Reconhecer a possibilidade da mudança e entender que ela só é possível com organização coletiva: essa foi minha grande descoberta nesses seis anos


Gabriela Rodrigues

Eu não me aguento. Fazem alguns dias que tenho ouvido falar da profissão médica, da vida acadêmica e da FAMEMA. Essas coisas de formatura. Eu gostaria muito de achar tudo maravilhoso, concordar e verdadeiramente aplaudir. Seria mais fácil. E como seria! Mas simplesmente incomoda meus ouvidos, cutuca minha alma, irrita minha lucidez. Acho que não reconheci a medicina maravilhosa, enriquecedora, encantadora e engrandecedora da qual estão falando. Não me dei conta dessa faculdade acolhedora e cor-de-rosa de que tanto tenho ouvido dizer.

Na verdade, talvez sim, nos momentos iniciais da graduação, contaminada pelo deslumbre do “sonho realizado”. Mas parece que, num piscar de olhos, a gente acorda. E aí a medicina não é esse sonho. Não é uma profissão, por natureza, solidária, que nos permite ajudar o próximo – como eu acreditava – ou uma “carreira linda”, como dizem por aí. Primeiro, porque nada é “por natureza” coisa alguma. Segundo, porque concretamente a história é bem outra. Costumamos imaginar o dia-a-dia do médico de forma muito idealizada. Um sujeito de jaleco branco atrás da mesa de um consultório, examinando e investigando cautelosamente seu paciente ou algo semelhante ao que assistimos em “House” e “Grey’s Anatomy”.

Na prática, nossa função é conviver silenciosamente com um sistema de saúde extremamente precário. E ser resolutivo! Enviar o paciente de volta pra casa, pronto para seguir a vida sendo produtivo, esteja ele plenamente preparado para isso ou não. Nossa função é conformar-se com uma saúde que alguns podem pagar e outros não podem, orquestrada por quem está interessado em vendê-la – os planos de saúde e as indústrias farmacêuticas. Pasmem! Os empresários que mandam na saúde hoje estão muito mais preocupados com dinheiro do que com gente. E o profissional médico está ali para reproduzir esse modelo de saúde, prescrevendo medicamentos, gerando necessidades de consumo (através de um discurso que pressupõe uma vida saudável inviável para boa parte das pessoas) e seguindo protocolos, nada mais.

Já a educação superior, serve justamente para formar esses profissionais que o mercado tanto precisa. Afinal, quem você acha que nos prepara para esse modelo? Quem nos molda para ser o padrão que o negócio da saúde necessita? Não é tão difícil notar que desde de que entramos numa faculdade de medicina, é sistematicamente enfiado goela abaixo um arquétipo a ser seguido. De um lado, há a exaltação daquele discurso, que coloca a faculdade de medicina como um local que forma indivíduos “críticos” e “humanos” (ainda bem, né? Seria estranho formar alces e macacos), para no minuto seguinte menosprezar e isolar os alunos que ousam cobrar esse perfil.

Qualquer estudante de medicina que tenha tentado discutir no ambiente acadêmico, de forma decente, temas como “aborto”, “saúde pública”, “violência obstétrica”, “mercantilização da saúde”, etc. sabe exatamente o que acontece. Vira petista na certa. Daí pra pior. Nossos professores-doutores, os quais lecionam ou dirigem nossas instituições de ensino, fazem questão de enfatizar que isso “não tem nada a ver com medicina”. Inflamam a falácia da academia como ambiente democrático, para assumir postura reativa ou simplesmente mandar que “deixe o curso, caso não esteja satisfeito” logo em seguida.
E tolhendo os mais “bocudos” aqui e ali, a faculdade de medicina vai moldando seu estudante padrão-ouro. Aquele que não se preocupa com essas bobagens e “se esforça” para suprir as lacunas que o curso não oferece. Desde o primeiro ano, seja por mecanismos mais grosseiros ou mais sofisticados, ela vai recrutando reprodutores desse discurso. Para isso, ela conta com uma estrutura de poder enrijecida e alguns aparelhos ideológicos, que brotam do próprio corpo estudantil, e dão sustentação a essa estrutura. Sem falar do trote, um instrumento útil para bestializar e acostumar-nos à alienação e à esterilidade.

Dentro desse processo, o ápice da doutrinação se dá no internato. Lá nos hospitais, onde convivemos com os doutores em sua prática médica. Doutores que, passaram pelo mesmo sistema em sua vida acadêmica e, via de regra, seguiram o script preconizado. Então, somos “habituados” a assistir cenas grotescas e acreditar que é tudo normal, que está tudo bem. Discordar, quando não é um inconveniente, é um insulto, inclusive para boa parte de seus próprios colegas de turma. Fazer toque retal com 10 pessoas dentro do consultório? Tranquilo, tudo em nome do aprendizado! Recorte moral no momento de escolher tratamento? Normal, ninguém mandou beber! Laqueadura compulsória? Mas, também, pra que ter tanto filho?! Fazer julgamento do paciente pela aparência? Sei lá, ele tem uma cara de quem tem HIV!

Eu poderia ficar aqui citando exemplos infinitos de situações que a gente vê ou ouve por aí, situações que seriam obviamente inaceitáveis para qualquer pessoa, mas que para os doutores são corriqueiras e simplesmente “normais”. E passamos até a admirá-los, muitas vezes (muitas!), secundarizando essas questões. Afinal, “ele sabe muito”, “ele nos trata tãããão bem”. E, assim, multiplicam-se doutores todos os anos, profissionais médicos que veem seus pacientes como um desconforto em seu ambiente de trabalho, que são autoritários com os demais profissionais de saúde, machistas, homofóbicos, tem nojo de povo e atendem nos hospitais públicos como se estivessem fazendo um grande favor. Profissionais médicos que se utilizam do discurso da “precariedade do SUS” quando lhes é conveniente, mas ignoram ou ridicularizam aqueles que estão lutando para transformar a realidade. Isso porque acreditam que essa realidade não lhes pertence, estão só fazendo “uns biquinhos” nos serviços públicos para complementar a renda. Ou você acha que eles queriam lidar com “essa gente”?

Então, quer dizer que a “nata intelectual da sociedade” gosta de dar trote nos amiguinhos? Quer dizer que essa profissão linda e glamourosa pode ser cruel? Quer dizer que o que guia a prática médica “humanizada” não é o bem-estar dos pacientes, mas a prevenção de processos judiciais? Quer dizer que tem gente se formando pra ser assim? Obviamente, não podemos generalizar. Mas no geral sim, é isso mesmo.

O interessante é que isso as formaturas de medicina, com suas pompas, vestes brancas, estetos, brilhos e discurso meritocrático não dizem. Não dizem, também, que muitas pessoas, tão merecedoras quanto nós, ficam de fora. E eu não estou falando dos 200 e pouco por vaga que ultrapassamos no vestibular (isso é exaltado a todo momento). Estou falando daqueles que estão nas escolas públicas e sequer podem ousar um sonho como o nosso. A formatura esconde quem quer ser médico e não pode estudar num colégio voltado para vestibular, não pode pagar um cursinho, tampouco estudar, porque precisa trabalhar. Ela esconde as pessoas que passam por dificuldades financeiras durante o curso, que necessitam de auxílio e políticas de permanência estudantil. Esconde aqueles que não resistiram psicologicamente ao dia-a-dia perverso da profissão médica. Ela esconde quem não consegue pagar R$ 15.000 para participar da formatura, ou os pais que se endividaram para que seus filhos vivessem esse momento pelo qual se sacrificaram tanto. Ela esconde que esse valor é uma megalomania absurda, que se exclui gente desse momento porque “comer camarão no meu dia” é mais importante, e que nenhum outro curso normal comete essa insanidade. Ela esconde as deficiências e a precariedade das faculdades públicas e o fato de que quase a totalidade da turma está matriculada em cursinhos preparatórios para a residência. Ela classifica: vitoriosos e fracassados, fortes e fracos, da forma mais injusta e implacável possível.

Sabe, eu achei esse momento gostoso, achei bom dividir e viver esse fim ao lado de quem aprendi a amar nesses seis anos. Mas, ainda assim, fico pensando como as coisas poderiam ser mais leves e simples. E como não foi, gostaria de, pelo menos, ter ouvido algumas coisas nesse momento. Nada aberto, sabe? Constrange, desconforta, eu sei. Mas, pelo menos, algo que pincelasse essas contradições. Queria ouvir falar menos de méritos e mais de privilégios. Eu queria ouvir que vencer todos os paradigmas que a medicina enfrenta hoje, não é uma escolha pessoal. Queria ouvir que a “humanização”, somente no âmbito da relação médico-paciente, é muito limitada. É óbvio que todo médico deve, no mínimo, tratar seu paciente com respeito. Mas é humano oferecer toda a riqueza que a ciência e a tecnologia médicas produziram somente para quem pode pagar? Não cabe ao médico refletir sobre isso? Eu queria ouvir que não se trata de tornar-se humano, e que para isso não basta um conselho, um alerta, se trata de resgatar uma essência que já é nossa – um processo que não é individual, mas coletivo.

Eu queria ouvir que a empatia não parte de um insight iluminado de cada consciência, que ela só pode ser plena e não se confundir com caridade, a partir do reconhecimento de uma sociedade injusta, com valores subvertidos à lógica da mercadoria, onde poucos tem privilégios infinitos e muitos não tem acesso à dignidade. Eu queria ouvir que o médico, com todas as suas vantagens dentre tantas outras categorias profissionais, está muito mais próximo do seu paciente SUS e dos demais profissionais da saúde, do que daqueles que mandam nesse sistema. Queria ouvir que enquanto ficarmos presos ao desejo de nos tornarmos os últimos e nos distanciarmos dos primeiros, enquanto não reconhecermos que somos trabalhadores e acharmos que temos uma classe própria – a “classe médica”, jamais conseguiremos mudar o sentido da precarização crescente da nossa profissão e tratar nossos pacientes de forma integral e qualitativa. Eu queria ouvir que o destino de quase todos nós, depois de formados, é prestar serviços no SUS e que mesmo em nossos consultórios, enquanto houver planos de saúde, enquanto a ciência for guiada por empresas, não decidiremos sozinhos o cotidiano de nossa profissão. Eu queria ouvir, de forma um pouco mais responsável, falar da saúde pública não como um mal em si, mas inserida num cenário de submissão a interesses privados e contextualizada num sistema guiado pelo capital.

Mas dizer tudo isso não é uma escolha fácil. A coragem sempre tem um preço que nem todos estão dispostos a pagar. E nesses seis anos, posso dizer que escolher esse caminho teve um preço muito caro. Posso dizer com toda a tranquilidade, que durante minha vida acadêmica, conheci e frequentei diferentes mundos, fiz amigos de nichos distintos e tive a possibilidade de escolher o caminho que gostaria de trilhar. Escolhi não seguir o script, não por virtude, foi só o caminho que deu sentido as minhas inquietações e que trouxe paixão a minha vida. Vivi e me dediquei a FAMEMA de forma plena, e sofri muitas provações nesse processo. A cada posicionamento, o afastamento de “amigos” que achava que tinha, a estigmatização, o assédio moral, a exposição, o sentimento de abandono daqueles que via como meus parceiros, a decepção. Foi muito duro em alguns momentos andar pelos corredores da faculdade, entrar no hospital ou nos ambulatórios e ter que engolir a seco o conservadorismo alheio, ouvir que abuso força o aprendizado, perder pessoas que amava simplesmente porque eu estava sendo… eu mesma?, conviver com o sorriso amarelo e a falsidade dos meus próprios colegas de curso e professores, questionar se esse era realmente o meu espaço, sentir-me um incômodo, totalmente estranha a esse ambiente.

Quantas vezes fui pessoalmente desgastada, como se eu gostasse de aparecer ou como se isso me favorecesse de alguma forma. Só gostaria de dizer a quem propagou esse discursinho, que nada sabem da minha história de vida, das minhas ideias, e muito menos da minha militância, que vai para além da FAMEMA. Meus caros, lutar requer enfrentamento, exige embate, demanda quebra de silêncios. Ninguém transforma na base da conciliação ou da omissão. O problema é que, no geral, as pessoas estão mais acostumadas com a covardia do que com a contestação.

Foi por não escolher a covardia que, aqui, também despertei, iluminei minha essência, achei um sentido para ser médica. Entendi que se conformar com todas essas contradições ou simplesmente “fazer a minha parte” a mim não bastava. Compreendi que não cheguei aqui sozinha, por mérito próprio, mas que tive a sorte e o suporte necessários para isso. Conheci pessoas fortes, interessantes e cheias de vida, que me ajudaram a segurar a barra e a me manter sonhando. Convivi com professores e colegas que conseguiram resistir duramente e fazer a diferença, e admito que eles nem sempre seguiram o mesmo caminho que escolhi.Acima de tudo, aprendi que resistir de modo solitário é muito mais penoso e, de certa forma, frustrante. Reconhecer a possibilidade da mudança e entender que ela só é possível com organização coletiva: essa foi minha grande descoberta nesses seis anos.

Foi aí que o DACA entrou, uma entidade irreverente e de muita luta nos últimos anos. Foi lá que aprendi o fundamental que minha faculdade retaliou do currículo e das salas de aula, que instrumentalizei os sonhos que a vida quis me tirar, que entendi a importância de um ambiente verdadeiramente democrático, livre e o valor inestimável da construção coletiva. Foi no DACA que reconheci que a medicina é sim, sem falsas idealizações, potencialmente transformadora e gratificante, entendi a importância estratégica de estar inserido na área da saúde quando se luta pela mudança social, e que sem essa mudança jamais será possível exercer a medicina que sonhei. E entendi que, como médica, também é minha função lutar por isso. O DACA foi um divisor de águas, porque me tornou uma militante da saúde, não uma doutora.
Com meus erros e acertos, e apesar de tudo e de muitos por aí, não me arrependo de nada do que fiz. Pelo contrário, tenho muito orgulho das minhas escolhas, da trajetória que tracei, junto de pessoas incríveis e corajosas, que comigo construíram uma história que não é só uma história pessoal, mas concreta, com vitórias e avanços que independem da minha memória. Não foi fácil, mas foi decisivo, foi fundamental. Saio daqui com o coração cheio de gratidão. Também chorosa e saudosa por deixar essa etapa tão importante da minha vida, mas firme para continuar uma luta que apenas começou

Àqueles que foram meus exemplos de luta, minhas referências, Dani, Jiraya, Pocho, Tcherbo, Photo, Murilo, Bela, Zé, Caio, Du e Calor. Muito obrigada!

Àqueles que entraram nessa batalha comigo e me fizeram sentir uma espécie de aconchego quando me via tão sozinha, André Cardoso, Bruno De Souza Mendes, Grazi Casteluci, Hamilton Junior, Natália Canevassi, Paulo Henrique Viçoti, Thuanny Calado, Thiago Tavares, Jan Pagenotto Sukorski. Muito obrigada!

Àqueles que foram meus parceiros em tudo, no amor, na dor e quando ninguém mais resistiu. Sarah Bortolucci, Miriane Borges Marques e Lucas Lima. Muito obrigada! Eu jamais teria conseguido chegar até o fim sem vocês.

Aos meus camaradas, no sentido mais genuíno da palavra. Iago, Ingrid, Finazzi, Mãe, Léo, Gandolphi, Mateus, Yvana, Bianca, Deo, Fran, Dexter, Dorfo, Gaucho, Jana, Lara, Rô, Fran, Ana Karen, Baiano, Cotô, João, Mingué, Papaya, Boina, Danilo Martins, Carlos Alexandre Smaga, Natalia T. Henke e tantos outros, que militaram comigo na DENEM. Muito obrigada!

Aos melhores companheiros dessa vida, pela paciência, por terem me ouvido, ensinado, encorajado e amado incondicionalmente. Maria Do Carmo Oliveira e Luís Fernandes. Muito obrigada! Por existirem!

A vocês, que trilharam caminhos tão distintos do meu, mas que nunca abandonaram nem a mim e nem à essência e sensibilidade que faz de vocês grandes mulheres. Bruna Silva e Marilia Albanezi Bertolazzi. Muito obrigada! Pela amizade, pelo colo, pelas risadas, pelo calor!

A vocês, e principalmente a vocês, gente bonita e cheia de energia que fica, espero ter sido uma amostra de força e inspiração, Andressa Fragoso, Bárbara Pupo, Beatriz Castro Souza Capelanes, Brenda Kalinsqui, Caio Tonholo, Daniele G. Mansano, Danielle Cidrão, Eduarda Menegaço, Gabriella Gomes, Gustavo Souza Fernandes, Henrique Bassin, Isabela Bertolino, Jaqueline Gutierres, João Marcos Franco, Larissa Pedroso, Lena Passos Ferreira, Letícia Baptistine, Leticia Garcia, Lucas Fadel Camargo, Lucas Makarausky, Luiz Pereira, Fabiano Kenzo Nagata, Marcel Leite, Mariana Panizza, Marina Nahas Mega, Mireli Galvani, Patrícia Hirata, Paula Nakazato, Paulo G B Carvalho, Pedro Carlstron, Pedro Passaglia Neto e Valdir. Muito obrigada! Partir sabendo que vocês ficam enche de paz esse coração. Espero vocês lá fora!

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