Entrevista com Richard Stallman


No dia 28 de Abril de 2016 o escritor Paul Gillin fez a seguinte entrevista com Richard Stallman. A tradução livre é minha (anahuac.eu).

Entrevistar Richard Stallman é um desafio.

As anotações para a entrevista tem uma meia dúzia de advertências e pedidos, a maioria relacionadas ao cuidado do Stallman em não ser identificado como um ativista do Open Source. Há também uma longa lista de artigos e FAQ’s que ele sugere a leitura no site da GNU.org que descrevem cuidadosamente a diferença entre Software Livre e qualquer outra definição. E Stallman não hesita em corrigir os entrevistadores no que diz respeito às terminologias. Se não for completamente livre ele não apoia.

A diferença é, de certa forma irônica, porque muito do trabalho realizado por Stallman nos últimos 30 e poucos anos, contribuiu muito para o crescimento do Open Source como o modelo de licença preferido das novas empresas de software. Em 1982 ele lançou o Projeto GNU, esforço de desenvolvimento de software colaborativo com o objetivo de criar toda uma biblioteca de softwares livres. O projeto produziu o sistema operacional GNU e milhares de programas, incluindo o GNU Compiler Collection (GCC) uma tecnologia fundamental que tem papel de destaque no crescimento do software livre. A prestigiada Association for Computing Machinery (ACM) anunciou ontem que Stallman recebeu o prêmio Software System Award da organização, pelo desenvolvimento do GCC.

Stallman é descrito frequentemente como defensor do código aberto, chegam até a designar-lhe sua paternidade. Essa é uma descrição que ele nega com veemência. “Quero que as pessoas me associem ao Software Livre, não ao Código Aberto”, disse. “Eu não quero me pronunciar sobre o Open Source, exceto para deixar claro que ele é diferente do Software Livre”.

Ou, ainda, dizer que o GNU.org soma-se ao Open Source: “As iniciativas do Movimento do Software Livre são pela sua liberdade computacional como uma questão de justiça. O não movimento do código aberto não faz campanha de nada, para nada.” Resumindo, Software Livre é tanto uma filosofia quanto um modelo de licenciamento. “Software Livre não é software gratuito até porque o preço não é a questão”, diz Stallman. “Liberdade é o que importa.”

Para que o software seja realmente livre, “os usuários tem que ter o controle do programa para executá-lo como quiserem e estudar o código fonte do programa e poder modificá-lo”, diz Stallman. “Isso se baseia em duas liberdades essenciais: fazer cópias exatas e poder copiar e distribuir suas versões modificadas como quiser.”

Qualquer coisa a menos “subjulga o usuário”,diz Stallman, e isso viola a liberdade como um todo.

SiliconANGLE entrevistou Stallman no seu escritório em Boston.

Levando em consideração a sua aversão em ser associado ao open source, o fato é que as barreiras para se ter acesso a softwares sofisticados estão caindo. Nós estamos progredindo em direção aos seus objetivos?

Nós estamos falando sobre ter acesso a software livre e não subjugante? Se o software coloca o usuário sob o comando do dono do programa, então eu não vejo isso como progresso.  Nós temos feito progresso em algumas áreas e em outras temos retrocedido. Agora pode-se comprar um computador exclusivamente com softwares livres nele. Ele tem uma BIOS livre, drivers livres, aplicativos livres e até jogos livres. A Free Software Foundation tem quase 4000 membros atualmente, o que foi um crescimento de algumas centenas no decorrer do último ano. [Por outro lado], dispositivos móveis da Apple e Microsoft são completamente fechados. Há uma versão livre do Android chamada Replicant, mas a interface para seus periféricos é secreta. Novos tipos de aceleradores gráficos de PC se comunicam pela rede mesmo quando o computador está desligado.

Então você está dizendo que ampliar o acesso não é um progresso?

Facilitar que as pessoas usem tecnologias que as controle e espie não é um passo adiante para a sociedade. Eu discordo da ideia de fazer da inclusão digital um objetivo se o preço a pagar for o controle de acesso.

A Internet tem nos tornado mais livres?

Os sites na Internet criaram novas formas de supressão, infelizmente. Eu não quero me identificar para acessar a Internet, portanto há coisas que eu não posso fazer. Eu não posso ver as coisas qua as pessoas postam no Facebook porque eu não concordo com os seus termos de prestação de serviços. Se um serviço é executado por outra pessoa, você não tem sequer a possibilidade de controlá-lo. Snowden revelou sob quanta vigilância nos encontramos. Ela é muito maior do que a que existia na União Soviética. Se o governo souber, quem vai onde e quem fala com quem, será o fim da democracia. Precisamos de denunciantes para revelar esse tipo de coisa para que possamos impedí-las, mas o governo chama essas pessoas de criminosas.

Dado o momento atual do open source, não seria mais produtivo se você colaborasse com os defensores do open source em vez de salientar suas diferenças?

O não-movimento do open source foi iniciado em 1998 como uma reação ao nosso movimento. Eles gostam do Software Livre, mas eles discordam dos nossos motivos para defendê-lo. Na prática, open source e Software Livre são basicamente equivalentes, mas as pessoas do open source rejeitam nossa filosofia. Eles acham certo se alguém quiser escrever extensões privativas ao seu software. Então nós temos que nos diferenciar deles.

Seus objetivos são realistas?

É muito fácil olhar para uma meta de longo prazo e dizer que ela é impossível. Mas nunca se vence sem tentar. Conquistar o mundo não é minha definição de sucesso. O sistema operacional GNU Linux é usar por um, talvez dois porcento dos usuários de computador. Isso é um sucesso ou não? Considerando que começamos de basicamente zero, eu diria que temos tido um sucesso estrondoso comparado com nosso ponto de partida.

Desenvolvedores de Software Livre tem se desdobrado para encontrar modelos de negócio viáveis. Remover o lucro não inibe a inovação?

Você está misturando dois problemas diferentes. O lucro motiva as pessoas a escrever software que ninguém escreveria porque este subjuga os usuários. E isso é realmente bom? Suponha que conheçamos um modelo de negócios para fazer comida que envenena as pessoas e não conheçamos um bom modelo de negócios para fazer comida que não envenena as pessoas. É melhor fazer mais veneno ou menos comida? Sua pergunta deixa implícito que software é algo bom, mesmo que remova a liberdade. Eu não aceito isso.

O que um gestor de TI pode fazer para promover a causa do Software Livre?
Não usar software privativo que os coloque sob o poder de outros. Desenvolvedores de software privativo tratam os usuários como otários. Eles provém de um meio sem nenhuma vergonha. E não é apenas controle: software privativo é quase sempre cheio de malware. Eles fazem esses programas para te espionar, te limitar e nao permitir que você faça determinadas coisas com seu computador. Há dúzias de exemplos bem documentados em http://www.gnu.org/proprietary.

Hoje em dia temos todo o conhecimento do mundo na ponta de nossos dedos. Pode-se pensar que isso nos faria uma sociedade mais esclarecida, mas os Estados Unidos está mais polarizado agora do que durante a Guerra do Vietnam. Isso te surpreende?

Faz sentido quando você entende a forma como o sistema rastreia as pessoas está feito para coletar informações e organizá-las em bolhas onde elas, as pessoas, só veem aquilo com o qual elas concordam. Isso é o filtro bolha. Sistemas não deveriam poder rastrear as pessoas. Eu não me importo de pagar para fazer download de alguma coisa, desde que eu possa fazê-lo anonimamente. Não deveria haver restrições nem gestão de direitos digitais.

Fonte: http://siliconangle.com/blog/2016/04/28/gnu-founder-stallman-open-source-is-not-free-software/

Extraído de: http://www.anahuac.eu/osistas-rejeitam-a-filosofia-software-livre/

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