O fantasma da Guerra Fria – ou como Igor Fuser poderia ser colunista do The Wall Street Journal


O professor Igor Fuser, intelectual de esquerda brasileiro, escreveu um texto na Revista Forum chamado “O Fantasma de Stálin”. O escrito é uma peça de propaganda bem ao estilo e gosto da Guerra Fria com todos os seus estereótipos e simplificações grosserias. A Revista Forum é uma publicação de esquerda, mas o texto do Fuser poderia figurar perfeitamente nas páginas do The Wall Street Journal ou mesmo da Revista Veja. Na sua intenção de criticar o stalinismo, o professor Fuser repete apenas os dogmas batidos da Guerra Fria criados pela ideologia dominante. Sem criatividade e brilhantismo no texto, melhor seria abrir um livro de Hannah Arendt ou assistir o filme da BBC sobre Stálin.

Antes que alguém venha com a crítica fácil de me acusar de stalinista, aviso que não tenho qualquer simpatia com as ideias do camarada Stálin. Minha formação inicial é trotskista e hoje me considero um leninista com forte influência de Antônio Gramsci, Lukács, Mészáros e Domenico Losurdo. Não só sou a favor, como acho necessária uma profunda e séria crítica do governo e das ideias de Stálin. Sem avançar muito nesse texto, diria que o temos que criticar no stalinismo é: a concepção tecnocrática na construção do socialismo dando pouca atenção a formação do “homem novo” (conferir o texto de Che Guevara “o socialismo e o homem em Cuba”) e considerando que a transição socialista consiste fundamentalmente em nacionalizar os meios de produção, crescer as forças produtivas e criar uma distribuição mais ou menos igualitária dos bens produzidos (dando pouca atenção para a transformação das relações de produção, dos processos de trabalho e para a autogestão operária na produção e no consumo) e uma perspectiva instrumental do exercício político do proletariado, que acabou reduzindo a democracia operária a um processo formal e burocratizado (do tipo: o partido dos operários está no poder, logo, os operários estão no poder…). É lógico, porém, que temos vários outros elementos no stalinismo para serem criticados, mas considero esses os essenciais.

Contudo, reduzir o governo de Stálin a uma história criminal, uma séria interminável de atrocidades, é apenas a propaganda da Guerra Fria em ação. A história do movimento comunista no século XX, e do governo de Stálin em particular, configura-se como uma dialética entre emancipação e regressão ditada por condições objetivas e escolhas políticas dos dirigentes revolucionários. Foi no Governo de Stalin, por exemplo, que a URSS adotou uma ampla política cultural e educacional de combate ao racismo, antissemitismo e nacionalismo xenofóbico, criminalizou o racismo (primeiro país do mundo), deu total apoio (financeiro, diplomático, ideológico, militar) aos movimentos de combate ao colonialismo e ao racismo, derrotou o nazifascismo (uma radicalização do colonialismo-imperialista de longa tradição na Europa) e fez uma propaganda mundial contra a legitimidade “científica” do racismo [1].

Oras, é lógico, porém, que os inimigos do comunismo sob a desculpa de criticar o stalinismo procuram esconder essa dialética entre emancipação e regressão e jogar luzes sobre o segundo. O Gulag Soviético, por exemplo, é envolvido numa névoa de mentiras, comparado ao campo de concentração nazista, quando, na verdade, em muitos aspectos é mais “humano” que os atuais presídios brasileiros [2]. Todas as medidas na época stalinista são reduzidas à personalidade de Stálin, desconsiderando condições concretas e objetivas, como se o soviético fosse um deus absoluto. Além disso, é claro, ganha o prêmio de maior apolegeta da ideologia dominante quem traçar um perfil mais louco, histérico e paranóico. Enquanto isso, porém, sujeitos como Bush nunca terão o mesmo perfil traçado.

Depois de passar vários parágrafos do seu texto reproduzindo a linha “Stalin louco, psicótico e maior assassino do mundo”, Fuser falar das difíceis condições da época, mas diz que isso não é desculpa. Percebam: nas mãos do idealismo condições objetivas são “desculpas”. No final do texto, inclusive, Fuser solta essa frase sobre o governo de Stalin “tirania mais completa”. Vejamos o que uma camarada negra dos estados unidos, em viagem à URSS de Stálin diz:

Uma negra, delegada no Congresso Internacional das mulheres contra a guerra e o fascismo, que se realiza em Paris em 1934, fica extraordinariamente impressionada com as relações de igualdade e fraternidade, apesar das diferenças de línguas e de raça, que se instauram entre os participantes dessa iniciativa promovida pelos comunistas: ‘Era o paraíso na terra’. Aqueles que chegam a Moscou – observa um historiador estadunidense contemporâneo – ‘experimentam um sentido de liberdade inaudito no sul’. Um negro se apaixona por uma branca soviética e se casam, mesmo se depois, ao voltar à Pátria, não pode levá-la consigo, sabendo o destino que o sul aguarda aos que se mancham com a culpa da miscegenation e do abastardamento racional (Losurdo, 2010, p. 280-281).

Outro camarada, Harry Haywood, líder negro do Partido Comunista dos EUA, sobre sua estadia na URSS, no fim dos anos 30, diz:

Na União Soviética, resquícios de preconceitos nacionais e raciais vindos da antiga sociedade eram atacados através da educação e do sistema legal. Era crime dar ou receber privilégios diretos ou indiretos com base em raça ou nacionalidade, qualquer manifestação de superioridade nacional ou racial era punida por lei, sendo considerada uma ofensa política grave, um crime social.

Durante toda minha estadia na União Soviética, encontrei apenas um incidente de hostilidade racial. Foi em um bonde em Moscou. Vários de nós, estudantes negros americanos, estávamos no vagão a caminho de passar a noite com nosso amigo, McCloud. Era logo após a hora do rush, e o vagão estava cheio até a metade com passageiros russos.

Como sempre, as pessoas demonstravam uma curiosidade muito amigável. Até que em um momento, em uma parada, um russo bêbado entrou no vagão. Ao nos ver, ele sussurrou (alto o bastante para que todos o passageiros ouvissem) algo sobre “os diabos pretos em seu país”.

Um grupo de cidadãos soviéticos ultrajados então o agarraram, disseram para o condutor parar o bonde. Era uma ordem de prisão popular, a primeira que eu testemunhava em minha vida. Um jovem disse, “como você tem a coragem de insultar pessoas que são convidadas em nosso país?”[3]

Pois bem, fica claro como é conveniente reduzir tudo isso a uma história criminal de absoluto terror. Insistimos que não estamos negando os errados do stalinismo ou a falta do desenvolvimento adequado da democracia operária e o autoritarismo, mas não avançamos um centímetro reproduzindo a ideologia da Guerra Fria, desconsiderando o quadro histórico concreto no período, as relações de poder institucionais complexas e a ideologia do grupo dirigente. Fuser, ao que parece, para garantir ser parte da “Esquerda bem pensante”, àquela que tira sua legitimidade na ocupação pela “esquerda” da ideologia dominante, desconsidera tudo isso e protesta contra uma homenagem ao líder soviético no dia da derrota dos nazistas. Quem sabe um dia ele proteste contra os símbolos diários dos horrores do colonialismo. Quem sabe um dia ele descubra que a Guerra Fria acabou….

Nota

[1] – http://www.diarioliberdade.org/mundo/antifascismo-e-anti-racismo/52622-ser-negro-na-uni%C3%A3o-sovi%C3%A9tica-e-nos-estados-unidos-uma-compara%C3%A7%C3%A3o-hist%C3%B3rica.html

[2] – http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2015/02/gulagsovietico-uma-analise-historica.html

[3] – A Black Communist in the Freedom Struggle: The Life of Harry Haywood. P. 135.

Fonte: http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2015/06/ofantasma-da-guerra-fria-ou-como-igor.html

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s