Meu tio Gelson


Conheci ele com 6 anos de idade. Estávamos sentados em volta da mesa da sala da nossa casa, em Rondinha, na época. Era meu primeiro ano na escola e ele me fez uma pergunta sobre ciências. Depois da minha resposta, ele me retrucou com um elogio… Elogio tem influência (positiva) imensa sobre uma criança…

Quando alguém soltava um cometário simplista, ele comentava de bate-pronto: “se vc souber o que é o mundo, vc fica loucx!”

Ele tinha razão. Sempre guardei esse conselho…

Infelizmente nunca mais o vi. Mas distância não apagou a memória…

Abaixo um texto sobre ele, publicado no blog <giseleneuls.wordpress.com>:


De Mato Grosso para os viveiros do céu

Detesto usar este espaço para falar de coisas tristes, mas tem horas que é inevitável. Recebi a triste notícia hoje de que um dos amigos que fiz lá no Assentamento Entre Rios, onde fiz a pesquisa pra minha dissertação, faleceu hoje. Gelson Jair Pizzi, 59 anos, mais conhecido por lá como Cassetada, era gaúcho, natural de Sarandi, companhia para muitos mates lá no assentamento.

Um dos pioneiros no assentamento, chegou lá em 1999, quando os lotes ainda nem tinham sido divididos direito. Passou por tudo que se pode passar num assentamento como aquele, longe de tudo. Os conflitos, a malária, a dengue, a febra amarela, a energia elétrica que levou 10 anos pra chegar, o telefone público que levou 11, os incêndios sucessivos, o embargo do Ibama que bloqueou pronafs, a assistência técnica que nunca chegou…

Teatino, como tantos dos assentados que conheci lá, viveu em viveu em São Borja (RS), depois Guarapuava (PR), de lá foi pra Lucas do Rio Verde (MT) ainda nos anos 1980, e então pro assentamento. Passava mais tempo na sede da Aproger do que na sua própria casa. Era viveirista e cuidava de cada mudinha com um amor tal que tudo nas mãos dele crescia bonito. Esperto, quando tinha dúvidas, pedia pros guris procurarem pra ele na internet, no escritório da associação.

Na minha dissertação, eu considerei Seu Gelson como informante-especialista, de tanto que ele era citado pelos outros assentados como fonte de consulta para informações técnicas. Era o raizeiro e o mais próximo de um técnico agrícola que o pessoal tinha para ajudar com as agroflorestas, tudo com seus saberes de experiência feitos. No trecho que caracterizo ele na disser, eu pus assim: “Seu Gelson é um daqueles sujeitos que de tanto mexer na terra e andar sobre ela, acabou seu amigo íntimo. Todo seu conhecimento foi adquirido ao longo de anos de observação e experimentação”.

Ele conhecia todo mundo lá no Entre Rios e sabia como eram os sítios de quase todos e frequentemente separava mudas e sementes de acordo com a necessidade, gosto ou problemas de cada um. Cada muda, semente, galhinho, ramo de chá que entregava vinha acompanhada de instruções detalhadas, como plantar, como cuidar da mudinha, como fazer e tomar o chá.

Sempre me tratou como uma princesa por lá, eu eu brincada com ele dizendo que ia voltar pra casa baldosa daquele jeito. E lá vinha ele com um pão quentinho recém assado no forno de barro ou com uma manga-pequi que ele tinha plantado fazia uns dois anos e recém tinha começado a dar as primeiras frutas – “mas me guarda a semente!”.

Atento, como eu disse, aos gostos de quem andava perto dele, sempre me trazia frutas. Melancia, manga, graviola, ata… o que ele tivesse de maduro no sítio ou ali na Aproger, me trazia nas manhãs de sábado em que eu passava lá durante o período da pesquisa. Sempre acompanhado de muita prosa. Gostava de contar histórias, Seu Gelson. Ir na Aproger e não encontrar ele lambendo o viveiro vai ser uma triste, como foi triste ir lá e não encontrar mais o Marçal.

Segundo me contaram, Seu Gelson foi picado por uma jararaca quando coletava sementes com um companheiro. A cobra não foi morta e levada junto ao posto de saúde, então parece que havia alguma dúvida sobre qual era. Seu Gelson não foi atendido com a rapidez necessária, demorou para que lhe dessem o soro certo – testaram três até achar – e ele acabou na UTI em Sorriso.

Foi vítima da falta de tudo que tem naquelas bandas: de recursos médicos, de estrada, de profissionais competentes, de ser considerado gente importante que merece cuidado e atenção. Faleceu nesta tarde e, lamentavelmente, eu não poderei ir no velório, que será na Agrovila do assentamento, longe demais pra eu conseguir chegar a tempo. Fica aqui minha homenagem a mais este agricultor que lutou por terra, dignidade, cidadania e vida decente – e a quem o Estado negou respeito e direitos até o fim.

https://giseleneuls.wordpress.com/2012/11/25/de-mato-grosso-para-os-viveiros-do-ceu/

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