Metamorfoses da consciência de classe: o PT entre a negação e o consentimento


Metamorfoses da consciência de classe: o PT entre a negação e o consentimento (Mauro Iasi, escrito em 2004, publicado em 2006)

“Na totalidade deste movimento não devem nos estranhar o envelhecimento e a superação contínua das formas. Hoje assistimos ao processo da morte do Partido dos Trabalhadores (PT), ou pelo menos a acentuação marcada de sua agonia. Isto não implica que a forma que nasceu um dia e que hoje se encontra em franco processo de deterioração não possa ainda caminhar pelo mundo por muito tempo, uma vez que é comum este tipo de zumbi na história dos partidos políticos. Pode parecer contraditório que exatamente no momento em que o PT chega à Presidência da República por meio da eleição de Lula em 2002, venhamos falar de sua morte. Este Partido fundado em 1980 sempre buscou este desfecho como uma obsessão, ou como um ponto estratégico fundamental a partir do qual poderia instituir um conjunto de reformas estruturais que iniciariam a plena implantação de seu programa histórico. No entanto, aquilo que chega ao governo em 2002 não é mais o mesmo Partido fundado há mais de vinte anos. Mesmo ardorosos defensores da atual forma, e que não vão concordar com a tese da morte, preferindo identificar nos sinais de apodrecimento tons saudáveis de maturidade, são obrigados a confessar que o PT mudou muito. Mas no que consiste esta mudança?
A nosso ver, a experiência do PT é um excelente exemplo do movimento de constituição de uma classe contra a ordem do capital que acaba por se amoldar aos limites da ordem que queria superar. Aqui, como em outros campos da ação humana, “as aparências enganam aos que odeiam e aos que amam” (Cacaso), de modo que aqueles que nunca viram no PT uma manifestação de classe representando uma perspectiva anticapitalista, encontram na atual deformação as razões para uma análise retroativa do tipo “sempre foi assim”; enquanto os “cegos” pelo amor incondicional ficam maquiando os atuais descaminhos como se fossem originais genialidades táticas que em algum momento retomarão o rumo original surpreendendo a todos, inclusive a atônita classe trabalhadora. Um e outro se enganam.
Uma análise mais objetiva deve demonstrar que este Partido não foi desde sempre uma versão tupiniquim da socialdemocracia, nem é o altar da pureza da classe que reinventa a política a partir de seu agir freiriano, criando experiências sem paralelo na história da humanidade. Infelizmente, a coisa é mais prosaica: o PT é a reencenação de uma fábula já conhecida, e trágica, que de tanto ser reprisada adquire aquela tonalidade cômica sem perder a seriedade dramática”.

http://www.facebook.com/mauro.iasi

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