NUNCA LEIA OS COMENTÁRIOS”: ENTRE O SADISMO E A IDOLATRIA


Thiago Araújo, militante da Célula de Direitos Humanos do PCB-RJ

A madrugada de quinta-feira trouxe consigo a notícia do falecimento de Dona Marisa Letícia Lula da Silva (1950-2017), companheira do ex-Presidente Lula. Quando ainda um adolescente, pude observar o impacto da candidatura de Lula e de sua vitória nas urnas para a conjuntura política, mesmo que ainda não conseguisse compreendê-la com a devida maturidade, marcada pela temperança. Para além do fato de Lula ter sido o presidente com a maior legitimidade da história nacional, tendo ampla aprovação e capitaneando reformas importantes para os estratos mais miseráveis da população brasileira, os processos de conciliação de classes que ocasionaram seu êxito são rigorosamente os mesmos que redundaram em sua queda.

Todavia, não se pode confundir conciliação de classes e aceitação com lealdade – algo que o ex-presidente não conseguiu compreender, expressando, em diversas ocasiões, o fato de ter se sentido traído por aqueles que tanto ajudou. Para os trabalhadores daquele tempo, um sindicalista chegara ao cargo mais alto da República, trazendo consigo aquela que tinha sido sua companheira desde 1974 – uma vitória repleta de esperanças para o futuro. A burguesia é capaz de tolerar tal fato, mas jamais será bem-sucedida em ocultar seus preconceitos de classe: um “matuto, beberrão e analfabeto” e sua esposa “jeca” seriam atacados diuturnamente, expondo os efeitos deletérios de um país em que vige a pequena política.

O circuito iniciado com o Escândalo do Mensalão (2005-2006) encontra seu ápice na Operação Lava Jato (2014 – ) e apresenta uma nova conjuntura, extremamente contraditória e, por vezes, dificílima de acompanhar. Se no início a questão era produzir as condições necessárias para um amplo processo de privatizações (tendo, na Petrobrás, o seu alvo principal) e desmantelamento de leis trabalhistas, o avançar dos processos demonstrou um potencial muito mais amplo, sedimentando um preconceito que iguala todos os partidos e movimentos sociais de estandarte vermelho à desonestidade, incompetência e vilania.

A morte de Dona Marisa demonstra claramente o caráter apático em que se encontra a conjuntura atual. Se, de um lado, encontramos uma direita amesquinhada e reacionária que, perdendo a vergonha em expressar o seu sadismo, faz troça e festeja o falecimento da esposa de Lula (do mesmo modo que fez com os criminalizados de Manaus e que faz com tantos outros que expressam uma posição ou consciência de classe antagônica), de outro lado, há uma esquerda desorganizada que decidiu erigir Lula e Dilma à categoria de ícones, desconsiderando seus erros, fraquezas e limitações, proclamando seus acertos (aferíveis e perceptíveis, mas, ainda assim, perfeitamente toleráveis ao Capital) como a construção do socialismo – e ainda há quem defenda isto!

Todavia, há algo que também é digno de nota: o triste falecimento também traz consigo as marcas do sofrimento inquisitorial característico da verdadeira caçada que se iniciou contra o ex-presidente e toda a sua família. Os processos políticos que temos observado configuram um novo cenário, marcado pela completa destruição das bases democráticas (burguesas) do direito penal e processual penal, elegendo inimigos públicos e despejando sobre eles, com a ajuda das agências midiáticas, o poder punitivo. São tempos em que o direito penal dos fatos dá lugar, novamente, ao direito penal do autor – algo que expressa, também, o continuísmo e responsabilidade dos governos petistas, que se acovardaram ou negligenciaram o Leviatã que expandiram.

É dever da esquerda se reorganizar, demonstrando que seu compromisso não é com a conciliação de classes, mas com uma massa de proletários ampla, diversificada e desorganizada. Devemos demonstrar que somos bastante diferentes daqueles que ocuparam a presidência nos últimos anos, lutando contra o recrudescimento das direitas (consolidado pelo processo de impeachment), construindo um projeto de mundo radicalmente diferente deste: construindo o Poder Popular.

Como comunista, me solidarizo com o sofrimento decorrente da morte de uma pessoa, mas trata-se apenas disto: faleceu uma mulher de carne e osso, que tinha filhos, amigos e companheiro. Não faleceu uma companheira e, muito menos, uma camarada.

https://pcb.org.br/portal2/13445

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