O SURGIMENTO DA IDENTIDADE GAÚCHA NO CONTEXTO PLATINO E A DISPUTA CULTURAL


O SURGIMENTO DA IDENTIDADE GAÚCHA NO CONTEXTO PLATINO E DISPUTA CULTURAL

Resumo: A colonização europeia produziu alterações dramáticas para os povos originários e ao mesmo tempo gerou uma nova realidade na qual surgiram novas categorias sociais e simbólicas. O objetivo principal deste trabalho é apresentar uma reflexão sobre o surgimento da identidade gaúcha no contexto histórico platino a partir de uma abordagem de disputa sociocultural da cultura. Metodologicamente este estudo constituiu-se de uma revisão bibliográfica. Conclui-se que a construção da identidade é essencialmente social, ou seja, a subjetividade é socializada.

Palavras-chave: Identidade gaúcha, História Platina, Leitura Simbólica.

Introduzindo a Investigação

A identidade gaúcha como se apresenta no presente, como algo de aparência estável e organizada, pode obscurecer sua origem e processo, pode inclusive negá-los. Sendo assim, este trabalho apresentará a gênese da categoria social do gaúcho e sua significação naquele contexto histórico.

A identidade compõe a realidade social como uma espécie de tradução do real no campo das ideias e assim também incide sobre as práticas e altera a realidade. A identidade depende tanto das condições concretas quanto de seu próprio sistema de representação, que enquanto tal representação não necessita obrigatoriamente correspondência com o real.

Além de contextualizar historicamente o surgimento do grupo social que recebeu o nome de gaúcho e sua correspondente representação no campo simbólico, sua identidade, será abordada também a relação entre realidade e os processos de representação (ideológicos) desta mesma realidade.

Dentro da complexa mediação entre representação e realidade serão abordados tanto os processos de disputa social da cultura quanto sua operacionalização psicológica.

Metodologia da Investigação

Metodologicamente este estudo constituiu-se de uma pesquisa bibliográfica que, segundo Gil (2002, p.44), “é desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros, artigos científicos, periódicos e atualmente com materiais disponibilizados na internet”. Assim sendo, o estudo foi desenvolvido utilizando-se os escritos de alguns autores tais como: Padoin, Bakhtin, Vygotskii, Pesavento e Prats.

Surgimento da Identidade Gaúcha no Contexto Platino

No século XVIII, segundo Padoin (2001), a América foi espaço de disputas territoriais entre Portugal, Espanha e a Inglaterra industrializada no plano internacional ao mesmo tempo em que se formavam elites locais. Este período precede o processo de independência que se deu na primeira metade do século XIX.

Os espanhóis estabelecem-se na região criando as reduções jesuíticas e depois introduzindo a criação de gado. As missões produziram força de trabalho indígena disponível para a criação de gado que foi posteriormente introduzido. A partir de então a exploração da atividade pelos espanhóis, portugueses e indígenas provocou alterações sociais e culturais, principalmente entre os últimos, conforme Padoin (2001).

O gado solto nos campos se tornou fonte de sobrevivência para desertores do exércitos portugueses e espanhóis, fugitivos da justiça, negros – que resistiam a escravidão – e indígenas. A síntese deste processo é a nova categoria social chamada gaúcho ou gaudério, de acordo com Padoin (2001).

Essa categoria nova, o gaúcho, neste primeiro momento, estava associada aos grupos em condições sociais marginalizadas, ao mesmo tempo significou uma síntese do processo de colonização. Estes grupos subordinados e ao mesmo tempo resistentes à estrutura social estabelecida, formavam o polo negativo frente aos grupos dominantes, exatamente o inverso da figura do gaúcho se estabelece no movimento tradicionalista. O gaúcho surge ainda no momento colonial, portanto, antes da existência do Rio Grande do Sul.

No final do século XVIII, a produção de couro foi o que motivou Portugal a construir fortes em Rio Grande (1737), logo depois da Espanha fundar Montevidéu (1727). Com as sesmarias e a formação das estâncias, o gaúcho é incorporado à estrutura produtiva (gado) e deixa de ser nômade, conforme Padoin (2001).

Para Padoin (2001), o descontentamento da elite local (com sua condição política) que incluía filhos de espanhóis nascidos na América, os “criollos”, o descontentamento social dos gaúchos, índios, mestiços (com cercamento dos campos) e a influência do iluminismo produziu-se a deterioração da imagem espanhola e a simpatia crescente pela Inglaterra da Revolução Industrial. Estava sendo gestado o processo de independência das colônias.

As elites locais e as camadas subalternas encontram no iluminismo uma fonte de justificação de suas demandas políticas e também produzia uma alteração positiva na influência da Inglaterra sobre as colônias o que favorecia a perspectiva de independência destas últimas.

Para Padoin (2001), o iluminismo foi disseminado na América principalmente pelos comerciantes, que em sua maioria eram maçons, começando pela colônias inglesas e também por muitos sacerdotes que professavam simultaneamente a fidelidade à Igreja e à Maçonaria. Um de seus expoentes foi Simón Bolívar.

Após sua expulsão de Portugal e Espanha, os jesuítas se transformaram em adversários da coroa espanhola e proclamando eles também a soberania popular ante o despotismo, de acordo com Padoin (2001).

Além de uma elite intelectual formada na Europa e nas universidades regionais, não excluía a existência paralela de uma elite local detentora de um poder econômico e que não necessariamente possuía formação universitária, segundo Padoin (2001).

Formava-se um conjunto de forças de oposição à colonização, pela independência das colônias. Tais forças, além de interesses comum que conflitavam com as coroas, necessitavam unificar a pauta.

A bandeira do Estado unitário e o federalismo estavam presentes em todos os discursos, mesmo que com significados diferentes. Centralizado ou descentralizado, a maioria dos Estados surgidos na América se consolidaram como Estado unitário, conforme Padoin (2001).

A Inglaterra teve papel importante neste processo, pois era de seu interesse alterar a correlação de forças na região em seu favor.

Depois de incentivar o separatismo, a Inglaterra realiza acordo com a Espanha e passa a impulsionar sua política imperialista não mais através do domínio do território e sim pela via comercial, de acordo com Padoin (2001).

Portugal, em 1816, estabelece uma força militar de seis mil homens na fronteira do Rio Grande do Sul com objetivo de conter Artigas e acaba por ocupar Montevidéu. Em 1822, com a independência do Brasil, foi criada a Província Cisplatina, conforme Padoin (2001).

Com as primeiras repúblicas independentes, o jogo de forças em disputa fica ainda mais complexo. O espaço se transformou em campo de disputa entre as potencias decadentes (Portugal e Espanha), as potência em ascensão (França e Inglaterra) e entre as nações emergentes (Argentina, Brasil e Uruguai). Tais disputas são necessárias para se estudar a história do Sul do Brasil, segundo .

A Inglaterra estava interessada no fortalecimento dos novos Estados, pois sua consolidação colocava os ingleses no posto de senhores do comércio mundial. Por tal motivo, o império inglês apoiou a independência da Cisplatina, a República do Uruguai. A perda do território ocasionou problemas comerciais e espaciais para os estancieiros riograndenses, de acordo Padoin (2001).

Com a invasão das Missões Orientais em 1828, por Lavelleja, o governo brasileiro acaba por renunciar à Província Cisplatina, conforme Padoin (2001).

A Constituição Imperial (do Brasil) centralizadora de 1824, o Ato Adicional de 1834 e a perda da Cisplatina somadas a conjuntura econômica também desfavorável aos interesses da elite da campanha riograndense são as motivações centrais da Revolução Farroupilha. A bandeira do federalismo unificou tais interesses com outros grupos, que por seus vínculos e crenças políticas aderiram à causa, segundo Padoin (2001).

Em comum com os processos nacionais vizinhos de emancipação não apenas o federalismo, mas também o fato da liderança do processo pertencer a um grupo de pecuaristas, que assume a direção dos novos Estado Nacionais sob a forma republicana, conforme Padoin (2001).

É neste contexto que se desenvolve o gaúcho riograndense. Como exposto anteriormente, o gaúcho na sua origem é anterior ao Brasil e por consequência ao Rio Grande do Sul. O gaúcho do sul do Brasil é resultado de um processo que tem na origem os grupos diversos que resistiam à estrutura social existente no século XVIII, na região platina.

A Mediação Entre o Campo Simbólico e a Realidade

A ideologia faz parte da realidade, com a diferença de refletir e retratar um realidade exterior. A ideologia tem significado e está ligada à algo exterior, ou seja, é um signo. Sem signo não há ideologia. Toda imagem simbólica ocasionada por um objeto físico é um produto ideológico, pois vai além da simples existência para refletir e representar um outra realidade, segundo Bakhtin (1981).

Para Bakhtin (1981), por mais próximos que se tornem signo e o que o signo representa, ambos não se tornarão se reduzirão um ao outro.

Afirma Bakhtin (1981), que o signo está sujeito aos critérios de avaliação ideológica, verdadeiro, falso, correto, justificado, bom etc. O domínio ideológico e os domínio do signo coincidem. Logo tudo que possui valor ideológico, também possui um valor semiótico.

Cada campo da criação ideológica é dado pela função social que cumpre, porém o que os unifica é seu caráter simbólico. Além disso, cada parte do campo simbólico é simultaneamente parte, fragmento da realidade, o que torna passível de estudo metodologicamente unitário, segundo Bakhtin (1981).

O consciência necessita encarnar materialmente em signos, para Bakhtin (1981), assim estes são o veículo da consciência. A compreensão é uma resposta a signos por meio de signos.

Se para Vygotskii (2008), o pensamento e a fala se unificam no pensamento verbal, para Bakhtin (1981), a consciência (pensamento) e a realidade se unificam por meio do campo simbólico.

Bakhtin (1981) ressalta a dicotomia entre o idealismo e o psicologismo de um lado e o positivismo de outro, onde a primeira posição tenta explicar o processo ideológico estritamente por si mesmo sem conexão com a realidade, enquanto o segunda posição inverte a fórmula, fazendo derivar o processo de psicológico a nada.

A especificidade do produto ideológico, conforme Bakhtin (1981), está na impossibilidade de ser explicado em termos supra ou infra-humanos, pois situa-se dentro do material social particular de signo criado pela humanidade. De forma alguma o campo semiótico pode ser naturalizado, não pode ser derivado direto da natureza como tenta o materialismo mecanicista. A consciência individual não pode explicar nada, e mais ainda, deve ser explicada a partir do meio ideológico e social. A consciência adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de suas relações sociais e a consciência individual (sócio-ideológica) tem nos signos o seu alimento, a matéria de seu desenvolvimento. A consciência privada de seu conteúdo semiótico e ideológico, é um simples ato fisiológico, desprovido de sentido.

A relação entre ideologia e psicologia é colocada nos seguintes temos por Bakhtin (1981): o estudo da ideologias não depende da psicologia, porém o estudo da psicologia precisa se apoiar no estudo das ideologias.

A existência do signo materializa a comunicação social e esta é a natureza dos fenômenos ideológicos. A linguagem explicita esta caracterização, pois na palavra que não comporta nada além de sua função social, além de uma relação social. Enquanto a palavra isoladamente é nutra, o signo possui uma função ideológica da qual não pode ser separado, segundo Bakhtin (1981).

Por outro lado, Bakhtin (1981) observa que a palavra é criação que social e ao mesmo tempo individual, produzida pelos próprio organismo individual, determinando o papel da palavra como material flexível, veiculável e que permitindo a consciência interior, o discurso interior, que não necessita obrigatoriamente se expressar externamente. Porém, o estudo da consciência individual não é possível isolado do tecido social.

O processo de compreensão dos fenômenos ideológicos não pode ser realizado sem considera o discurso interior, que o pensamento verbal, portanto social. Isso não implica admitir que o pensamento verbal possa suplantar qualquer outro signo ideológico. Quer dizer apenas que o pensamento verbal unifica e centraliza a criação ideológica, conforme Bakhtin (1981).

Bakhtin (1981) afasta o método mecanicista que apresenta o problema da ideologia em uma relação causal com a infraestrutura. Também nega a possibilidade de redução do material semiótico-ideológico ao fenômeno ideológico, mesmo que o campo simbólico seja ideológico, ainda assim possui sua especificidade que não se esgota no seu valor denotativo racional. A expressão da infraestrutura material no campo semiótico-ideológico não é automática, necessita de uma série de processos qualitativamente diferenciados, que em cada momento possui regras próprias e em relação não apenas com a infraestruturas mas também com o conjunto do campo semiótico-ideológico em seu conjunto.

Mesmo quando um sistema ideológico ainda encontra-se não adequadamente estruturado, Bakhtin (1981) pontua que a palavra é o indicador mais sensível da transformações sociais, elas vão acumulando variações quantitativas que pertencem a processos de mudanças que ainda não produziram saltos qualitativos, registrando as fases mais transitórias das mudanças sociais. Essa psicologia do corpo social é o elo de ligação entre a ideologia e a estrutura sócio-política. Na psicologia do corpo social, materializada na palavra, acumulam-se mudanças rumo a expressões ideológicas mais coesas.

A psicologia do corpo social deve ser estudada, segundo Bakhtin (1981), do pontos de vista do conteúdo e da forma. Em cada momento histórico possui, os grupos sociais possuem repertórios discursivos/comunicativos dentro do espaço sócio-ideológico. Formas distintas pertencentes ao mesmo gênero estão ligadas organicamente pela forma de comunicação verbal, por sua vez ligada às relações sociais de produção.

Todo signo é resultado do processo social interativo dos indivíduos que produz um consenso provisório e as formas do signo são condicionadas tanto pelo conteúdo social quanto pela forma como a interação acontece. Como o processo é interativo, o signo influencia o conteúdo e a forma social, porém se tais formas de interação mudam e conteúdos sociais mudam, o signo se torna inadequado e tende a dar lugar à nova significação. Portanto, para Bakhtin (1981), não se pode: i) separar ideologia e realidade material do signo; ii) dissociar o signo da formas de comunicação social; iii) desligar a comunicação da formas da sua base material.

A condição para que um signo cause um reação simbólico-ideológica em cadeia é que este signo esteja fundado na condições materiais da sociedade em questão. Para Bakhtin (1981), não se trata de uma alteração provocada pelo arbítrio individual. Mesmo que seja realizado, operado pelo indivíduo, se trata de um índice social de valor com pretensões de consenso e é apenas em torno deste consenso que o indivíduo exterioriza o signo semiótico-ideologico.

Toda consciência individual é ideológica, para Bakhtin (1981), com o processo de interiorização ela absorve o signo como sendo seu, mesmo assim a fonte não se encontra na consciência individual.

Na relação onde o signo reflete a a realidade e a realidade se refrata no signo, ou seja, não se trata de uma relação exata, a determinação do grau de refração (distorção) é da realidade no signo é produto da interação social, nas sociedade de classe, a luta de classes. Como a comunidade semiótica não pode se resumir à classe, diferentes classes utilizam um mesma língua, portanto o signo implica certo consenso e certa contradição ao mesmo tempo, pois expressa um realidade contraditória. O signo não escapa à luta de classe e é inclusive um arena de disputa, conforme Bakhtin (1981). A classe dominante tende a apresentar o signo ideológico como acima do interesses de classe a fim de ocultar os interesses de classe, buscando o consenso em torno de seus interesses e esterilizando a fim de torná-lo monovalente. A realidade oculta no signo só se revel a em tempos de crise social e situação revolucionária.

Não se pode confundir o psicológico como individual e o social como ideológico, pois o processo de pensamento individual é por sua vez sócio-ideológico e portanto o psiquismo individual e igualmente social, tanto quanto a ideologia. O social está contraposto não ao indivíduo, mas sim ao natural, segundo Bakhtin (1981). A ideologia por sua vez carrega a marca da individualidade criadora, mesmo assim esta marca é tão social quanto os signos distintos das diversas manifestações ideológicas, ou seja, a individualidade é social.

O psiquismo individual unifica o organismo biológico, as condições vitais e sociais nas quais o indivíduos se encontra. Quanto mais ligado à determinações naturais, biológica, biográficas, mais distanciado esta de uma expressão ideológica bem definida. A medida que internaliza/apropria a ideologia ocorre uma certa autonomização com relação a este psiquismo individual, de acordo com Bakhtin (1981).

Sendo assim, os processos de representação estão indissoluvelmente ligados às relações sócias, que por sua vez são históricas. A análise das representações individuais e coletivas só podem ser entendidas e seu contexto histórico e a partir do qual podem fornecer pistas sobre sua dinâmica.

A Disputa do Campo Simbólico

Segundo Pesavento (1993), a identidade do Rio Grande do Sul é praticamente consensual no Estado. A construção deste imaginário social é um processo historicamente constituído, ou seja, um elaboração social de um conjunto de representações coletivas que dão sentido e significado às práticas sociais. Tal identidade é parte da realidade social. Temos no Rio Grande do Sul um realidade na qual a construção da identidade é um processo consolidado.

A identidade é parte da realidade social, é uma espécie de tradução do real, mas também incide sobre as práticas e altera a realidade. Assim, o imaginário social depende tanto das condições concretas quanto de seu próprio sistema de representação. Porém, tal representação não necessita obrigatoriamente correspondência com o real, podendo chegar ao extrema de uma representação contrária ao real. A representação pertence ao campo simbólico, que não se limita ao racional e objetivo, conforme Pesavento (1993).

A construção imaginária da sociedade comporta intenções, manipulações e artifícios, esse viés ideológico também é determinante na transfiguração do real e revela os interesses sociais envolvidos, de acordo com Pesavento (1993).

Abordando a questão do patrimônio cultural, Prats (1997) a forma que este é uma construção social, ou seja, não é algo natural, nem uma fenômeno social universal presente em todas as sociedade humanas ou presente em todos os períodos históricos. Como construção social, o patrimônio não pode ser entendido fora da intervenção de uma hegemonia social e cultural. Principalmente processos inconscientes e empessoais de legitimação.

O processo de assimilação encontra ressonância nos estudos sobre as funções psicológicas superiores de Vygotskii (2007), onde as operações com signos aparecem como o resultado de uma processo prolongado e complexo, sujeito a todas as leis básicas do desenvolvimento psicológico. Dentro de um processo geral de desenvolvimento, pode-se distinguir duas linhas qualitativamente diferentes de desenvolvimento, diferindo quanto à sua origem: processos elementares, que são de origem biológica e as funções psicológicas superiores, de origem cultural.

A internalização de formas culturais de comportamento envolve a reconstrução da atividade psicológica tendo como base as operações com signos. A internalização das atividades socialmente enraizadas e historicamente desenvolvidas constitui o aspecto característico da psicologia humana, segundo Vygotskii (2007).

Prats (1998) pontua também que esta invenção social, é mais precisamente uma invenção política (seja do estado ou dos diversos grupos na sociedade), ou seja, está em recorrente disputa. Por outro lado, é uma construção social a partir da legitimação assimilação destes discursos mais ou menos transformados.

A invenção da realidade não se restringe a elementos criados ou alterados, implica composições em que os elementos podem ter sido extraídos inalterados da realidade, mas cuja recombinação contextual permite a criação de uma outra realidade, com outro sentido. Descontextualização, recontextualização e composição de elementos são mais frequentes na invenção, na medida que são ratificadas pela veracidade dos elementos, facilitando assim o processo de legitimação, conforme Prats (1997).

Uma invenção adquire autoridade quando se legitima socialmente. A construção social é ao mesmo tempo produzida por um discurso inventado Prats (1998) e se refere sobre tudo a processos pessoais e conscientes de manipulação Prats (1997).

Para Prats (1998), as versões da identidade são ideológicas na medida que respondem a certas ideias e certos valores estabelecidos, normalmente subsidiárias de determinados interesses. A relação dialética entre realidade, valores e ideias produz as distintas versões da identidade.

Segundo Prats (1998), o romantismo, por exemplo, é inseparável do acenso da burguesia que resultou na revolução francesa, na revolução industrial e na livre empresa. Foi neste contexto que o romantismo impulsionou o nacionalismo, conferindo à empresa capitalista uma missão histórica e amenizando os conflitos entre as classes sociais. A positivação da pátria e a empresa capitalista como sua servidora e expressão máxima de seus valores essenciais estão ligados aos interesses, ideias da burguesia em acensão.

Não se pode explicar o romantismo como um movimento autônomo que impulsionou a ciência e o fim do dogmatismo religioso sem considerar o acenso da burguesia. Do ponto de vista formal o romantismo representa uma reação da irracionalidade contra a razão, uma reação do indivíduo contra o Estado, do liberalismo contra o despotismo ilustrado. Mas é também a ideologia da burguesia, pois a exaltação do indivíduo é a exaltação da empresa, de acordo com Prats (1997).

Dada a importância da identidade para a coesão social, as construções políticas precisam ser formalizadas e legitimadas socialmente e quanto maior a profundidade com que penetram o tecido social, maior sua eficiência. As ativações patrimoniais são estratégia políticas, no contexto dinâmico da histórica, resultantes da correlação entre interesses e valores (PRATS, 1998, p. 68).

A sociedade pode aderir ou opor-se em graus variados, de acordo com os diferentes indivíduos e grupos, mas esta representação é elaborada por indivíduos concretos a serviço de ideias, valores e interesses concretos, mesmo que se apresente em nome da coletividade para naturalizar estes processos. Na realidade quem coloca em atividade repertórios patrimoniais são primeiramente os poderes constituídos. Fundamentalmente o estado, seja através de governos de diferentes níveis (PRATS, 1998, p. 68).

As construções sociais e invenções cultural podem ser historicamente dinâmicas, mudando de acordo com critérios e interesses que determinam novas circunstância e objetivos, segundo Prats (1997).

Para perpetuar-se a invenção precisa converter-se em construção social, alcançando um determinado nível mínimo de consenso, de acordo com Prats (1997).

Para Prats (1997), assim como outros processos de legitimação simbólica das ideologias, a gênese do patrimônio em sua concepção contemporânea, consiste na na legitimação de referentes simbólicos a partir de fontes de autoridade associados à identidades consolidadas, adquirindo assim um caráter sacralizado e aparentemente imutável. Ao mesmo tempo que a legitimação do patrimônio cultural é baseada em fundamentos extraculturais, tal patrimônio se apresentado como universal.

A disputa do campo simbólico está sujeita aos interesses dos grupos sociais envolvidos em disputas e portanto passível de manipulações, entretanto, tais construções não possuem absoluta autonomia, pois dependem de condições reais para sua aceitação, precisam considerar as condições reais de forma mais abrangente e não exclusivamente os interesses unilaterais dos grupos.

Concluindo a Investigação

Conclui-se que a construção da identidade é essencialmente social, ou seja, a subjetividade é socializada. Assim, as próprias relações sociais só podem ser compreendidas no contexto histórica a que pertencem. A identidade gaúcha está envolvida no processo sócio-histórico de disputa entre os grupos que compõem a sociedade, portanto, sujeita à apropriação e ressignificação a qual todo campo da representação da realidade (o campo simbólico) está sujeito. A identidade gaúcha é uma apropriação, ou seja, ao mesmo tempo uma criação e uma conservação de elementos já existentes na realidade, neste caso uma apropriação a partir do surgimento da categoria do gaúcho como síntese de um processo histórico. O significado da identidade gaúcha atual não corresponde ao significado originário. Mais do que isso, é uma reconstrução que inverte o sentido original associado às camadas mais empobrecidas e marginalizadas da sociedade para uma acepção elitizada.

Autores:

Dario Luiz da Silva[1]José Luiz de Moura Filho[2]Cassiano Telles[3]

Referências

GIL, A.C. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 2002.

PADOIN, Maria Medianeira. Federalismo Gaúcho, Fronteira Platina, Direito e Revolução. Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1a edição, 2001.

PESAVENTO, Sandra Jatahy, A Invenção da Sociedade Gaúcha. Ensaios FEE. Pano Alegre, (14)2 3H3-396, 1993.

PRATS, Llorenç. Antropología e Patrimonio. Editorial Ariel, S.A. Barcelona, 1997.

PRATS, Llorenç. El concepto de patrimonio cultural. Universidad de Barcelona. Política y Sociedad, 27. 1998. Madrid (pp. 63-76).

VYGOTSKII, Lev Semenovich. A Formação Social da Mente: O Desenvolvimento do Processos Psicológicos Superiores. Org. Michael Cole, Vera John-Steiner, Sylvia Scribner e Ellen Souberman. Martins Fontes, 2007.


[1] Graduado em Economia e Mestrando em Patrimônio Cultural pela Universidade Federal de Santa Maria – UFSM.

[2] Graduado em Direito pela Universidade Federal de Santa Maria (1988), onde é Professor Adjunto, vinculado ao Departamento de Direito. Mestre em Direito pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS (2001) e Doutor em Desenvolvimento Regional pela Universidade de Santa Cruz do Sul (RS), tendo feito Estágio no Exterior com bolsa da CAPES, na UMINHO (Portugal), na área de Cooperação Transfronteiriça.

[3] Graduado em Educação Física Licenciatura, Especialista em Educação Fisica Escolar e Mestrando em Educação Física pela Universidade Federal de Santa Maria/UFSM.

Publicado em: http://www.gestaouniversitaria.com.br/artigos/o-surgimento-da-identidade-gaucha-no-contexto-do-platino-e-disputa-cultural

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