contradições no mundo do trabalho, de que assim como nos anos 70, mesmo com greves e ocupações, o diálogo e a parceria devem estar sempre à frente da condução política das lideranças de classe, sejam eles patrões ou empregados.

O modelo instaurado no ABC e ampliado pela CUT durante os anos 90 com a defesa do chamado sindicalismo de resultados perpassa hoje por uma séria onda de críticas, pois o apogeu desse modelo de sindicalismo conciliatório e institucionalizado encontrou justamente no Governo do presidente “operário” seu clímax e ao mesmo tempo seu limite histórico, pois aumenta significativamente a onda de desfiliações das entidades de base ao não identificarem mais nesse modelo sindical uma real alternativa de luta frente aos efeitos da crise.

Mesmo assim a associação do homem retirante com o líder sindical e com o presidente eleito que após ser derrotado por três vezes, não desistiu, vencendo as eleições de 2002 é justamente a síntese desejada tanto pelos que defendem o atual governo em ano eleitoral, como os que defendem o legado histórico da CUT e seus sindicatos orgânicos, como os que defendem a manutenção desse modelo de governo socialiberal, calcado na mais profunda aliança de classe já operada entre a burguesia e a nova burocracia sindical e política.

Há ainda outro elemento que não pode ser desconsiderado e nada mais justo que parafrasear o próprio presidente Lula: “nunca antes na história desse país”, um presidente que não tem condições legais de ser candidato ao próximo pleito já antecipou sua campanha para 2014 com tanta pompa e inteligência.
O filme sem sombra de dúvida estará presente no imaginário da população brasileira ao longo desses próximos anos tornando-se mais um acessório de propaganda ideológica, utilizada pelo PT em torno da figura de Lula sempre que se fizer necessário, pois como bem está sintetizado em seu título, LULA seria o filho natural de toda uma nação chamada Brasil.

Nem Getúlio Vargas inspirado em Joseph Goebbels, quando criou o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) inaugurando na história da república o uso do marketing político para a auto promoção, chegaria a tanto!

Por Fábio Bezerra.
(Professor de História e Filosofia e membro do CC do PCB)

Fonte: A Criação de um Mito

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