Introdução à crítica da razão chantagista


“Aí está o seu sórdido método: jogar com a fantasia alheia, fazer ao pombo crer que sempre poderá ter mais do que o farelo que ele lhe atira”.

A principal artimanha de todo chantagista é criar uma polarização com a qual ele pode ludibriar o seu interlocutor no sentido de obrigá-lo a ter que se posicionar no interior de uma falsa dicotomia, estruturada sobre a oposição “nós-eles”. O “eles” da oposição deve ser caprichosamente demonizado. É preciso que a pessoa sinta-se mal por acreditar se situar entre “eles”. Dessa forma, o chantagista pode enquadrar quem quer que seja. Com base nesse enquadramento, ele doutrina o próximo que julga estar “em disputa”. Ora, afinal de contas, as coisas todas, o mundo que se apresenta diante de nossos olhos, as diversas complexidades de que é constituído o real são claras e luminosamente simples: se não está conosco, está com o outro; se não é amigo, é inimigo; se não faz o “bem” – dentro da sua concepção tacanha e maníaca sobre o que é o “bem” -, faz o mal; e, com mil diabos, se não “ama”, então “odeia”… E assim sucessivamente.

Da perspectiva do chantagista o que importa é universalizar essas simplificações binárias que, no seu discurso, se possível, devem estar articuladas e centradas em características da pessoa (e não nos argumentos) que ele intenta subjugar. Ou seja, se a oposição “nós-eles” estivar relacionada com elementos de cunho pessoal, tanto mais fácil será a sua tarefa de catequese. Por conseguinte, é VOCÊ quem precisará ser atacado no curso da discussão. VOCÊ é isto e aquilo. Abre-se, aqui, o flanco para a retórica moralizadora e escandalizante, para a ironia traiçoeira, para a zombaria truculenta. VOCÊ, com suas peculiaridades reais, carnais, humanas, é uma entidade com mais pontos vulneráveis e imediatamente passíveis de serem atacados do que qualquer construto lógico-abstrato que acaso seja capaz de produzir. É mais prático e mais rápido, portanto, mirar e acertar VOCÊ.

O chantagista procura, de fato, constantemente levar a discussão para o plano pessoal, para a avaliação moral de alguma conduta do interlocutor que deseja submeter. Suas vias sensitivas se esforçam para descobrir no outro esses traços. Ele investiga friamente suas vítimas enquanto conversa com elas, fareja especificidades de sua personalidade a fim de descobrir nelas uma “fraqueza” que o senso comum acaso condene. O senso comum, nesse contexto, é o maior aliado do chantagista, pois lhe fornece as noções e os “conceitos” com os quais pode valorar o comportamento do outro e então combatê-lo, extraindo dessa crítica PESSOAL as conclusões que melhor se prestam à realização dos seus benefícios PESSOAIS.

O chantagista gosta, sobretudo, de jogar com os desejos alheios. Ele é um jogador, de fato, em última instância. Um dos seus ardis secretos é o de oferecer à sua presa algo que seja objeto de muita apreciação e querer. Oferece e retira, sem dar. Oferece de modo a mobilizar os desejos do outro, a fim de fazer com que ele se mova em sua direção, que lhe siga os passos e se lhe torne cativo. E quando a tensão entre o desejo e a sua não realização se torna insuportável, o chantagista cede, mas pouco. Concede algumas fatias, quase sempre migalhas, do objeto da satisfação do outro. Aí está o seu sórdido método: jogar com a fantasia alheia, fazer ao pombo crer que sempre poderá ter mais do que o farelo que ele lhe atira. E, sobretudo, fazer com sinta medo de perder os restos com os quais é brindado pelo seu vil parasita.

(E se o outro, não suportando o hiato entre o desejo e o seu objeto, romper os limites estabelecidos pelo chantagista, aí há que se preparar para a enxurrada de condenações verbais e de nomes feios que lhe serão atirados, como um balde de lixo, por sobre a cabeça. Com tal procedimento, verifica-se, o chantagista obtém muitas vantagens: causas na justiça, prestígio entre amigos, lucros exorbitantes e até, obviamente, eleições para cargos de destaque).

O que deve ser compreendido, de fato, é que, para o chantagista, a verdade não é o mais importante a se obter em um debate, mas sim a vantagem prática imediata que dele pode se extrair, qual seja: fama, reconhecimento, adulação, representatividade, dominação, votos – principalmente votos! – em tempos de eleição, etc. Para tanto, o chantagista se arma de suas tão adoradas “categorias”, seus amados índices econômicos e estatísticos, suas idolatradas manchetes de jornal e seus venerados artigos de revista. Na verdade, um arsenal de superficialidades que ele maneja habilmente em qualquer confronto onde acaso resolva empenhar sua lábia sorrateira.

No meio da sala de espelhos argumentativa que o chantagista monta em torno de sua potencial vítima, qualquer conceito se presta a qualquer papel, desde que se encaixe no objetivo de vencer o outro e obter de sua submissão um benefício predeterminado. Nesse sentido, o chantagista é o mestre das inversões. Num piscar de olhos, pode fazer com que o fato mais obscuro pareça óbvio, ao mesmo tempo em que é capaz de obscurecer as evidências mais salientes. O chantagista não é um tolo, um desvairado, que procede dessa maneira em razão de uma possível inconsciência ou despautério. Pelo contrário, ele sabe exatamente o que faz. Enclausura o adversário num bem delimitado conjunto de coordenadas intelectuais e não permite, em hipótese alguma, que se movimente para fora delas.

É preciso ter clareza de que não se combate, em definitivo, a chantagem usando-se os seus métodos peculiares. Não há, em definitivo, razão para se tornar a imagem refletida no espelho dessa criatura torpe. A melhor maneira de não se deixar cair na malandragem retórica do chantagista não é tentar argumentar nos seus termos, mas simplesmente virar-lhe as costas e deixar que fale sozinho. Não é de se descartar, aqui, um sonoro e bem modulado “Vá-para-a-puta-que-te-pariu”, em contextos em que a chantagem for acentuadamente ferina e em que ameace causar danos emocionais na subjetividade de quem caia nas suas garras. Um “Vai-tomar-no-olho-do-seu-cu” firme e empostado, com o dedo médio a balouçar-lhe frente à fuça, também é uma possibilidade cabível e que se deve considerar.

INTRODUÇÃO À CRÍTICA DA RAZÃO CHANTAGISTA, pelo viés do colaborador Selênio H. Strôncio*.

*Selênio é químico, físico, biólogo e terapeuta hermenêutico.

Introdução à crítica da razão chantagista

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