Eu financio essa porra?


O debate sobre a questão das drogas é sem dúvida um dos mais polêmicos entre a esquerda. Um ponto central nesse debate é o papel que cumpre a “guerra às drogas” e o “tráfico de drogas” no extermínio da população negra, na violência estatal e no encarceramento em massa que esmaga a classe trabalhadora brasileira. Deparei-me com um texto que se pretende crítico sobre o tema, de título “O Tráfico de Drogas arruina a vida das periféricas e não ignore que você financia isso” [1], publicado no À Margem do Feminismo. Pretendo dialogar criticamente com esse texto e demonstrar as concepções erradas defendidas nele.

O texto pretender destruir essa “esquerda classe média” que pretende “falar pela favela”. Nos argumentos, o texto se desenrola assim: a “principal causa de genocídio negro no Brasil é pelo tráfico”, que “só existe porque é proibida a venda de certas drogas”. “O tráfico” só faz aumentar “a marginalização da periferia. Aliás, “podemos dizer que o favelismo é um processo agravado pelo tráfico”. Mas não só isso, “Serviços sociais deixam de alcançar as favelas por causa do poder “paralelo” do tráfico. O poder de polícia deixa de chegar nas favelas e com isso agravam-se violência contra crianças e mulheres pois os homens favelados”. E piora ainda mais “a violência dos bandidos também afeta a população”. Mas por que isso? O texto responde: “Uma farsa para manter a classe média crédula de que o Estado se importa com o consumo de drogas e de que o dinheiro do povo está sendo empregado em sua proteção”. Mas a classe média é mais culpada ainda, afinal, “Quem engole essa? A classe média alienada, claro, vulgo coxinha”. Depois dessas condenações, é necessário “revisar a sua parcela de contribuição com a violência que é o favelismo em si”.  Afinal “O dinheiro que passa pela mão do traficado e vai parar enfim na mão daquele deputado ou empresário que mora num condomínio luxuoso próximo ao seu, veio do seu bolso, e a classe explorada somos nós” [gravem isso, o dinheiro VEIO DO SEU BOLSO].  E o texto diz mais: “a negra que deve pagar a conta do seu vício [vício é uma palavra bem forte né?] e sustentar seu conforto de não ser preso e nem marginalizado por se favorecer do tráfico”. E para terminar com chave de ouro, descobrimos que a encarnação do mal, o traficante, é  “quem lucra e quem consome”.

Depois de todas as citações poderíamos resumir os argumentos do texto mais ou menos assim: a classe média financia o tráfico e por consumir também é traficante, e é a principal responsável pela violência estatal nas favelas provocada pela “guerra às drogas”. Esse texto me lembrou uma cena do filme Tropa de Elite I. Quando o assassino Capitão Nascimento entra numa favela, mata um rapaz pobre e negro, pega um universitário de classe média que estava na favela para comprar drogas e começa a agredi-lo dizendo “é você quem financia essa merda”. È lógico que o texto apresenta a mesma lógica, mas por um viés de “esquerda”. E é justamente por isso que ele deve ser criticado.
O texto mostra ser guiado por uma perspectiva liberal que vê a sociedade como um ajuntado de indivíduos e a realidade como a soma desses atos individuais. A partir disso a pessoa que escreveu o texto chama você “que financia o tráfico” para sua responsabilidade individual. Isso pode parecer crítico, mas basta um exemplo para mostrar que não é. Imagine um militante anticapitalista fazer uma campanha contra você que “financia o capitalismo”, afinal, sem sua compra não existiria venda e nem lucro… e nem capitalismo. Essa argumentação colocaria a culpa pela exploração no consumidor (que ser for da classe trabalhadora também é explorado) e não nas relações de produção capitalistas, nas classes burguesas.

Oras, então a culpa é só do “traficante”? Aqui entramos em outro erro do texto. A pessoa que escreveu legitima todas as categorias ideológicas criadas pela ideologia dominante na “Guerra às drogas”. Usa categorias como “traficante” (o vilão da história), “bandido”, “favela como essencialmente violenta”, etc. sem qualquer criticidade. Sem perceber o que seu texto faz é afirmar que o vilão da história mesmo, o “traficante”, tá na favela e que a classe média hipócrita tá apenas “ajudando ele a existir”. Tentar ser critico usando os conceitos da ideologia dominante é um contra-senso.

A ideologia dominante sempre criminalizou as estratégias alternativas de sobrevivência das classes trabalhadoras excluídas do mercado de trabalho de forma perene ou esporádica. “Bandidos”, “prostitutas”, “traficantes”, “jogadores”, “mendigos”, “vagabundos” sempre foram os alvos preferidos do poder punitivo no capitalismo [2]. A pessoas que escreveu o texto deveria problematizar a criminalização seletiva que é intrínseca a sociedade capitalista. Para além do clássico “o álcool é liberado, mas a maconha não”, temos que deixar claro: a condição de “traficante” é algo construído pelo poder político, ideológico e institucional dominante e esse poder [3], que é burguês, cria a figura do traficante nas favelas e a partir disso legitima uma série de ações repressivas e de extermínio funcionais ao capitalismo (que precisa controlar o seu Exército Industrial de Reserva e a classe trabalhadora incluída no mercado formal).

Nesse momento já podemos avançar em como é simplista a visão de que a “classe média” financia o tráfico. O que chamamos de tráfico de drogas na verdade é uma combinação complexa de redes sociais controladas e moldas pelo poder político burguês. Essa rede abarca desde pessoas que precisam usar estratégias alternativas de sobrevivência (como o comércio ilegal de drogas), até a criminalização dessa estratégia, a busca constante de legitimidade ideológica dessa criminalização, os efeitos disso nos aparelhos regressivos do estado, o impacto econômico desse comercio ilegal e de sua repressão (indústria da segurança privada) e o papel geopolítico que a “guerra às drogas” tem na dinâmica mundial do imperialismo. Reduzir tudo isso ao: “você compra um baseado e financia o tráfico” é algo cômodo, mas inútil. Senão vejamos.

A política atual de “Guerra às drogas” teve lançamento nos Estados Unidos, no Governo Nixon. Como o gueto negro e a política de segregação racial Jim Crow estavam ruindo, era necessário estabelecer um novo padrão de dominação para controlar os segmentos negros do proletariado. A estratégia encontrada foi criar uma série de discursos ideológicos e prática que reforçassem a segregação espacial, simbólica e institucional e garantisse um aprofundamento da repressão e controle sem que isso parecesse fundamentado numa política deliberadamente racista. A “Guerra às drogas” caiu como uma luva. Foi tão eficiente que os EUA hoje tem a maior população carcerária do mundo com mais de 2 milhões de pessoas, a imensa maioria dos presos são negros  e o país tem mais negros presos hoje que na época da escravidão [4].

Mas os Estados Unidos foram mais longe. Com o processo de estabilização das burguesias internas na América Latina, as ditaduras militares deixaram de ser necessárias. Era chegado o momento de passar para um regime de “normalidade constitucional”, mas como fazer isso mantendo todo o aparelho repressivo do Estado, fundamental na repressão das classes trabalhadora em situação perene de miséria e pobreza? Simples, vamos exportar a estratégia da “Guerra às drogas”. O inimigo interno antes era o “comunista”, agora é o “traficante”. Mas não para por aí. O imperialismo também descobriu que a “Guerra às drogas” é excelente para conseguir o consenso social necessário na criação de bases militares no Cone Sul. A Colômbia têm nove bases militares dos EUA que foram criadas para combater o “narcotráfico” [5].

Mas segundo o texto é a classe média que cria o tráfico e legitima a violência. Primeiro, falar da classe média de forma homogênea, como se fosse um ente que pensasse e agisse todo igual é uma besteira. As camadas médias são divididas em frações – como toda classe social, inclusive. Alguns são conservadoras e servem sim de base de massa para o consenso reacionário em torno do extermínio nas favelas. Mas servir de base de massas é diferente de ter o poder. Camadas médias não têm poder e nunca terão no capitalismo. O poder político, ideológico e econômico é das classes burguesas. As classes que controlam o Estado, a produção de riquezas e cria a ideologia dominante. Camadas médias têm, é claro, certos privilégios sociais por causa de sua renda elevada (comparada ao conjunto dos trabalhadores), seu capital cultural e a ocupação de posições intermediárias nas estruturas de poder. Mas considerá-la classe dominante é tomar a aparência pela essência.

Aliás, o Brasil depois dos governos do PT e das palestras desastrosas de Marilena Chauí esqueceu o que é burguesia e decidiu que o maior inimigo do mundo é a classe “média proto-fascista”. Bem, sabemos que os ideólogos do PT fortaleceram esse discurso ideológico para colocar nas sombras seu papel como operador político da burguesia. Aliás, cabe aqui um exemplo ilustrativo. O Banco HSBC foi pego em vários esquemas de lavagem de dinheiro proveniente do comércio mundial ilegal de drogas. Os monopólios de mídia no mundo, e em especial no Brasil, procuraram divulgar o caso o mínimo possível. Ninguém do Banco será preso e tudo que aconteceu não passou de uma multa que não cobre nem os lucros que o Banco teve com o comércio ilegal [6]. Tropa de Elite I e o II não falaram do HSBC e dos outros bancos que ganham bilhões com o comercio ilegal de drogas. Nem dos monopólios mundiais que ganham milhões com o comércio ilegal de armas. Nem da indústria da segurança privada.  Muito menos o papel de organismos como OTAN, FMI e Banco Mundial. Nada disso. É muito mais interessante jogar a culpa na “classe média” ou nos “políticos corruptos”.

Nesse momento já estamos habilitados para responder a pergunta que dá título ao texto. Não, “eu não financio essa porra”. Muito menos você. Somos no máximo partes menores de uma engrenagem que está enraizada na estrutura econômica e no poder político da sociedade burguesa. E muito mais produtivo do que chamar a “responsabilidade individual pelo tráfico” é compreender a função estratégica que a pauta antiproibicionista tem na luta de classes e agir para a transformação revolucionária da sociedade.

Notas.

[1] – https://amargemdofeminismo.wordpress.com/2014/11/14/o-trafico-de-drogas-arruina-a-vida-das-perifericas-e-nao-ignore-que-voce-financia-isso/

[2] – https://www.youtube.com/watch?v=FRgAs5sR7Gw

[3] – https://www.youtube.com/watch?v=uLpx_YElD5E

[4] – http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/30858/sem+tempo+para+sonhar+eua+tem+mais+negros+na+prisao+hoje+do+que+escravos+no+seculo+xix.shtml

[5] – https://www.youtube.com/watch?v=6X1aNcOAniE

[6] – http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-assombroso-silencio-no-brasil-em-torno-do-escandalo-hsbc/

Fonte: http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2015/06/eufinancio-essa-porra-o-debate-sobre.html

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