Um Passo em Frente Dois Passos Atrás (correntes e partido)


Os círculos ou como estamos mais habituados correntes internas e a formação do Partido Comunista Russo. Um debate ainda vivo, principalmente neste momento de reconstrução revolucionária.


Vladimir Ilitch Lênin

1904

Prefácio

“Em essência, toda a posição dos oportunistas em matéria de organização começou a revelar-se já na discussão do parágrafo primeiro: na sua defesa de uma organização do partido difusa e não fortemente cimentada; na sua hostilidade à idéia (à idéia “burocrática”) da edificação do partido de cima para baixo, a partir do congresso do partido e dos organismos por ele criados; na sua tendência para atuar de baixo para cima, permitindo a qualquer professor, a qualquer estudante do liceu e a “qualquer grevista” declarar-se membro do partido; na sua hostilidade ao “formalismo”, que exige a um membro do partido que pertença a uma organização reconhecida pelo partido; na sua tendência para uma mentalidade de intelectual burguês, pronto apenas a “reconhecer platonicamente as relações de organização”; na sua inclinação para essa subtileza de espírito oportunista e as frases anarquistas; na sua tendência para o autonomismo contra o centralismo; numa palavra, em tudo o que hoje floresce tão exuberantemente no novo Iskra, e que contribui para o esclarecimento cada vez mais profundo e evidente do erro inicial.” (parágrafo 6 do Prefácio)

Parte I

a) A Preparação do Congresso

“Há uma máxima segundo a qual cada pessoa tem o direito, durante vinte e quatro horas, de maldizer os seus juizes. O congresso do nosso partido, como qualquer congresso de qualquer partido, foi igualmente juiz de várias pessoas que aspiravam ao posto de dirigentes e sofreram um fracasso. Agora, esses representantes da “minoria”, com uma ingenuidade enternecedora, “maldizem os seus juizes” e procuram, por todos os meios, lançar o descrédito sobre o congresso e minimizar a sua importância e autoridade. Esta tendência exprimiu-se talvez com o maior relevo no artigo de Praktik que, no n. º 57 do Iskra, se indigna com a idéia da “divindade” soberana do congresso. Eis um traço tão característico do novo Iskra, que não poderíamos deixar de referir. A redação, que é composta na sua maior parte por pessoas rejeitadas pelo congresso, continua, por um lado, a intitular-se redação “do partido” e, por outro lado, abre os braços a indivíduos que afirmam que o congresso não é uma divindade. Muito bonito, não é verdade? Sim, senhores, o congresso não é certamente uma divindade, mas que pensar dos que começam a “denegrir” o congresso depois de aí terem sofrido uma derrota?” (parágrafo 1 da parte 1)

b) O Significado dos Agrupamentos no Congresso

c) O Início do Congresso. – O Incidente com o Comité Organizador

“A primeira questão que suscitou debates que começaram a revelar os diferentes matizes foi sobre se devia ser dado o primeiro lugar (na “ordem do dia” do congresso) ao ponto seguinte: “posição do Bund no partido” (pp. 29-33 das atas). Segundo o ponto de vista dos iskristas, defendido por Plekhánov, Mártov, Trótski e por mim, não podia haver quaisquer dúvidas a este respeito. A saída do Bund mostrou de forma evidente a justeza das nossas considerações: se o Bund não queria caminhar conosco nem admitir os princípios de organização que a maioria do partido partilhava com o Iskra, era inútil e contrário ao bom senso “fingir” caminhar juntos e arrastar assim o congresso (como arrastavam os bundistas). A literatura já tinha esclarecido o problema, e era evidente para qualquer membro consciente do partido que só faltava pôr francamente a questão e escolher aberta e lealmente: autonomia (caminhamos juntos) ou federação (separamo-nos).” (segundo parágrafo do item acima)

Evasivos em toda a sua política, também aqui os bundistas quiseram ser evasivos e adiar a questão. O camarada Akímov junta-se a eles e logo formula, provavelmente em nome de todos os partidários da Rabótcheie, as suas divergências com o Iskra no plano organizativo (p. 31 das atas). Ao lado do Bund e da Rabótcheie Dielo alinha o camarada Mákhov (dois votos do comitê de Nikoláiev, que, pouco antes, se tinha declarado solidário com o Iskra!). Para o camarada Mákhov o problema não é nada e para ele o “ponto nevrálgico” é também a “questão da estrutura crítica ou, pelo contrário (notai bem!), do centralismo”, exatamente como a maioria da nossa atual redação “do partido”, maioria que no congresso ainda se não tinha dado conta deste “ponto nevrálgico”! (terceiro parágrafo do item acima)

“Trava-se em torno do “Borba” uma luta obstinada, e o camarada Mártov faz um discurso particularmente circunstanciado (p. 38) e “combativo”, no qual alude com razão à “desigualdade de representação” dos grupos da Rússia e dos grupos do estrangeiro, diz que não estaria “bem” conceder a um grupo do estrangeiro um “privilégio” (palavras de ouro, hoje particularmente instrutivas depois dos acontecimentos posteriores ao congresso!), que não se deve fomentar “no partido o caos em matéria de organização, caracterizado por uma fragmentação que não e justificada por nenhuma consideração de principio” (em cheio .. na “minoria” do congresso do nosso partido!). Além dos partidários da Rabótcheie Dielo, ninguém, até ao encerramento das inscrições de oradores, se pronunciou abertamente e com fundamento a favor do “Borbá” (p. 40). Devemos fazer justiça ao camarada Akímov e aos seus amigos, que pelo menos não tergiversaram e não se esconderam, mas prosseguiram abertamente a sua táctica e disseram abertamente o que queriam.” (sexto parágrafo do item acima)

“E Plekhánov, entre ruidosos aplausos do congresso, explica em forma didática ao camarada Egórov: “Nós não temos mandatos imperativos” (p. 42, cfr. P. 379, regulamento do congresso, § 7: “Os plenos poderes dos delegados não devem ser limitados por mandatos imperativos. No exercício dos seus plenos poderes são completamente livres e independentes”). “O congresso é a instância suprema do partido”, e por isso infringe a disciplina do partido e o regulamento do congresso precisamente quem, de qualquer maneira, impede um delegado de se dirigir diretamente ao congresso sobre todas as questões da vida do partido, sem qualquer exceção. A controvérsia reduz-se por conseqüência ao dilema: espírito de círculo ou espírito de partido? Limitação dos direitos dos delegados no congresso, em nome de direitos ou regulamentos imaginários de quaisquer organismos e círculos, ou dissolução completa, não só em palavras, mas de fato, perante o congresso, de todas as instâncias inferiores e antigos pequenos grupos, até que se criem verdadeiros organismos oficiais do partido. O leitor já pode ver por aqui a importância de princípio desta discussão no próprio início (terceira sessão) um congresso que se propunha restaurar de fato o partido. Neste debate se concentrou, por assim dizer, o conflito entre os antigos círculos e pequenos grupos (no gênero do Iújni Rabótchi) e o partido que renascia. E os grupos anti-iskristas manifestam-se imediatamente: o bundista Abramson, o camarada Martínov, ardente aliado da atual redação do Iskra e nosso velho conhecido, o camarada Mákhov, que também conhecemos, todos se manifestam a favor de Egórov e do grupo do Iújni Rabótchi e contra Pavlóvitch. O camarada Martínov, que hoje, à porfia com Mártov e Axelrod, faz gala de “democracia” em matéria de organização, evoca mesmo… o exército, onde só se pode apelar para uma instância superior por intermédio da inferior! O verdadeiro sentido desta “compacta” oposição anti-iskrista era evidente para todos os que assistiam ao congresso ou que tinham seguido com atenção a vida interna do nosso partido antes do congresso. O objetivo da oposição (objetivo de que nem todos os membros tinham talvez consciência e que por vezes defendiam por inércia) era defender a independência, o particularismo, os interesses de capelinha dos pequenos grupos para que não sejam tragados por um amplo partido, que vinha sendo estruturado na base dos princípios iskristas.” (nono parágrafo do item acima)

“Foi também deste ponto de vista que o camarada Mártov, que então ainda não se tinha unido a Martínov, abordou a questão. O camarada Mártov ataca decididamente, e com razão, os que “na sua concepção de disciplina de partido não vão além das obrigações do revolucionário para com o grupo de ordem inferior de que é membro”. “Nenhum agrupamento por imposição é admissível num partido unificado”, explica Mártov aos defensores do espírito de circulo, sem prever que com estas palavras fustiga a sua própria atuação política nas últimas sessões do congresso e depois dele… O agrupamento por imposição é inadmissível para o CO, mas perfeitamente admissível para a redação. O agrupamento por imposição é condenado por Mártov quando o vê do centro, mas é defendido por Mártov quando deixa de lhe satisfazer a composição deste centro…” (décimo parágrafo do item acima)

“No Iskra (n.0 56) Mártov faz ironia por se atribuir grande importância ao convite de X ou de Y. De novo esta ironia se volta contra Mártov, porque o incidente com o CO serviu precisamente de ponto de partida aos debates sobre uma questão tão “importante” como o convite de X ou de Y para fazer parte do CC e do OC. Não está certo empregar-se duas medidas diferentes segundo se trate do seu próprio “grupo de ordem inferior” (em relação ao partido) ou de qualquer outro. Isto é precisamente espírito filistino e espírito de círculo, e não uma atitude de partido. Um simples confronto entre o discurso de Mártov perante a Liga (p. 57) e o seu discurso no congresso (p. 44) prova-o inteiramente. “Não compreendo – dizia Mártov entre outras coisas na Liga – como as pessoas arranjam maneira de se dizerem a qualquer preço iskristas e ao mesmo tempo mostrarem-se envergonhadas de o ser. “Estranha incompreensão da diferença entre o “dizer-se” e o “ser”, entre a palavra e a ação. No congresso, Mártov disse-se a si próprio adversário dos agrupamentos por imposição, mas foi partidário deles depois do congresso…” (último parágrafo do item acima)

d) Dissolução do Grupo “Iújneie Rabotheie”

“Do ponto de vista dos interesses de círculo, do ponto de vista “filistino”, não podia deixar de parecer “coisa delicada” (expressão dos camaradas Rússov e Deutsch) a dissolução de um grupo útil, que tinha tão pouca vontade de se deixar dissolver como a antiga redação do Iskra. Do ponto de vista dos interesses do partido, era indispensável esta dissolução, esta “absorção” (expressão de Gússev) pelo partido. O grupo Iújni Rabótchi declarou abertamente que “não considerava necessário” proclamar-se dissolvido e exigia que “o congresso se pronunciasse categoricamente” e “imediatamente: sim ou não”. O grupo Iújni Rabótchi invocou a mesma “continuidade” para a qual apelara a velha redação do Iskra… depois da sua dissolução! “Ainda que todos nós, individualmente considerados, constituamos um único partido – disse o camarada Egórov -, nem por isso esse partido deixa de ser composto por toda uma série de organizações, as quais se deve ter em conta como grandezas históricas… Se tal organização não é prejudicial ao partido, não há por que dissolvê-la.” Assim se pôs de forma perfeitamente definida uma importante questão de princípio, e todos os iskristas –  enquanto os interesses do seu próprio círculo não vieram para primeiro plano –  se pronunciaram categoricamente contra os elementos instáveis (nesse momento, os bundistas e dois dos partidários da Rabótcheie Dielo já não estavam no congresso; seguramente que teriam defendido com a máxima energia a necessidade de “ter em conta as grandezas históricas”)” (primeiro parágrafo do item acima)

e) O Incidente da Igualdade de Direitos das Linguas

“Uma tal maneira de pôr o problema, atribuindo-lhe um caráter sério e importante, toma realmente um significado de princípio, mas de modo nenhum o que queriam descobrir nele os Líber, os Egórov e os Lvov. O que assume um caráter de princípio é saber se devemos deixar as organizações e membros do partido aplicar os princípios gerais e essenciais do programa, tendo em conta as condições concretas e desenvolvendo-os no sentido dessa aplicação, ou se devemos, por simples medo das suspeitas, encher o programa de pormenores insignificantes, de indicações particulares, de repetições, de casuística. O que tem caráter de principio é saber como podem sociais-democratas, na luta com a casuística, discernir (“suspeitar”) tentativas de restrição dos direitos e liberdades democráticas elementares. Quando renunciaremos enfim a esse culto feiticista da casuística? – esta a idéia que nos surgiu quando da luta sobre as “línguas”.” (décimo segundo parágrafo do item acima)

f) O Programa Agrário

“Depois de ter simplificado a questão reduzindo-a a mera contraposição: operário e capitalista, os representantes do nosso “centro”, como de costume, esforçaram-se por lançar a sua estreiteza mental sobre o mujique. O camarada Mákhov dizia: “E precisamente porque considero o mujique inteligente, na medida do seu estreito ponto de vista de classe, que creio que ele apoiará o ideal pequeno-burguês da apropriação e da partilha.” Visivelmente, confundem-se aqui duas coisas: a definição do ponto de vista de classe do mujique, considerado como um pequeno burguês, e a restrição deste ponto de vista, a sua redução a uma “medida estreita”. E nesta redução que consiste o erro dos Egórov e dos Mákhov (tal como o erro dos Martínov e dos Akímov consistia em reduzir a uma “medida estreita” o ponto de vista do proletário). E, no entanto, a lógica e a história ensinam-nos que o ponto de vista de classe pequeno-burguês pode ser mais ou menos estreito, mais ou menos progressivo, precisamente devido à dupla posição do pequeno burguês. E a nossa tarefa não é de modo nenhum deixar cair os braços de desânimo perante a estreiteza (“estupidez”) do mujique ou perante a sua submissão a “preconceitos”, mas, pelo contrário, alargar constantemente o seu ponto de vista, ajudar a sua razão a vencer os preconceitos.” (quarto parágrafo do item acima)

“Os debates sobre o programa agrário mostram claramente a luta travada pelos iskristas contra dois quintos bem contados do congresso. Os delegados caucasianos assumiram nesta questão uma posição perfeitamente correta, em grande parte, sem dúvida, graças ao seu conhecimento profundo das formas locais de inúmeras sobrevivências feudais, o que os preservou das meras contraposições abstratas e escolares com que se contentavam os Mákhov. Contra Martínov e Líber, contra Mákhov e Egórov, levantaram-se tanto Plekhánov como Gússev (que confirmou que “bastantes vezes lhe tinha acontecido encontrar entre os camaradas que atuavam na Rússia concepções tão pessimistas”… como as do camarada Egórov … “sobre o nosso trabalho no campo”) como ainda Kostrov, Kárski e Trótski.” (sétimo parágrafo do item acima)

Falando em seguida dos argumentos que cheiram a “filistinismo”, o camarada Trótski assinalava que, “no período revolucionário que se aproxima, devemos ligar-nos ao campesinato”… “Perante esta tarefa, o cepticismo e “perspicácia” política de Mákhov e Egórov são mais prejudiciais do que qualquer miopia.” O camarada Kóstitch, outro iskrista da minoria, assinalou muito justamente “a falta de segurança em si mesmo e na sua firmeza no plano dos princípios” do camarada Mákhov – caracterização que se ajusta perfeitamente ao nosso “centro”. “No seu pessimismo, o camarada Mákhov coincide com o camarada Egórov, embora haja matizes entre ambos – prossegue o camarada Kóstitch. – Ele esquece que os sociais-democratas já trabalham entre o campesinato, que onde é possível dirigem já o seu movimento. E com o seu pessimismo restringem a envergadura do nosso trabalho” (p. 210). (oitavo parágrafo do item acima)

Aqui o camarada Mákhov bateu-se a si próprio mais uma vez. Primeiro declarou que as outras classes (exceto o proletariado) “não contam” e que “é contra que as apoiemos”. Em seguida, suavizou-se e admitiu que, “mesmo sendo no fundo reacionária, a burguesia é muitas vezes revolucionária, quando se trata, por exemplo, de combater o feudalismo e os seus vestígios. “Mas há grupos – continuou, retificando sem retificar nada – que são sempre (?) reacionários, como os artesãos, por exemplo. ” Estas as pérolas em matéria de princípios a que chegaram estes líderes do nosso “centro”, os mesmos que, mais tarde, com espuma na boca, defenderam a velha redação! Foram exatamente os artesãos, mesmo na Europa ocidental, onde a organização corporativa era tão forte, que demonstraram, como, aliás, outros pequenos burgueses das cidades, um extraordinário espírito revolucionário na época da queda do absolutismo. Precisamente para um social-democrata russo, é especialmente absurdo repetir sem reflexão o que os camaradas do Ocidente dizem dos atuais artesãos um século ou meio século depois da queda do absolutismo. Afirmar na Rússia que no aspecto político os artesãos são reacionários comparados coma burguesia é simplesmente retomar uma frase feita, aprendida de cor.  (penúltimo parágrafo do item acima)

g) Os Estatutos do Partido. O Projecto do Camarada Martov

As idéias fundamentais que o Iskra pretendia pôr na base da organização do partido resumiam-se, no fundo, às duas seguintes. A primeira, a idéia do centralismo, definia em principio o modo de resolver todos os numerosos problemas de organização particulares e de pormenor. A segunda, respeitante à função particular de um órgão ideológico dirigente, de um jornal, tinha em conta as necessidades temporárias e específicas precisamente do movimento operário social-democrata russo, nas condições de um regime de escravidão política, com a condição de criar no estrangeiro uma base inicial de operações para o assalto revolucionário. A primeira idéia, como a única idéia de princípios, devia penetrar todos os estatutos; a segunda, como idéia particular, originada por circunstâncias temporárias de lugar e modo de ação traduzia-se num afastamento aparente do centralismo, na criação de dois centros, o OC e o CC. Estas duas idéias fundamentais do Iskra acerca da organização do partido foram por mim desenvolvidas no editorial do Iskra (n.0 4) Por onde Começar?(14) e em Que Fazer?(15), e, finalmente, explicadas pormenorizadamente, quase sob forma de estatutos, na Carta a Um Camarada (16) Na realidade, já só restava o trabalho de redação para formular os parágrafos dos estatutos que deviam dar corpo precisamente a estas idéias, se o reconhecimento do lskra não era para ficar no papel, se não era meramente uma frase convencional. No prefácio à nova edição da Carta a Um Camarada apontei já que basta uma simples comparação entre os estatutos do partido e essa brochura para estabelecer a completa identidade das idéias de organização em ambos(17).  (segundo parágrafo do item acima)

Parte 2

h) Discussão Sobre o Centralismo antes da Cisão Entre os Iskristas

“Pelo contrário, tanto os anti-iskristas, como o “centro” entraram imediatamente na liça contra as duas idéias fundamentais de todo o plano de organização do Iskra (e, em consequência, dos estatutos na sua totalidade): contra o centralismo e contra os “dois centros”. O camarada Líber referiu-se aos meus estatutos como “desconfiança organizada” e viu (tal como os camaradas Popov e Egórov) descentralismo nos dois centros. O camarada Akímov exprimiu o desejo de alargar a esfera de competência dos comitês locais, concedendo-lhes em particular a eles próprios “o direito de modificar a sua composição”. “E preciso dar-lhes maior liberdade de ação … Os comitês locais devem ser eleitos pelos militantes ativos da localidade, tal como o CC é eleito pelos representantes de todas as organizações ativas da Rússia. Mas se mesmo isto não pode ser concedido, que se limite então o número de membros que o CC pode designar para trabalhar nos comitês locais…” (158). Como vedes, o camarada Akímov sugere aqui um argumento contra a “hipertrofia do centralismo”, mas o camarada Mártov continua surdo a estas autorizadas indicações, enquanto a sua derrota, quanto à composição dos centros, o não leva a seguir Akímov. Continua surdo mesmo quando o camarada Akímov lhe sugere a “idéia” dos seus próprios estatutos (§ 7: restrição dos direitos do CC de introduzir membros nos comitês)! Neste momento, o camarada Mártov não queria ainda “dissonância” conosco, e é por isso que tolerava a dissonância com o camarada Akímov tal como consigo próprio … Neste momento, o “monstruoso centralismo” só era atacado por aqueles a quem não convinha evidentemente o centralismo do Iskra: era atacado por Akímov, Líber, Goldblat, seguidos com prudência e precaução (de maneira a poder voltar atrás em qualquer momento) por Egórov (ver pp. 156 e 276), etc. Neste momento, a imensa maioria do partido dava-se ainda conta com toda a clareza de que eram os interesses de capelinha, os interesses de círculo do Bund, do Iújni Rabótchi, etc., que provocavam o protesto contra o centralismo. De resto, mesmo agora, é claro para a maioria do partido que são precisamente os interesses de círculo da velha redação do Iskra que provocam o seu protesto contra o centralismo…” (primeiro parágrafo do item acima)

“Vede, por exemplo, o discurso do camarada Goldblat (160-161). Ele argumenta contra o meu centralismo “monstruoso” que, segundo ele, conduz ao “aniquilamento” das organizações inferiores e “está imbuído da tendência de conceder ao centro um poder ilimitado, o direito ilimitado de intervir em tudo”, que só deixaria às organizações “um único direito, submeter-se sem um único protesto às ordens vindas de cima”, etc. “O centro previsto pelo projeto encontrar-se-á num espaço vazio, não haverá à sua volta nenhuma periferia, mas simplesmente uma massa amorfa onde se moverão os seus agentes executores”. Isto é, palavra por palavra, a mesma fraseologia falsa com que os Mártov e os Axelrod começaram a obsequiar-nos depois da sua derrota no congresso. O Bund mereceu o riso no congresso quando, lutando contra o nosso centralismo, concede ao seu próprio centro direitos ilimitados ainda mais claramente especificados (por exemplo, o direito de introduzir e expulsar membros, e mesmo o de rejeitar delegados aos congressos). Risos merecerão também, uma vez elucidada a questão, as lamentações da minoria que clama contra o centralismo e contra os estatutos quando está em minoria, e que mal se converte em maioria logo se apóia nos estatutos.” (segundo parágrafo d0 item acima)

“Sobre a questão dos dois centros, o agrupamento foi também claramente evidente: contra todos os iskristas erguem-se também ao mesmo tempo Líber, Akímov (que foi o primeiro a entoar a cantiga dos Axelrod—Mártov, hoje em moda, sobre o predomínio do OC sobre o CC no Conselho), Popov e Egórov. O plano dos dois centros decorria naturalmente das idéias que o antigo Iskra sempre tinha desenvolvido sobre a organização (e que, em palavras, tinham sido aprovadas pelos Popov e Egórov!). A política do antigo Iskra opunha-se diametralmente aos planos do Iújni Rabótchi, planos visando a criação de um órgão popular paralelo e a sua transformação num órgão de fato predominante. Eis aqui a raiz da contradição, tão a à primeira vista, de todos os anti-iskristas e todo o pântano serem a de um centro único, isto é, a favor de um centralismo aparentemente maior. É claro que também houve delegados (sobretudo no pântano) que quase não compreendiam a que levariam e tinham que levar, pela própria natureza das coisas, os planos de organização do Jújni Rabótchi. Mas eram impelidos a seguir os anti-iskrisras pela sua própria natureza indecisa e pouco segura de si.” (terceiro parágrafo d0 item acima)

“Entre os discursos dos iskristas durante estes debates (que precederam a cisão entre os iskristas) sobre os estatutos, são particularmente importantes os dos camaradas Mártov (“adesão” às minhas idéias sobre organização) e Trotski.Este último respondeu aos camaradas Akímov e Líber de tal forma que cada palavra da sua resposta desmascara o que há de falso no comportamento que seguiu a “minoria” depois do congresso e nas teorias que adotou depois do congresso.” (último parágrafo do item acima)

i) O Parágrafo 1 dos Estatutos

“Qual era, pois, a essência da questão em disputa? Já disse no congresso, e repeti-o depois mais de uma vez, que “não considero de modo nenhum a nossa divergência (sobre o §1) tão essencial que dela dependa a vida ou a morte do partido. Se houver um mau artigo nos estatutos, não vamos, de modo algum, morrer por isso!” (p. 250)(1). Esta diferença em si mesma, ainda que revelando matizes de princípio, não pôde de modo nenhum provocar a divergência (na realidade, para falar sem rodeios, a cisão) que se declarou depois do congresso. Mas qualquer pequena divergência pode tornar-se grande se insistirmos nela, se a colocarmos em primeiro plano, se nos pusermos a investigar todas as suas raízes e ramificações. Qualquer pequena divergência pode tomar uma enorme importância, se servir de ponto de partida para uma viragem para certas concepções erradas e se a estas concepções vierem juntar-se, em virtude de novas divergências complementares, atos anárquicos que levam o partido à cisão.” (segundo parágrafo do item acima)

“Quando digo que o partido deve ser uma soma (não uma simples  soma aritmética, mas um complexo) de organizações(2), quer isto dizer que eu “confundo” dois conceitos, partido e organização? É evidente que não. Exprimo assim, de maneira absolutamente clara e precisa, o meu desejo, a minha exigência de que o partido, como destacamento de vanguarda da classe, seja algo o mais organizado possível,  que o partido só aceite nas suas fileiras aqueles elementos que admitem, pelo menos, um mínimo de organização. Pelo contrário, o meu contraditor confunde no partido os elementos organizados e os não organizados, aqueles a quem se pode dirigir e os que se não pode, os elementos avançados e os que são não pode, os elementos avançados  e os que são incorrigivelmente atrasados, porque os atrasados corrigíveis podem entrar na organização. E esta confusão que é verdadeiramente perigosa. O camarada Axelrod invoca em seguida as “organizações estritamente conspirativas e centralistas do passado” (“Terra e Liberdade” e “A Vontade do Povo”): à volta destas organizações “agrupava-se uma quantidade de pessoas que não pertenciam à organização, mas que a ajudavam de uma forma ou de outra e eram consideradas membros do partido… Este princípio deve ser aplicado ainda mais estritamente na organização social-democrata”. Cá chegamos a um dos pontos-chave da questão:” este princípio” que permite que se intitulem membros do partido pessoas que não pertencem a nenhuma das suas organizações e que somente “o ajudam de uma maneira ou de outra” será efetivamente um princípio social-democrata? E Plekhánov deu a esta pergunta a única resposta possível: “Axelrod não tinha razão quando aludia à década de 70. Havia então um centro bem organizado e admiravelmente disciplinado; este centro tinha à sua volta organizações de diferentes níveis, criadas por ele próprio, e o que estava fora dessas organizações era caos e anarquia. Os elementos que constituíam este caos auto-intitulavam-se membros do partido, mas a causa, longe de ganhar com isso, só perdia. Não devemos imitar a anarquia da década de 70, mas evitá-la.” Assim, “este princípio”, que o camarada Axelrod queria fazer passar por social-democrata, é de fato um princípio anárquico. Para refutar isto, é preciso demonstrar a possibilidade do controlo, da direção e da disciplina à margem da organização, é preciso demonstrar a necessidade de atribuir aos “elementos do caos” o titulo de membros do partido. Os defensores da fórmula do camarada Mártov não demonstraram, e não podiam demonstrar, nem uma coisa nem outra. O camarada Axelrod citou, a titulo de exemplo, “um professor que se considera social-democrata e o declara”. Para levar até ao fim o pensamento ilustrado por este exemplo, o camarada Axelrod deveria perguntar em seguida: os próprios sociais-democratas organizados consideram tal profressor um social-democrata? Como não levantou esta segunda questão, Axelrod deixou a sua argumentação a meio. De fato, das duas uma. Ou os sociais-democratas organizados reconhecem o professor em questão como um social-democrata, e então porque não haviam de inclui-lo nesta ou naquela organização social-democrata? Só na condição de tal integração as “declarações” do professor estarão em conformidade com os seus atos e não serão apenas frases ocas (ao que de resto se reduzem com demasiada frequência as declarações professorais). Ou os sociais-democratas organizados não reconhecem o professor como um social-democrata, e neste caso carece de sentido e é absurdo, insensato e prejudicial conferir-lhe o direito de usar o título honroso e cheio de responsabilidade de membro do partido. Trata-se pois de aplicar consequentemente o princípio de organização, ou consagrar a dispersão e a anarquia. Estamos a construir o partido tomando como base um núcleo já formado e consolidado de sociais-democratas, núcleo que, por exemplo, organizou o congresso do partido, e que deve ampliar e multiplicar todo o tipo de organizações do partido, ou contentamo-nos com a frase tranquilizadora de que todos os que nos ajudam são membros do partido? “Se adotamos a fórmula de Lénine – prosseguiu o camarada Axelrod – deitaremos pela borda fora uma parte dos que, embora ~não possam ser admitidos diretamente na organização, são, no entanto, membros do partido.” A confusão de conceitos de que queria acusar-me o camarada Axelrod, aparece agora com plena clareza nas suas próprias palavras: considera já como um fato que todos os que nos ajudam são membros do partido, enquanto é exatamente este o ponto contestado, e os contraditores devem primeiro, provar a necessidade e a utilidade de tal interpretação. Qual o significado desta frase à primeira vista tão terrível: deitar pela borda fora? Se considerarmos membros do partido apenas os aderentes às organizações que reconhecemos como organizações do partido, então as pessoas que não possam entrar “diretamente” em nenhuma organização do partido podem, no entanto, militar numa organização que não seja do partido, mas que esteja em contato com ele. Por consequência, não se trata de modo algum de deitar pela borda fora ninguém, isto é, afastar do trabalho, da participação no movimento. Pelo contrário, quanto mais fortes forem as nossas organizações do partido, englobando verdadeiros sociais-democratas, quanto menos hesitação e instabilidade houver no interior do partido, mais larga, mais variada, mais rica e mais fecunda será a influência do partido sobre os elementos das massas operárias que o rodeiam e por ele são dirigidos. Com efeito, não se pode confundir o partido, como destacamento de vanguarda da classe operária, com toda a classe. Ora, é justamente nesta confusão (característica do nosso economismo oportunista em geral) que cai o camarada Axelrod quando diz: “Naturalmente, estamos a criar, antes de tudo, uma organização dos elementos mais ativos do partido, uma organização de revolucionários; mas como somos um partido de classe, devemos fazer as coisas de modo a não deixar fora do partido os que, conscientemente, ainda que talvez sem se mostrarem absolutamente ativos, tenham uma ligação com esse partido.” Primeiro, no número dos elementos ativos do partido operário social-democrata, de modo algum figurarão apenas as organizações de revolucionários, mas toda uma série de organizações operárias, reconhecidas como organizações do partido. Segundo, por que razão ou em virtude de que lógica se poderia deduzir do fato de sermos um partido de classe a consequência de não ser preciso estabelecer uma distinção entre os que pertencem ao partido e os que têm uma ligação com o partido? Muito pelo contrário: precisamente devido à existência dos diferentes graus de consciência e atividade, é necessário estabelecer uma diferença no grau de proximidade do partido. Nós somos um partido de classe, e é por isso que quase toda a classe (e em tempo de guerra, num período de guerra civil, absolutamente toda a classe) deve agir sob a direção do nosso partido, deve ter com o nosso partido a ligação mais estreita possível. Mas seria manilovismo e “seguidismo” pensar que sob o capitalismo quase toda a classe, ou mesmo toda a classe, estará um dia em condições de se elevar ao ponto de alcançar o grau de consciência e de atividade do seu destacamento de vanguarda, do seu partido social-democrata. Nunca nenhum social-democrata de bom senso duvidou de que sob o capitalismo, mesmo a organização sindical (mais rudimentar, mais acessível ao grau de consciência das camadas não desenvolvidas) não está à altura de englobar quase toda ou toda a classe operária [grifo do aditor do blog]. Seria unicamente enganar-se a si próprio, fechar os olhos sobre a imensidade das nossas tarefas, restringir essas tarefas, esquecer a diferença entre o destacamento de vanguarda e toda a massa que pende para ele, esquecer a obrigação constante do destacamento de vanguarda de elevar camadas cada vez mais amplas ao seu nível avançado. E é precisamente esse fechar dos olhos e esse esquecimento que se comete quando se apaga a diferença que existe entre os que têm ligação e os que entram, entre os conscientes e os ativos, por um lado, e os que ajudam, por outro. (quinto parágrafo do item acima)

“… “As organizações operárias para a luta econômica devem ser organizações sindicais. Todo o operário social-democrata deve, dentro do possível apoiar estas organizações e nelas trabalhar ativamente … Mas é absoluta mente contrário aos nossos interesses exigir que só os sociais-democratas. possam ser membros das uniões profissionais já que isso reduziria a nossa influência sobre a massa. Que participe na união profissional todo o operário que compreenda a necessidade da união para a luta contra os patrões e o governo. O próprio objetivo das uniões profissionais seria inexequível se não agrupassem todos os operários capazes de compreender, ainda que mais não fosse, esta noção elementar, se estas uniões profissionais não fossem organizações muito amplas. E quanto mais amplas forem estas organizações, tanto mais ampla será a nossa influência nelas, influência exercida não somente pelo desenvolvimento “espontâneo” da luta econômica, mas também pela ação consciente e direta dos membros socialistas das uniões sobre os seus camaradas” (p. 86) (6). Diremos de passagem que o exemplo dos sindicatos é particularmente característico para emitir um juízo sobre o problema em discussão respeitante ao § 1. Que os sindicatos devam trabalhar “sob controlo e direção” das organizações sociais-democratas, a este respeito não pode haver duas opiniões entre os sociais-democratas. Mas partir desta base para dar a todos os membros destes sindicatos o direito de “se declararem” membros do partido social-democrata seria um absurdo evidente e representaria a ameaça de um duplo dano: por um lado, reduzir as dimensões do movimento sindical e enfraquecer a solidariedade operária neste domínio. Por outro lado, abrir as portas do partido social-democrata à confusão e à vacilação. A social-democracia alemã teve que resolver um problema semelhante em circunstâncias concretas aquando do famoso incidente dos pedreiros de Hamburgo que trabalhavam à tarefal199. A social-democracia não hesitou um momento em reconhecer que o a ação dos fura-greves era indigna do ponto de vista de um social-democrata, ou seja, em reconhecer a direção das greves, o apoio às mesmas como coisa sua própria; mas ao mesmo tempo rejeitou com não menos decisão a exigência de identificar os interesse do partido com os interesses das uniões profissionais, de lazer o partido responsável dos diversos passos dos diferentes sindicatos.O partido deve aplicar-se, e aplicar-se-á, a impregnar do seu espírito, a submeter à sua influência as uniões profissionais, mas precisamente no interesse desta influência deve distinguir nestas uniões os elementos plenamente sociais-democratas (que pertencem ao partido social-democrata) dos que não são inteiramente conscientes nem inteiramente ativos sob o ponto de vista político, e não deve confundir uns e outros, como quer o camarada Axelrod.” (décimo parágrafo do item acima)

“do ponto de vista do camarada Mártov as fronteiras do partido ficam absolutamente indeterminadas, por que “qualquer grevista” pode ” declar-se membro do partido”. Qual é o proveito de tal imprecisão? A ampla difusão do “título”. O seu prejuízo consiste em provocar a idéia desorganizadora da confusão da classe como o partido.” (décimo segundo parágrafo do item acima)

“Para ilustrar os princípios gerais que expusemos, lançaremos ainda uma breve vista de olhos à posterior discussão no congresso acerca do §1. O camarada Brúker (para alegria do camarada Mártov) pronunciou-se a favor  da minha fórmula, mas verificou-se que a sua aliança comigo,  contrariamente à aliança do camarada Akímov com Mártov, baseava-se num mal-entendido. O camarada Brúker “não está de acordo com os estatutos no seu conjunto nem com todo o seu espírito” (p. 239), e defende a minha fórmula como base da democracia que desejavam os partidários da Rabótcheie Dielo. O camarada Brúker ainda não se elevou ao ponto de vista de que na luta política, por vezes, é preciso escolher o mal menor; o camarada Brúker não se apercebeu de que era inútil defender a democracia num congresso como o nosso. O camarada Akímov mostrou-se mais perspicaz. Colocou a questão de modo absolutamente exato quando reconheceu que “os camaradas Mártov e Lenine discutem a questão de saber qual (das fórmulas) Atinge melhor o seu objetivo comum” (p.252). “Brúker e eu – continua queremos escolher a que menos atinja o objetivo. Eu, neste sentido, escolho a fórmula de Mártov.” EE o camarada Akímov explicou com franqueza que “o próprio objetivo dele” (de Plekhánov, Mártov e meu; isto é, criação de uma organização dirigente de revolucionários) o considera “irreversível e prejudicial”; tal como o camarada Martínov (10)  defende a idéia dos economistas de que não é necessária “a organização de revolucionários”. Ele “tem uma profunda fé em que a vida acabará por impor-se na nossa organização de partido, independentemente de lhe fechardes o caminho com a fórmula de Mártov ou com a fórmula de Lénine”. Não valeria a pena que nos detivéssemos nesta concepção “seguidista” da “vida” se não tropeçássemos com ela também nos discursos do camarada Mártov. O segundo discurso do camarada Mártov (p. 245) é, em geral, tão interessante que vale a pena examiná-lo em pormenor.
Primeiro argumento do camarada Mártov: o controlo das organizações do partido sobre os membros do partido não pertencentes a essas organizações “é realizável porquanto o comitê ao atribuir a qualquer pessoa uma função determinada pode controlar o seu cumprimento” (p. 245). Esta tese é altamente característica, pois “denuncia”, se é que nos podemos permitir esta expressão, a quem é necessária e a quem servirá na realidade a fórmula de Mártov: a intelectuais isolados ou a grupos operários e às massas operárias? Porque da fórmula de Mártov são possíveis duas interpretações: 1) tem o direito de “se declarar” (palavras do próprio camarada Mártov) membro do partido todo aquele que lhe preste uma colaboração pessoal regular sob a direção de uma das suas organizações; 2) qualquer organização do partido tem o direito de reconhecer como membro do partido todo aquele que lhe preste uma colaboração pessoal regular sob a sua direção. Só a primeira interpretação permite, com efeito, a “qualquer grevista” dizer-se membro do partido, e, por isso mesmo, só esta interpretação conquistou imediatamente os corações dos Líber, dos Akímov e dos Martínov. Mas esta interpretação é manifestamente uma frase, porque pode englobar toda a classe operária, e a diferença entre o partido e a classe é apagada; só “simbolicamente” se pode falar em controlo e direção de “qualquer grevista”. Eis porque o camarada Mártov, no seu segundo discurso, se desviou logo para a segunda interpretação (ainda que, diga-se entre parêntesis, ela tenha sido explicitamente rejeitada pelo congresso, que não aprovou a resolução de Kóstitch200, p. 255): o comitê atribuirá funções e controlará o seu cumprimento. Naturalmente, tais missões especiais nunca existirão em relação à massa dos operários, aos milhares de proletários (de que falam o camarada Axelrod e o camarada Martínov); mas, muitas vezes elas serão confiadas precisamente aos professores mencionados por Axelrod, aos estudantes de liceu com quem se preocupavam o camarada Líber e o camarada Popov (p. 241), à juventude revolucionária de que falava o camarada Axelrod no seu segundo discurso (p. 242). Numa palavra: ou a fórmula do camarada Mártov ficará reduzida a letra morta, a frase oca, ou então servirá principalmente e quase exclusivamente “a intelectuais completamente imbuídos de individualismo burguês” e que não querem entrar numa organização. Em palavras, a fórmula de Mártov parece defender os interesses das largas camadas do proletariado. Mas, de fato, esta fórmula servirá os interesses da intelectualidade burguesa, que receia a disciplina e organizações proletárias. Ninguém ousará negar que o que caracteriza, de um modo geral, a intelectualidade como uma camada especial nas sociedades capitalistas contemporâneas é justamente o seu individualismo e a sua incapacidade para se submeter à disciplina e à organização (ver, por exemplo, os conhecidos artigos de Kautsky sobre a intelectualidade); nisso é que reside, entre outras coisas, a diferença desvantajosa entre esta camada social e o proletariado; nisto reside uma das razões que explicam a fraqueza e instabilidade da intelectualidade, que o proletariado tantas vezes sentiu. E esta particularidade da intelectualidade está inseparavelmente ligada às suas condições habituais de vida, ao seu modo de ganhar a vida, que se aproximam em muitíssimos aspectos das condições de existência pequeno-burguesa (trabalho individual ou em coletivos muito pequenos, etc.). Enfim, também não é por acaso que justamente os defensores da formula do camarada Mártov tiveram que citar o exemplo de professores e estudantes de liceu! Nos debates sobre o §1 não foram os campeões uma ampla luta proletária que se levantaram contra os campeões de uma organização radical conspirativa, como pensavam os camaradas Martínov e Axelrod, mas os partidários do individualismo intelectual burguês que se defrontaram com os partidários da organização e disciplina proletárias.” (décimo primeiro e segundo parágrafo do item acima)

“”A nossa fórmula – diz o camarada Mártov – exprime a aspiração de que exista entre a organização de revolucionários e a massa uma série de organizações.” Não é isso, precisamente. Esta aspiração, verdadeiramente obrigatória, é justamente o que a fórmula de Mártov não exprime, pois não estimula a organizar-se, não contém a exigência de organizar-se, não separa o organizado do inorganizado. Não dá senão um título (11), e a propósito disto não podemos deixar de lembrar as palavras do camarada Axelrod: “Não há decretos que possam proibi-los (aos círculos da juventude revolucionária, etc.) e a pessoas isoladas, de se dizerem sociais-democratas” (santa verdade!) “ou até de se considerarem parte integrante do partido” … Isto já é absolutamente falso! Proibir alguém de se dizer social-democrata é impossível, e é inútil, porque esta palavra apenas exprime diretamente um sistema de convicções, e não relações determinadas de organização. Proibir círculos e pessoas isoladas de “se considerarem parte integrante do partido” é possível e necessário, quando esses círculos e pessoas prejudicam a causa do partido, o corrompem ou o desorganizam. Seria ridículo falar de um partido, como de um todo, como de uma grandeza política, se ele não pudesse “proibir por decreto” a um círculo “considerar-se parte integrante” do todo! De que serviria então fixar um método e condições para a expulsão do partido? O camarada Axelrod levou com evidência ao absurdo o erro fundamental  do camarada Mártov; erigiu mesmo este erro em teoria oportunista quando acrescentou: “Na fórmula de Lénine, o §1 está manifestamente  em contradição de princípios com a própria essência (!!) e com as tarefas do partido social-democrata do proletariado” (p. 243). Isto significa, nem mais nem menos, o seguinte: o exigir mais do partido que da classe contradiz de princípio a própria essência das tarefas do proletariado. Não é de espantar que Akímov tenha defendido com todas as suas forças semelhante teoria!” (décimo sétimo parágrafo do item acima)

A última expressão, que citei entre aspas, pertence ao camarada Pavlóvitch que, com muita justeza, qualificou de anarquismo o fato de reconhecer como membros elementos “irresponsáveis e que se incluem a si próprios no partido”. “Traduzida em linguagem corrente – dizia Pavlóvitch, explicando a minha fórmula ao camarada Líber – ela significa: “Se queres ser membro do partido, tens que reconhecer também as relações de organização, e não apenas de uma maneira platônica” [grifo do editor do blog]. Ainda que simples, esta “tradução” mostrou, no entanto, não ser supérflua (como o demonstraram os acontecimentos posteriores ao congresso), não só para os diversos professores e estudantes de liceu duvidosos, mas também para os mais autênticos membros do partido, para as pessoas de cima … O camarada Pavlóvitch assinalou com não menos razão a contradição entre a fórmula do camarada Mártov e o princípio indiscutível do socialismo científico, que com tanta infelicidade citou o camarada Mártov: “O nosso partido é o intérprete consciente de um processo inconsciente.” Exatamente. E é precisamente por isso que é errado querer que “qualquer grevista” possa intitular-se membro do partido, porque, se “qualquer greve” não fosse simplesmente a expressão espontânea de um poderoso instinto de classe e de luta de classes que conduz inevitavelmente à revolução social, mas fosse uma expressão consciente deste processo, então … então a greve geral não seria uma frase anarquista, então o nosso partido englobaria imediatamente, de uma só vez, toda a classe operária e, por consequência, acabaria também, de uma só vez, com toda a sociedade burguesa. Para ser verdadeiramente um intérprete consciente, o partido deve saber estabelecer relações de organização que assegurem um certo nível de consciência e elevem sistematicamente este nível. “Para seguir o caminho de Mártov – diz o camarada Pavlóvitch – é preciso primeiramente suprimir o ponto relativo ao reconhecimento do programa, porque, para aceitar um programa, é preciso assimilá-lo e compreendê-lo … Reconhecer o programa implica um nível bastante elevado de consciência política.” Jamais admitiremos que o apoio à social-democracia, que a participação na luta por ela dirigida sejam artificialmente limitados seja por que exigência for (assimilação, compreensão, etc.), por-que essa mesma participação, pelo simples fato de se afirmar, eleva a consciência e os instintos de organização; mas já que nos agrupamos num partido para um trabalho metódico, devemos cuidar de assegurar este caráter metódico.” (décimo nono parágrafo do item acima)

Parte 3

j) Vítimas Inocentes de uma Falsa Acusação de Oportunismo

k) Continuação dos Debates Sobre os Estatutos. Composição do Conselho
l) Conclusão dos Debates Sobre os Estatutos. Cooptação para os Centros. Saída dos Delegados da “Rabotcheie Delo”

Parte 4

m) As Eleições. O Encerramento do Congresso

Parte 5

n) Quadro Geral da Luta no Congresso. A Ala Revolucionária e a Ala Oportunista no Partido
o) Depois do Congresso. Dois Métodos de Luta
p) Pequenas Contrariedades Não Devem Prejudicar um Grande Prazer

Parte 6

q) O Novo “Iskra”. Oportunismo nas Questões de Organização
r) Algumas Palavras Sobre a Dialética. Duas Revoluções

Anexo: O Incidente do Camarada Gússev com o Camarada Deutsch

Fonte: http://www.marxists.org/portugues/lenin/1904/passo/index.htm

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