A declinação do átomo da linha reta e a liberdade humana: Marx e a ética de Epicuro


Apresentada a diferença genérica entre as filosofias da natureza de Demócrito e Epicuro, Marx detém-se nos pormenores dessa diferença, considerando 1) a declinação do átomo da linha reta, 2) as suas qualidades, 3) a diferença entre “átomos-princípios” e “átomos-elementos”, 4) o tempo e, por fim, 5) os meteoros. Porém, como o ponto sobre o qual Marx concentra a discussão é a noção de clinamen e como o interesse do nosso trabalho é levantar algumas considerações acerca da liberdade e da ética na tese doutoral de Marx, analisaremos apenas a idéia da declinação como possibilidade de pensarmos uma vida ética fundada na liberdade.

Conforme Marx, a filosofia de Epicuro admite três movimentos distintos dos átomos no vazio:

1)     A queda em linha reta;

2)     O desvio que os átomos realizam da linha reta;

3)     O movimento de repulsão entre os átomos.

Demócrito admite apenas o primeiro e o terceiro movimentos. Não há uma concepção de declinação em sua filosofia. Já em Epicuro essa concepção é fundamental, e Marx a exalta, afirmando que Epicuro realiza de fato a determinação puramente formal do átomo e chega ao conceito de pura singularidade que nega todo o ser-aí determinado por um outro. Em outros termos, Epicuro concebe a declinação (determinação puramente formal) que o permite formular uma idéia de liberdade em oposição a qualquer formulação determinista, à necessidade (o outro que determina o ser-aí).

Marx explica que na filosofia epicuréia existe uma oposição entre os átomos e a linha reta. Embora aqueles estejam em movimento de queda nesta, o átomo é um corpo autônomo e essa autonomia é exemplificada nos corpos celestes. Tal como os corpos celestes, os átomos não se movem em linha reta porque esse movimento é um movimento de não-autonomia. Portanto, a determinação formal do átomo é a declinação que, por seu turno, opõe-se à materialidade do átomo que é representada por Epicuro no movimento da linha reta. É a determinação formal que expressa a liberdade do mundo. Nesse perspectiva, Marx cita Lucrécio: “A declinação nega os fati foedera (determinações do destino) e, como aplica imediatamente este fato à consciência, podemos dizer que a declinação constitui no coração do átomo aquela qualquer coisa que pode lutar e resistir” (Ibid, p. 170).

Cícero tece uma crítica ao princípio da declinação de Epicuro, por este não ter demonstrado nenhuma causa para tal declinação. Porém, Marx sai em defesa de Epicuro e afirma que a introdução de uma causa à declinação resultaria em um novo determinismo, pois conduziria-nos a uma relação necessária de causalidade. Desse modo,

perguntar a causa deste desvio corresponderia assim a perguntar a causa que faz do átomo um princípio, pergunta evidentemente privada de sentido para quem pensa que o átomo é a causa de tudo e que, portanto, não pode ter uma causa (Ibid, p. 172).

Após apresentar a idéia de declinação, Marx considera em seguida um aspecto fundamental conseqüente da declinação, a saber, a liberdade enquanto princípio ético. A idéia de declinação que gera a liberdade, fundamenta a ética epicuréia, haja vista tal ética relacionar-se, conforme Diógenes Laêrcio (1977, p. 285-290), com os fatos que dizem respeito à escolha ou à rejeição. Devemos escolher aquilo que nos causa prazer e rejeitar aquilo que nos causa dor. Desse modo, os sentimentos têm um papel fundamental na ética epicuréia. Os sentimentos de prazer e de dor, de quietude e de perturbação são critérios para distinguirmos o bem do mal, constituindo assim o critério de escolha ou da não-escolha, ou seja, a regra do nosso agir. Portanto, as sensações tornam-se o critério axiológico do agir ético.

 Isso implica dizer que um princípio da física tem relação direta na existência humana e fundamenta todo agir ético do indivíduo. Assim como o átomo se liberta da sua existência relativa, da queda determinada pela linha reta, o homem desvia-se da dor e da inquietação, revelando sua autonomia para alcançar a felicidade e quietude (ataraxia), fim da vida ética. Desse modo, o filósofo helênico conclui que para atingir essa felicidade, o homem deve buscar o conhecimento da natureza. Nas suas palavras:

Devemos ainda sustentar que a função da ciência da natureza é a determinação precisa da causa dos elementos principais e que nesse conhecimento consiste a felicidade, e também no conhecimento da natureza real dos corpos que vemos no céu, e na aquisição de conhecimentos afins que contribuem para o conhecimento completo a esse respeito, indispensável também à felicidade (Ibid, p 301).

Nessa perspectiva, a filosofia surge como essencial à vida humana, pois é ela quem permite o conhecimento dos fenômenos naturais, ela nos ajuda a refletir sobre as causas primeiras do cosmos. Na epístola a Meneceu ele incentiva todos os homens, independente da idade, a filosofar. Citamos abaixo as palavras iniciais da referida epístola:

Nenhum jovem deve demorar a filosofar, e nenhum velho deve parar de filosofar, pois nunca é cedo demais nem tarde demais para a saúde da alma. Afirmar que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou é a mesma coisa que dizer que a hora da felicidade ainda não chegou ou já passou; devemos, portanto, filosofar na juventude e na velhice para que enquanto envelhecemos continuemos a ser jovens nas boas coisas mediante a agradável recordação do passado, e para que ainda jovens sejamos ao mesmo tempo velhos, graças ao destemor diante do porvir. Devemos então meditar sobre tudo que possa proporcionar a felicidade para que, se a temos, tenhamos tudo, e se não a temos, façamos tudo para tê-la (Ibid, p. 311).

Portanto, para Epicuro, o homem almeja ser feliz e essa felicidade consiste na ausência de dor e perturbação e esse estado de vida é alcançado por meio da investigação das causas dos fenômenos naturais. A finalidade do conhecimento dessas causas, quer as consideremos em suas relações recíprocas, quer isoladamente, é assegurar a paz de espírito ao homem, ser autárquico, dependente apenas de si para atingir essa felicidade. Conclui-se daí, que a ética epicuréia está diretamente relacionada com a filosofia da natureza. A idéia de declinação possibilita a Epicuro fundamentar uma ética da liberdade.

Ainda a respeito da declinação, Marx extrai uma conseqüência antropológica, que será fundamental à formulação posterior do seu conceito de homem. O ser humano é um ser natural, sensitivo, mas pode abstrair dessa condição e viver de modo livre, efetivar sua genericidade, assim como o átomo declina do seu movimento natural de queda livre.

Assim, o homem só deixa de ser um produto natural quando o outro com quem se relaciona for um homem singular, mesmo que não seja ainda o espírito, e não uma qualquer existência diferente. Mas para que o homem enquanto homem se torne, para si mesmo, o seu único objeto efetivamente real, é necessário que tenha negado o seu ser aí-relativo, o poder dos seus apetites e da simples natureza (MARX, 1972, p. 175).

Chegamos ao cerne da tese marxiana, qual seja, a fundamentação da realidade, e especificamente da liberdade humana, a partir de um princípio especulativo: a concepção epicuréia da “possibilidade abstrata”.

É válido ressaltar que Marx não defende a filosofia de Epicuro em sua integralidade, mas apenas simpatiza com algumas de suas concepções, em especial com a idéia de liberdade. “Insere-se nesse contexto seu manifesto apoio à rejeição de Epicuro por qualquer tipo de determinismo físico na ciência. Seria negar o próprio caráter do espírito considerá-lo sujeito às leis do movimento físico; o espírito é autônomo em relação à natureza” (OLIVEIRA, A. R., 1997, p. 47).

Marx ressalta a liberdade porque esta é a capacidade que o homem possui de se auto-determinar, de desenvolver suas potencialidades. Ao longo de sua evolução filosófica, ele amadurecerá essa idéia por meio da concepção de trabalho enquanto categoria fundamental de efetivação da liberdade humana. Em sua tese ainda não se apresenta essa concepção de trabalho. Somente alguns anos depois, por volta de 1844 é que essa concepção será formulada enquanto idéia central do sistema filosófico marxiano. A idéia de trabalho em Marx se opõe a forma estranhada de trabalho da modernidade, que assim como a “possibilidade real” de Demócrito, que imprimia uma necessidade no mundo, o trabalho estranhado suprime a liberdade humana e a torna sujeita a uma força exterior, o capital. O trabalho será realizado apenas como uma necessidade natural, a sobrevivência física do homem (MARX, 1989, p. 159-160).

Portanto, a influência de Epicuro no pensamento do jovem Marx é fundamental para o desenvolvimento posterior de sua filosofia, porque foi o filósofo helenista, na visão de Marx, quem melhor conseguiu formular uma concepção de liberdade fundada num princípio universal e que, além disso, subordinou a filosofia determinista da natureza a uma concepção moral do homem.

REFERÊNCIAS

  • LAÊRCIO, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Tradução de Mário da Gama Kury. Brasília: UnB, 1977.
  • MARX, Karl. Diferença entre as Filosofias da Natureza em Demócrito e Epicuro. Tradução de Conceição Jardim e Eduardo Lúcio Nogueira. Lisboa: Editorial Presença, 1972.
  • __________. Manuscritos Econômico-Filosóficos. Tradução de Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1989.
  • OLIVEIRA, Avelino da Rosa. Marx e a Liberdade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997.
  • OLIVEIRA, Manfredo A. de. Sobre a Fundamentação. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997.
  • ___________. Para além da fragmentação: pressupostos e objeções da racionalidade dialética contemporânea. Rio de Janeiro: Loyola, 2002.

Fonte: http://www.consciencia.org/consideracoes-liberdade-etica-tese-diferenca-entre-as-filosofias-da-natureza-em-democrito-e-epicuro-de-marx

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