A heresia dos gregos dá esperança


“A Grécia é um microcosmo de uma moderna guerra de classe raramente reconhecida como tal”

por John Pilger

Tweedledee & Tweedledum.

Na Grã-Bretanha, foi tal a propaganda de uma teoria económica extremista conhecida primeiramente como monetarismo e depois como neoliberalismo, ao longo de 30 anos, que o novo primeiro-ministro pode, como o seu antecessor, descrever as suas exigências de que o povo comum pague as dívidas de vigaristas como sendo “fiscalmente responsável”. Dentre as questões não mencionáveis, estão pobreza e classe. Quase um terço das crianças britânicas permanece abaixo da linha de pobreza. Na Kentish Town da classe trabalhadora, em Londres, a esperança de vida dos homens está abaixo dos 70. Duas milhas mais além, em Hampstead, é de 80. Quando a Rússia foi sujeita a uma “terapia de choque” semelhante, na década de 1990, a esperança de vida afundou drasticamente. Um recorde de 40 milhões de americanos empobrecidos está actualmente a receber selos alimentares: ou seja, eles não conseguem alimentar-se a si próprios.

Quando a classe política britânica pretende que o seu casamento arranjado de Tweedledee com Tweedledum é democracia, a inspiração para os demais é a Grécia. Não é nada surpreendente que a Grécia seja apresentada não como um farol mas sim como um “país lixo” que tem a merecida punição pelo seu “sector público inchado” e pela “cultura do facilitismo” (Observer). A heresia da Grécia é que o levantamento do seu povo miúdo proporciona uma autêntica esperança ao contrário daquele pródigo com a guerra que vive na Casa Branca.

A crise que levou ao “resgate” da Grécia por parte de bancos europeus e do Fundo Monetário Internacional é o produto de um sistema financeiro grotesco o qual está, ele próprio, em crise. A Grécia é um microcosmo de uma moderna guerra de classe raramente reconhecida como tal e que é travada pelos ricos imperiais com toda a premência do pânico.

O que torna a Grécia diferente é que na sua memória viva está a invasão, a ocupação estrangeira, a traição do ocidente, a ditadura militar e a resistência popular. O povo comum não se deixa intimidar pelo corporatismo corrupto que domina a União Europeia. O governo de extrema-direita de Kostas Karamanlis, o que antecedeu o actual governo Pasok (social-democrata) de George Papandreu, foi descrito pelo sociólogo suíço Jean Ziegler como “uma máquina para a pilhagem sistemática dos recursos do país”.

A máquina tem amigos infames. O US Federal Reserve Board está a investigar o papel da Goldman Sachs e outros operadores americanos de hedge funds que jogaram na bancarrota da Grécia quando activos públicos eram liquidados e os seus ricos evasores fiscais depositaram 360 mil milhões de euros em bancos suíços. Os maiores proprietários gregos de navios transferiram as suas companhias para o exterior. Esta hemorragia de capital continua com a aprovação do Banco Central e de governos europeus.

Em 11 por cento, o défice da Grécia não é mais alto do que o dos Estados Unidos. Contudo, quando o governo Papandreu tentou tomar emprestado no mercado internacional de capitais foi efectivamente bloqueado pelas agências de classificação americanas, as quais “degradaram” a Grécia para “lixo”. Estas mesmas agências deram classificações triplo A a milhares de milhões de dólares dos chamados títulos hipotecários subprime e precipitaram assim o colapso económico de 2008.

O que aconteceu na Grécia foi roubo numa escala gigantesca, embora não inabitual. Na Grã-Bretanha, o “resgate” de bancos como o Northern Rock e o Royal Bank of Scotland custou milhares de milhões de libras. Graças ao antigos primeiro-ministro, Gordon Brown, e a sua paixão pelos instintos cobiçosos da City de Londres, estas prendas de dinheiro público foram sem condições e os banqueiros continuaram a pagar uns aos outros os despojos a que chamam bónus. Sob a monocultura política da Grã-Bretanha, eles podem fazer como quiserem. Nos Estados Unidos, a situação é ainda mais notável, relata o jornalista de investigação David DeGraw, “[pois os principais bancos da Wall Street] que destruíram a economia pagam zero em impostos e obtém US$33 mil milhões em refinanciamentos”.

Na Grécia, tal como nos EUA e na Grã-Bretanha, disseram às pessoas comuns que deviam reembolsar as dívidas dos ricos e poderosos que incorreram nas mesmas. Empregos, pensões e serviços públicos estão para ser cortados e eliminados, sob a responsabilidade de corsários privatistas. Para a União Europeia e o FMI, apresenta-se a oportunidade para “mudar a cultura” e desmantelar a previdência social da Grécia, assim como o FMI e o Banco Mundial “ajustaram estruturalmente” (empobreceram e controlaram) países por todo o mundo em desenvolvimento.

A Grécia é odiada pela mesma razão porque a Jugoslávia tinha de ser fisicamente destruída sob a pretensão de proteger o povo do Kosovo. A maior parte dos gregos são empregados pelo Estado e os jovens e os sindicatos abrangem uma aliança popular que não foi pacificada; os tanques dos coronéis no campus da Universidade de Atenas permanecem um espectro político. Tal resistência é anátema para banqueiros centrais da Europa e é encarada como uma obstrução à necessidade do capital alemão de capturar mercados na sequência da perturbada reunificação da Alemanha.

Na Grã-Bretanha, foi tal a propaganda de uma teoria económica extremista conhecida primeiramente como monetarismo e depois como neoliberalismo, ao longo de 30 anos, que o novo primeiro-ministro pode, como o seu antecessor, descrever as suas exigências de que o povo comum pague as dívidas de vigaristas como sendo “fiscalmente responsável”. Dentre as questões não mencionáveis, estão pobreza e classe. Quase um terço das crianças britânicas permanece abaixo da linha de pobreza. Na Kentish Town da classe trabalhadora, em Londres, a esperança de vida dos homens está abaixo dos 70. Duas milhas mais além, em Hampstead, é de 80. Quando a Rússia foi sujeita a uma “terapia de choque” semelhante, na década de 1990, a esperança de vida afundou drasticamente. Um recorde de 40 milhões de americanos empobrecidos está actualmente a receber selos alimentares: ou seja, eles não conseguem alimentar-se a si próprios.

No mundo em desenvolvimento, um sistema de triagem imposto pelo Banco Mundial e pelo FMI determinou há muito se as pessoas vivem ou morrem. Sempre que são eliminadas tarifas e subsídios a alimentos e combustível pelo diktat do FMI, os pequenos agricultores sabem que foram declarados descartáveis. O World Resources Institute estima que a portagem da morte atinja 13-18 milhões de crianças a cada ano. “Isto”, escreveu o economista Lester C. Thurow, “não é nem metáfora nem uma analogia da guerra, mas sim a própria guerra”.

As mesmas forças imperiais utilizaram horrendas armas militares contra países atacados cujas maiorias são constituídas por crianças, e aprovaram a tortura como um instrumento de política externa. É um fenómeno de negação que a nenhum destes assaltos à humanidade, nos quais a Grã-Bretanha está activamente empenhada, foi permitido que interferisse nas eleições britânicas.

As pessoas nas ruas de Atenas não sofrem deste mal-estar. Elas têm clareza de quem é o inimigo e consideram-se, como outrora, mais uma vez sob ocupação estrangeira. E mais uma vez elas levantaram-se, com coragem. Quando David Cameron começa a seccionar £6 mil milhões [€6,81 mil milhões] dos serviços públicos na Grã-Bretanha, ele estará a tentar que a Grécia não aconteça na Grã-Bretanha. Deveríamos provar que errou.

20/Maio/2010

O original encontra-se em http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=576

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/pilger/pilger_20mai10.html

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