As armadilhas da “representatividade”


Existe no vocabulário político atual um peso muito grande na noção de representatividade. Em grandes linhas, a ideia é que as minorias – negros, mulheres, LGBT’s etc. – não ocupam os “espaços de poder” e estão sempre nas posições mais subalternas da sociedade (como no “mercado de trabalho”) e tem “sua” cultura, “identidade” e traços fenotípicos inferiorizados pelo padrão simbólico hegemônico. Para combater a opressão é necessário então “ocupar” os “espaços de poder” e as posições de destaque na sociedade – no “mercado de trabalho”, na indústria cultural, na ciência etc. Dentre outras coisas, essa noção parte do pressuposto que os “espaços de poder”, isto é, os diversos aparelhos do Estado, são neutros, funcionamento de acordo com a ideologia dos ocupantes dos postos de comando. O objetivo dessas curtas palavras não é debater o quanto a noção de representatividade é útil, mas através do exemplo dos EUA mostrar que existe uma armadilha embutida nessa noção: os “espaços de poder” podem ficar mais “representativos” ao mesmo tempo em que a opressão se intensifica.

A contrarrevolução neoliberal nos EUA tratou de atacar em duas grandes frentes: destruir os direitos sociais e econômicos e aumentar em ritmo acelerado a exploração da classe trabalhadora e, consequentemente, explodir os índices de desigualdades social; junto a esse movimento realizou-se um impressionante transformação do aparato do Estado – reforçando o braço penal e repressivo ao ponto dos EUA ter mais de 2 milhões de presos – e repressão dos movimentos sociais e sindicatos (a consolidação do neoliberalismo veio junto com a destruição do sindicalismo, do movimento negro radical e do movimento estudantil). Do final dos anos 80 até hoje o nível de direitos socais e democracia nos EUA só vêm sofrendo retrações. É uma sociedade com cada vez mais miséria e pobreza, desigualdade social, violência, repressão, xenofonia etc.

Essa “onda regressiva” ganhou novos contornos com o Governo de G. Bush. Com a desculpa da “guerra ao terror” foi aprovado o “Patriot Act”, um conjunto de leis que reforça o poder de repressão e controle do Estado, suspende direitos constitucionais e liberdades democráticas básicas – com o Patriot Act é totalmente legal manter uma pessoa presa sem acusação formal ou julgamento e a tortura foi universalizada, institucionalizada e legalizada – dentre outras barbaridades.

A eleição de Obama – o primeiro negro na presidência – não estancou esse processo regressivo. Ao contrário. A política econômica continua atrelada aos interesses de Wall Street, a política de repressão foi mantida e ampliada (hoje os EUA tem mais negros presos que negros escravos no século XIX), a política externa de Obama é igual ou até mais agressiva que a de Bush. Enfim, para os explorados e oprimidos tudo piorou do ponto de vista econômico, social e político. Contudo, temos o primeiro negro na presidência, a união civil de LGBT’s aprovada, uma mulher irá disputar agora a presidência etc. O número de negros e mulheres na política dos EUA também aumentou na última década. Mas isso se reverteu em qualquer melhora das condições de vida dos setores oprimidos? A resposta, infelizmente, é não.

Pior, uma sociedade cada vez mais desigualdade, violenta e repressiva parece está em marcha para a tolerância e fortalecimento das “minorias”: a eleição do presidente negro e agora a possibilidade da presidente mulher seriam as “provas”. O grande paradoxo é que o aparente avanço esconde na verdade uma longa onda de retrocessos sem tamanho.

As armadilhas da “representatividade”

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