Nietzsche, o Rebelde Aristocrata: Biografia intelectual e Balanço Crítico


Nietzsche
Nietzsche

Domenico Losurdo

Tradução: Jaime A. Clasen

A obra monumental de Domenico Losurdo Nietzche, o rebelde aristocrata já está nas principais livrarias. O livro é destinado a tornar-se referência importante entre os estudiosos de filosofia, lingüística, história e política no Brasil. Está publicado em vários idiomas além do seu italiano original e é especialmente celebrado pela intelectualidade local na tradução impressa na Alemanha.

Divulgamos aqui a resenha publicada na revista Junge Welt por Jan Rehmann, professor no Instituto de Filosofia da Universidade Livre de Berlim, em tradução para o português de Luciano C. Martorano.

Editora: Revan;

Página: 1.108;

Formato: 16x23cm;

Capa:capa dura com sobrecapa em couché de 160g;

Preço do exemplar nas livrarias: R$170,00;

Leia abaixo a apresentação de Giovanni Semeraro:

Nietzsche visto hoje

Giovanni Semeraro*

Uma analise da obra de Nietzsche justificaria por si só o volume de páginas deste livro. Mas Domenico Losurdo vai além dessa tarefa. Situa o estudo dos textos e das diversas fases do itinerário intelectual de Nietzsche no contexto do século XIX, um período histórico que ele domina como poucos.

O levantamento de uma impressionante documentação sobre Nietzsche e o seu tempo, desconhecida para muitos analistas, permite ao autor descobrir as profundas ligações políticas e culturais que o filosofo alemão cultivava. Ao situá-lo no contexto da sua época e recuperar a sua interlocução com diversos personagens e correntes de pensamento, Losurdo chega a uma compreensão mais penetrante dos conceitos centrais e das posições de Nietzsche, como ninguém tem ousado até hoje.

O resultado que emerge dessa tão gigantesca quanto solitária tarefa é inédito e admirável. Na contracorrente das leituras idílicas e estereotipadas, uma outra imagem de Nietzsche toma corpo ao longo das páginas deste livro. Com o rigor da investigação e a acuidade da argumentação que o caracterizam, Losurdo desconstrói a paradigmática “meta-narrativa” que se veio formando e difundindo em torno do pensamento de Nietzsche.

Sai desmascarada não apenas a despolitização operada pela interpretação seminal que Heidegger começou a fazer em seus cursos no início do século passado, mas fica também evidenciada a manipulação que a escola pós-modernista francesa e italiana conferiu às idéias de Nietzsche. Sobram também críticas e reparos à edição oficial da obra de Nietzsche organizada por G. Colli e M. Montinari, surpreendidos com falhas de tradução e remoções suspeitas.

Os que ainda tentam leituras “libertárias” e “esquerdistas” de Nietzsche não vão gostar de ver dissolvido o anarquismo reacionário e elitista do autor de Assim falou Zaratustra. Ao contrário do lugar comum de um filósofo apresentado como a-político e a-sistemático, Losurdo descobre que o elemento de unidade do pensamento “inatual” e “aforismático” de Nietzsche é exatamente sua plataforma política.

O autor de Para além do bem e do mal é revelado como um intelectual “totus politicus” que não se limita a enaltecer a guerra, a propor o aniquilamento das raças decadentes, a defender a escravidão, a atacar o sufrágio universal, a emancipação da mulher e a socialização dos direitos, mas desenha um claro projeto anti-moderno, anti-democrático, anti-socialista e anti-revolucionário.

Quando não bastam o manto do recurso à alegoria e o expediente da metáfora para explicar os aspectos mais inquietantes e repugnantes de Nietzsche, muitos autores se dedicam a selecionar textos, a encobrir a violência e a depurar as dimensões políticas e sociais determinantes na sua proposta niilista. A velada “hermenêutica da inocência” e a “pureza do devir” divulgadas pelo catecismo nietzscheano não convencem a epistemologia da suspeita de Losurdo que, ao contrário, mostra um autor que desde jovem foi sempre fiel ao seu “radicalismo aristocrático”, que pregou abertamente a repressão das revoluções que vulgarizavam a Europa, que combateu a corrente plebéia e subversiva subjacente à linha histórica Sócrates-judaísmo-cristianismo-socialismo e que contrastou a perigosa propagação da “questão social”, séria ameaça para a nobre estirpe dos “super-homens”.

Presos à vulgata predominante, alguns leitores já familiarizados com Nietzsche, podem discordar mas não ignorar os resultados deste trabalho de Losurdo. Trata-se de um método incomum de pesquisa, de uma filologia rigorosa e de um indispensável campo de estudo que impedem a filosofia de evadir-se dos fatos e da história. Mas, acima de tudo, de um desafio posto pelo poderoso embate entre contrapostas concepções filosóficas e políticas que o autor desvela e coloca corajosamente na mesa.

A Editora Revan, ao empreender no Brasil a edição dessa obra monumental, teve em vista especialmente a juventude. Cabe agora aos jovens universitários, a quem interessa particularmente esse imenso campo de estudo e pesquisa, acolher o desafio de levar adiante as múltiplas fronteiras do conhecimento e das indagações aqui descortinadas.

Não se espante também o leitor não especializado. Pode ter certeza de que, uma vez iniciada a leitura, não vai conseguir parar. As numerosas páginas vão lhe parecer poucas diante da riqueza dos dados e das descobertas que vai encontrar, da leveza e da clareza da linguagem, da finura da argumentação e da urdidura envolvente do discurso de conjunto. Mais do que uma leitura, trata-se da escola de um mestre de indagação que reconhece a grandeza e fascínio de Nietzsche e enfrenta com perspicácia e radicalidade sua alma mais recôndita e ocultada.

*(Professor de Filosofia na Universidade Federal Fluminense – UFF)

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5 comentários em “Nietzsche, o Rebelde Aristocrata: Biografia intelectual e Balanço Crítico

  1. Até que enfim uma obra de grosso calibre pra combater a enchurrada irracionalista e pós-irracionalista nietzscheana que inunda o universo acadêmico no Brasil.

  2. Depois dessa obra monumental para o combate a vulgata nietzscheana-heideggeriana tão em voga nos dias em curso, só nos falta a tradução da obra “A Destruição da Razão” de Georg Lukacs para colocarmos um pá de cal no pensamento irracionalista!

  3. Nunca irá se colocar “uma pá de cal” no pensamento racionalista ou irracionalista… como se iludem os que pensam que a vida funciona de forma linear …

  4. Pois é, pessoal, importante criticá-lo, mas a leitura de esquerda cumpriu um papel: desautorizou a leitura de Nietzsche que a direita fazia, de forma triunfalista. Agora, é preciso criticar essa leitura tb. Isso de “irracionalismo” é uma crítica muito fácil. Acho que com respeito a esse vertente pós-moderna, o caminho foi apontado pelo Losurdo: estudar, pesquisar, criticar minuciosamente, com base em fontes.

    Por exemplo: como pode Nietzsche achar que uma só pessoa, Sócrates, poderia ser responsável pelo fim da tragédia e pela ascensão da razão? Ora, isso é produto de formações sociais, de movimentos coletivos. E é em um movimento coletivo que Losurdo inseriu Nietzsche –e isso o próprio Nietzsche nunca via.

    Abs!

  5. Odeio tanto os de esqueda como de direito como diria Nietzsche a ideologia nunca é cumprida e os de esqueda são hipotéticos que lutam por algo que não vai mudar sem se ter poder e quantidade de pessoas com o mesmo pensamento,tanto esquedistas como os de direita sempre fazem merda a escrever um livro falando de um autor bom e isso me deixa extremamente puto,Sócrates não faz ascesão de razão nenhuma até porque foi criada a tal ideia a grande merda da humanidade junto com o cristianismo,eu diria Descartes o pai da razão e não Sócrates que nem sequer escreveu,foi escrito pelo discipulo.

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