Regresso da China


Jean Salem* – 22.01.10

1. Em França, Marx e o marxismo estarão hoje na moda ?

No que se refere aos 25 anos que vão de 1980 a 2005 ou 2006, obviamente, a resposta é “não” ; mas quase poderia responder “sim”, se falarmos dos dois ou três anos que acabaram de passar ! Assim, nos nossos seminários “Marx no século XXI”, temos no mínimo 100 presenças, por vezes 200, e até mesmo 450 no dia em que o nosso convidado foi Slavoj Zizek. Constatamos por toda a Europa, tanto na velha Europa como em todo o mundo, uma extraordinária retoma de interesse pelo pensamento marxista ou “radical” no sentido anglo-saxónico. Em Londres, em Março de 2009, realizou-se uma conferência sobre as ideias comunistas, uma conferência paga, e houve uma assistência de mais de 10 000 pessoas, a fim de escutar intervenções de Zizek, de Alain Badiou, de Jacques Rancière… Pois é, Marx interessa a muita gente.

A crise terá tido pelo menos esta evolução positiva!

Quanto a O Capital, vende-se muito bem em França, na Alemanha e noutros locais. Está actualmente em curso uma Grande Edição das obras de Marx e Engels em língua francesa, sob a direcção de Isabelle Garo.

2. Vi o seu esplêndido comentário sobre Lenine, Lenine e a revolução, no qual realça claramente as seis teses de Lenine sobre a revolução. Poderá dizer em poucas palavras porque é que escreveu esse livro? E acha que ainda existe uma possibilidade de revolução em França?

Evidentemente é sobretudo a América latina que atrai neste momento as atenções quando se fala em revolução. Os países da Europa, com as suas populações relativamente idosas e os seus governos reaccionários, parecem muito menos envolvidos. Mas existem, em França, tradições muito especiais: a presença de um Estado antigo, forte e centralizado, resistências muito fortes às ideias neoliberais, etc. E depois, a crise precariza e marginaliza faixas inteiras da sociedade: chega mesmo a certas pessoas saídas das camadas “médias-superiores”, com origem de meios fundamentalmente conservadores. Sem falar da degradação das classes “médias-médias” (professores, advogados, médicos, arquitectos, etc.). Imagino que os jovens que têm hoje trinta anos, ou mesmo mais, e que vivem muitas vezes sem esperança de uma situação um pouco estável nem uma reforma a fortiori – imagino que esses jovens não poderão suportar um tal estado de coisas durante mais dez anos!

No plano político, a diferença entre a crise actual e a de 1929, é que não existe actualmente nenhuma organização digna desse nome. Nem perspectiva de alternativa bem clara. Já não há União Soviética. Já não há Frentes populares. A esquerda oficial virou as costas ao ideal de uma transformação social radical: reduz-se, no essencial, a um partido de consenso, a um partido socialista que se parece muito com um simples clube de novos-ricos e de manequins. Mas no entanto, em França, durante o primeiro semestre de 2009, foi possível reunir 3 milhões de pessoas nas greves e manifestações anticapitalistas: isso aconteceu mesmo e ninguém o pode ignorar. O problema é que as direcções sindicais não tinham vontade de continuar o movimento durante tempo demais, nem sequer de lhe fornecer as palavras de ordem. Assim deixaram-no apodrecer deliberadamente e ajudaram o poder a retomar a iniciativa.

No entanto, tenho uma certa confiança relativa no futuro. É já uma certeza que nos aborrecemos muito menos no nosso país desde que o consenso “estala”, “quebra”, quando implode. A acção, agora, é de retorno. Ou, pelo menos, de vontade de agir. De re-agir. Uma rejeição visceral do sistema do dinheiro anima muita gente jovem. Quanto às pessoas mais velhas, encontramos muitas delas que já não esperam nada, também elas, do sistema em vigor.

3. Na primavera deste ano, houve manifestações para proteger a Sorbonne.

É verdade. No dia 4 de Março passado, milhares de pessoas mobilizadas formaram um cordão humano em volta da Sorbonne. Este cordão pretendia recordar de modo espectacular que, nesta época de barbárie, a cultura está ameaçada e que é necessário protegê-la. Que chegou a hora de a defender contra as políticas neoliberais de desprezo por todo o saber não rentável, de “reforma” interrompida, de abolição integral do passado.

4. Vocês organizam seminários intitulados “Marx no século XXI: o espírito e a letra”. Parece-me que os que participam nesses seminários são quase sempre pessoas idosas.

Não partilho da sua opinião de modo nenhum. Pode ter acontecido talvez uma ou duas vezes, no início desse ano 2009-2010. Mas não é a regra geral. Em França, de modo geral, os seminários de filosofia são cada vez menos frequentados: em parte porque tendem a tornar-se política e filosoficamente monocromos, mas sobretudo porque esta sociedade dissuade os jovens de se orientar para o estudo das humanidades. Ora bem, actualmente há uma trintena de estudantes de filosofia que se inscrevem todos os anos no nosso seminário e tentam obter assim o seu diploma de Mestre. Além disso, temos inúmeros estudantes de história, de ciências políticas, de economia, que aparecem só para participar ou para assistir a esse seminário. De resto (e é por essa razão que as nossas reuniões se efectuam ao sábado à tarde), assistimos à chegada de colegas de outras disciplinas, assim como de pessoas que já não trabalham, pessoas idosas portanto, ou de sindicalistas, de pessoas muito especialmente interessadas no activismo militante. E claro que isso dá um público um pouco diferente do que é atraído pelos seminários mais tradicionais. Em resumo, temos todas as idades, e eu diria mesmo diversas “classes sociais”, reunidas, misturadas, num interesse comum pelos estudos marxistas e pela sua renovação evidente. Porque se trata de um seminário que pretende abrir-se prioritariamente aos estudantes, mas não apenas a eles.

5. Se é que percebi bem, para além deste seminário “Marx no século XXI”, não há nenhum curso entre os cursos da Sorbonne (em Paris 1, em Paris 4), que foque especialmente Marx ou o marxismo?

Em filosofia, é mais ou menos como afirma. Por isso mesmo, ainda é maior o prazer de organizar um seminário destes na Sorbonne, no Quartier Latin: durante os últimos 25 anos, o marxismo só se podia fazer ouvir nalgumas universidades afastadas do centro histórico de Paris, em departamentos que acolhiam estudantes que enfrentavam dificuldades sociais ainda maiores do que as nossas. Durante esses 25 anos de chumbo (de que saímos finalmente, segundo parece), a França ter-se-á mesmo distinguido, de acordo com a expressão de Eric Hobsbawm, como um país de “anti-marxismo feroz”. E se conseguimos, na Sorbonne, recomeçar com estudos, conferências, trabalhos consagrados a Marx, isso deve-se em grande parte a que, numa primeira fase, eu era ali tolerado, mas na qualidade de especialista do materialismo antigo (Demócrito, Epicuro, Lucrécio) e que depois decidi contribuir para ali impor, juntamente com Stathis Kouvelakis, com Isabelle Garo, com Jean-Numa Ducange e muitos outros, um regresso aos estudos marxistas.

6. Que é que pensa da reforma que Deng Xiaoping introduziu na China, há 30 anos? Segundo Alain Badou, trata-se de uma restauração.

Em Outubro passado fui a Xangai, para fazer duas conferências. Evidentemente que não posso pretender dar uma opinião muito autorizada sobre a China a partir desta estadia tão curta! Mas posso mesmo assim tentar responder.

Pareceu-me reconhecer em Xangai alguns aspectos (ou algumas recordações?) do socialismo: assim, fiquei impressionado pela extraordinária atmosfera de trabalho que reina na Universidade Fudan, pelo carácter imponente do enorme campo universitário e seus edifícios, pela simpatia geral daquela multidão de estudantes chineses, estudiosos, cultos, sérios; e também pela qualidade dos professores. Na cidade, vi criados de restaurantes a recusar gorjetas. E pareceu-me observar nas ruas, uma bonomia, ou mesmo um sentimento cívico, que me pareceram nos antípodas do deixar andar e do individualismo agressivo a que as grandes cidades ocidentais passaram a habituar-nos. E no fim de contas, 60 anos depois da vitória da Revolução, o nível de vida (médio, é certo) foi multiplicado nada menos do que por 130!

Dito isto, a omnipresença do betão e o isolamento do passado nalguns espaços muito restritos (museus, jardins à moda antiga) não deixa de ser inquietante. Aqueles que receiam que o mundo seja totalmente entregue aos especuladores e aos destruidores de tudo o que se pareça com a civilização herdada do passado não podem deixar de se sentir abalados perante a vista de uma urbanização tão desordenada. Fiquei mais que perturbado, por outro lado, pela ideologia debitada através dos programas de televisão: ideologia da competição, muito parecida com a que nós sofremos, no ocidente, nos anos 80 e 90; apelos à privatização de todas as coisas (por exemplo, da Universidade): modelos directamente importados dos Estados Unidos (publicidades enganadoras e estandardizadas para os automóveis ou para os cosméticos, torneios de técnis com os Nadal, os Tsonga e outros homens-sanduiche expostos à admiração das multidões, “debates” insípidos e grosseiros, ritmos de rap mal “achinezados”; etc.). Quanto às desigualdades, são gritantes e inquietantes. Em resumo, remeto para Badiou o termo de “restauração”. Mas o que me parece certo, é que, nos próximos dez anos, a China deverá necessariamente enfrentar dois problemas importantes: 1º, as tensões sociais provocadas pela cólera dos desempregados e dos trabalhadores mais explorados; 2º, a agressividade do Império, ou seja, do imperialismo americano e dos seus aliados. Apesar do que se diz (e apesar das precauções oratórias ou mesmo das boas intenções desse indivíduo Obama), estes já apontaram muito claramente a China como sendo o novo inimigo.

7. A minha impressão é que a França é um país que propaga as suas ideias (as proclamadas, por exemplo, pelo lema “liberdade, igualdade, fraternidade”) através de revoluções e de acções. Que é um país que mantém uma relação contínua com a tradição revolucionária, desde a Revolução de 1789 até à Comuna de Paris de 1871. Mas parece que depois de 1968, os franceses se tornaram cada vez mais conservadores. E que ainda o são mais na época de Sarkozy. Está de acordo com esta opinião?

Em todo o mundo capitalista, a começar pelos Estados Unidos, ocorreu uma contra-revolução ideológica por volta dos anos 80. Na Europa desses anos, foi fundamentalmente a social-democracia que permitiu salvar o sistema e garantir a sua transição para um capitalismo do tipo financeiro. Na própria França, temos desde 2007 um presidente que muita gente compara ao presidente do conselho italiano, Sílvio Berlusconi: uma espécie de condottiere, ligado aos políticos vendidos e às vedetas da televisão ou do desporto, muito preocupado com o dinheiro, arrogante e pouco culto. É verdade que a França mudou muito! – Mas também é verdade que sempre existiram duas Francas! Houve a França de Pétain, da colaboração com o nazismo, e houve a França da Resistência ao nazismo. Houve (e continua a haver) a França colonialista e racista, e há a França generosa, universalista, anti-racista. Isto é palpável desde a Revolução de 1789, no próprio seio da Assembleia revolucionária, quando é discutida, por exemplo, a questão de saber se se deve ou não abolir a escravatura nas Antilhas. Ora bem, é verdade que, nos últimos 25 a 30 anos, se ouvem muito os franceses “de direita”, aos quais se juntaram maciçamente os antigos de 68 e os ex-esquerdistas reconvertidos ao “pensamento único”: anticomunismo histérico, adesão aos valores do mercado, do Império, da guerra, etc. É assim mesmo: é esta a imagem que eles dão do nosso país. Mas a outra França também existe. E começa mesmo a levantar a cabeça. Bem entendido, não transbordo de optimismo, porque todos sabem que a crise também pode trazer o fascismo ou a guerra. Mas sei que esta também pode trazer a possibilidade de reorganizar o povo de esquerda, para reatar as tradições revolucionárias que se mantêm sempre vivas no nosso país.

8. Você escreve na sua última obra; “As ideias dominantes do século XXI que agora começa são a de uma dominação que procura menos idealizar o seu reinado do que diabolizar as alternativas” [1] Acontece o mesmo com os intelectuais na China: fazem o elogio do neoliberalismo e da democracia representativa declarando que isso constitui um “mal menor”, e nunca se esquecem de diabolizar a época de Mao, com mentiras. O que é que pensa disso?

Dir-lhe-ei que isso confirma aquela impressão que eu próprio senti na Universidade Fudan, em Xangai, no quadro dos encontros em que participei, dos diálogos que pude ter com alguns dos meus colegas chineses, assim como no meu quarto do hotel, diante da televisão. Aquando duma excursão a Suzhou (uma “Veneza do Oriente” situada a 120 km de Xangai), observei vários dos nossos estudantes a colocar oferendas aos pés das estátuas de Buda, no templo do pagode norte, depois ajoelharem-se no chão e prosternarem-se com fervor diante delas. Mas, para dizer a verdade, guardarei sobretudo a lembrança da grande qualidade científica e da alta postura dos nossos interlocutores. Acima de tudo, guardarei, daquela breve estadia, a impressão muito forte que qualquer visitante sente quando descobre o centro da cidade de Xangai, quando vai contemplar Pudong e os seus extraordinários edifícios futuristas que nos projectam para o próximo século.

No final de contas, é esta curiosa mistura que se fixou na minha memória e que trouxe comigo: uma arquitectura e uma fúria para avançar em frente que nos arrastam para os anos 2030 ou 2035, e certos discursos que fazem lembrar por vezes os da Europa dos anos 90 – com a exaltação ingénua do mercado, da corrida aos lucros, da fuga para a frente para o capitalismo mais selvagem. Quanto a nós, na Europa, e mais geralmente no ocidente, estamos a viver os primeiros resultados dessa loucura neoliberal: o empobrecimento de centenas de milhões de pessoas, o desemprego em massa e o desespero, o fim de todos os serviços públicos bem organizados, o desprezo generalizado dos cidadãos para com a política e os políticos corruptos, a sociedade dividida em guetos e a ascensão da extrema direita. É com efeito a isto que assistimos na própria França, como em numerosos países vizinhos da França. É isso que nos deveria fazer reagir.

Nota:
[1] SALEM (J.), Rideau de fer sur le Boul’Mich. Formatage et désinformation dans le « monde libre », Paris, Delga, 2009, p. 33-34.

* Jean Salem, amigo e colaborador de odiario.info, é Professor de Filosofia na Sorbonne, França.

Tradução de Margarida Ferreira

Fonte: http://odiario.info/articulo.php?p=1453&more=1&c=1

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