“Grundrisse”, de Karl Marx


Saiba mais sobre o livro na página da Boitempo Editorial.

Texto de Francisco de Oliveira sobre a publicação:

A Boitempo Editorial, em coedição com a Editora UFRJ, presenteia os leitores de língua portuguesa com uma primorosa tradução dos quase lendários Grundrisse, a obra de Marx que somente veio à luz já no século XX, em 1941, em virtude dos conflitos centrados no controle que o Partido Comunista da ex-URSS exerceu sobre os escritos não divulgados do filósofo de Trier, como parte da luta ideológico-política pela exclusividade do “verdadeiro” Marx.

Os Grundrisse foram considerados inicialmente apenas esboços das ideias que o pensador alemão estava elaborando para os textos de O Capital, sua obra-prima, espécie de amostra ou work in progress do que viria a ser a obra central de Marx; um borrador tantas vezes retocado que poucos se atreveriam a citar. Aliás, mesmo O Capital experimentou tantas reformulações que Engels, após a morte de Marx, encontrou enormes dificuldades para ser fiel ao pensamento do seu companheiro e editar os volumes que ele não pudera terminar em vida. Sabe-se que o fundador de uma das mais importantes correntes do pensamento moderno era tão rigoroso consigo quanto com seus adversários.

Descobriu-se com o tempo que os Grundrisse são muito mais que “esboços” ou adiantamentos da obra maior de Marx; talvez por não sentir concluídas as ideias que elaborava na ocasião, excluiu das obras que publicou, e também daquelas às quais se dedicaram Engels e Kautsky, preciosos textos que, mesmo não estando literariamente acabados, constituem patrimônio do marxismo e das ciências humanas de inestimável valor. O vigoroso teórico pode ser justamente tido como um escritor de primeira plana; ele tinha, sem muita modéstia, inteira consciência de seu valor literário e, talvez por exagero – e que temperamento! –, tenha deixado na obscuridade muitos textos que estão nos Grundrisse. Textos como “Formações pré-capitalistas” e o capítulo inédito sobre trabalho produtivo e improdutivo permaneceram, pois, inacessíveis, prejudicando toda uma discussão teórica e o próprio desenvolvimento do marxismo.

Eles estão agora com os leitores do Brasil e de outras paragens onde reina a “última flor do Lácio” (Olavo Bilac), para nossa delícia teórica e nossas elaborações na tradição marxista. Eia, pois, à tarefa!

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Texto de  Jorge Grespan sobre a publicação:

Marx em seu fazer

Mais do que nunca, é impossível não começar esta apresentação com o já clássico “finalmente o público brasileiro tem acesso a uma obra de importância crucial…”: trata-se da publicação dos Grundrisse, inédita em português, aguardada há tanto tempo por milhares de leitores. Em uma edição completa e esmerada, o trabalho de anos de tradução rigorosa está agora à mão. Os Grundrisse constituem a versão inicial da crítica da economia política, planejada por Marx desde a juventude e escrita entre outubro de 1857 e maio de 1858. Ela seria depois muitas vezes reelaborada, até dar origem aos três tomos de O Capital. Mas que ninguém se engane – o fato de ser uma primeira versão não faz destes escritos algo simples ou de mero interesse histórico. Além de entender o ponto de partida da grande obra de maturidade de Marx, eles permitem vê-la de uma perspectiva especial só possível com manuscritos desse tipo. Pois, como não pretendia ainda publicá-los, o autor os considerava uma etapa de seu próprio esclarecimento, concedendo-se liberdades formais abolidas nas versões posteriores. Por exemplo, o trato com os termos da lógica de Hegel excede à muito aqui o mero “flerte” depois confessado. Abre-se assim a polêmica sobre o caráter dessa relação privilegiada, se simples momento mais tarde corrigido ou se algo constitutivo que devia ser ocultado. O emprego frequente dos termos da lógica do “posto e pressuposto” e as ousadas formulações do fetichismo do dinheiro e da particular “subjetividade” do capital na oposição dialética ao trabalho assalariado apresentam aqui uma força sugestiva e explicativa própria. Às vezes em detalhe depois desaparecido, às vezes nas amplas pinceladas que visam realçar o essencial, Marx revela intenções surpreendentes na sua crítica. Escrevendo para si, pôde explicitar e dar livre curso a ideias mais tarde reduzidas a digressão acessória, pôde tentar múltiplos caminhos e errar, em todos os sentidos da palavra. Marx aproveitou a circunstância e deu assim aos estudiosos de sua obra a oportunidade de entendê-la mais profundamente. Resta então apenas saudar a iniciativa da Boitempo Editorial e a paciência dos tradutores, desejando também aos leitores sucesso na empreitada de seu estudo.

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Sobre a Coleção Marx e Engels

A publicação dos Grundrisse coroa o ambicioso projeto da Boitempo Editorial de traduzir o legado de Karl Marx e Friedrich Engels, contando com o auxílio de especialistas renomados e sempre com base nas obras originais. Com 12 volumes publicados, a coleção teve início com a edição comemorativa dos 150 anos do Manifesto Comunista, em 1998. Em seguida foi publicada A sagrada família (2003), obra polêmica que assinala o rompimento definitivo de Marx e Engels com a esquerda hegeliana. Os Manuscritos econômico-filosóficos (2004) vieram na sequência, ao qual se seguiram os lançamentos de Crítica da filosofia do direito de Hegel (2005); Sobre o suicídio (2006); A ideologia alemã (2007); A situação da classe trabalhadora na Inglaterra (2008); Sobre a questão judaica (2010); Lutas de classes na Alemanha (2010); O 18 de brumário de Luís Bonaparte (2011); A guerra civil na França (2011), em comemoração aos 140 anos da Comuna de Paris; e agora os Grundrisse (2011).

Vale lembrar que a Boitempo Editorial lançou em abril de 2011 os primeiros nove títulos da Coleção Marx e Engels no formato virtual. Para mais informações sobre os títulos da Coleção, visite nosso site.

Fonte: http://boitempoeditorial.wordpress.com/2011/06/24/grundrisse/

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