Quando o Mano veio morar conosco…


Quando o Mano veio morar conosco, no início da década de noventa, eu era ainda adolescente, meu irmão era criança e minha irmã, já casada, morava perto. Não demorou para ele passar da posição de tio para a de irmão e o apelido “Mano” veio a calhar.

“Guerra” de bergamotas (por coincidência as bergamoteiras estão carregadas de frutas nesta época do ano…); futebol em campo improvisado na grama que servia de pastagem para o gado, com bola quase sempre murcha (faltava dinheiro para tudo, uma bola murcha era um “luxo”!); muitas gargalhadas. Vivemos juntos aquela felicidade gratuita que transforma tudo em diversão. Diversão devidamente comentada em seu dialeto pessoal, ou melhor, seu idioleto. Portador da Síndrome de Down, pronunciava as palavras a seu modo: “íma” (Dalmir), “blí” (Dario), “ní” (Geni), “úa” (Lucia), “nenén” (Adriana) “mi non” (não fui eu!)… Modo de falar que aprendemos e incorporamos de tal forma que a comunicação fluía como se a trissomia do cromossomo 21 não existisse. Mesmo quando ele se tornou menos falante, a expressão facial era suficiente!

O Pizzi (ou “íiizi”) como também gostava de ser chamado, com sua rotina estável, seus horários, seu garfo marcado, sua cadeira milimetricamente colocada no lugar de sempre, personalidade sui generis, não cansava de nos surpreender, depois de uma vida toda sendo colorado “roxo” passou a torcer para o Grêmio. Especula-se que a Adriana (sobrinha-neta) tenha conseguido essa façanha…

Eu havia planejado mentalmente a brincadeira que faria com ele durante o período de recuperação e já sabia qual seria a reação: um esboço de incredulidade seguido de um sorriso de quem descobre a graça da situação.

Completaria 52 anos em novembro, saudável e com menos cabelos brancos que eu, parecia eterno naquela sua existência sossegada, quase sempre o centro das atenções nas conversas familiares ao pé do fogão à lenha, saiu à francesa neste final de maio…

Agora, a cadeira ao lado da porta está vazia, saudosa de seu ilustre ocupante. Mas na minha memória está tudo como era antes, inclusive aquele olhar de quem estava sempre pronto para dar um abraço afetuoso…

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