(Parcialmente) paramos o país! Mas e agora?


Por Hugo Scabello*

15 de março: dia nacional de lutas e paralisações

Convocado inicialmente pelas centrais sindicais e pelas frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular, mas efetivamente construído por quase todo o conjunto da esquerda, o dia nacional de lutas contra a reforma da previdência e a trabalhista acabou por extrapolar o campo democrático-popular, que orbita ao redor do petismo e do lulismo. Diferente dos atos nacionais de 2016 pela manutenção de Dilma na presidência, no 15 de março diversas categorias aderiram à paralisação, e as manifestações de rua tiveram uma composição mais ampla. Não há exagero em afirmar que este foi o maior dia de paralisações e lutas dos últimos anos – superando bastante o dia nacional de luta contra a PL da terceirização de 2015.

O que melhor explica este salto qualitativo e quantitativo é, certamente, a grande adesão popular à pauta da previdência. Diferente dos atos contra o impedimento – que não tinham, de fato, nenhum conteúdo de defesa das condições de vida dos trabalhadores brasileiros, mas, sim, a manutenção no poder de uma presidenta que já vinha paulatinamente atacando nossos empregos, salários e direitos[1] – o projeto de destruição da aposentadoria pública e da CLT são ataques frontais e demasiadamente evidentes ao conjunto de nossa classe e povo. Sem dúvidas, os interesses materiais de nossa classe pesam mais e são também mais imediatos que a manutenção de um grupo ou outro na gestão do desmoralizado Estado democrático brasileiro. Mesmo sindicatos e centrais diretamente ligados aos grandes empresários e seus interesses – como a Força Sindical e a Nova Central – aderiram ao 15 de março, dando assim, alguma resposta à insatisfação das bases de trabalhadores das categorias que dirigem.

A adesão popular pôde, também, ser aferida na simpatia que a massa vem demonstrando durante as panfletagens sobre o tema, assim como no apoio à paralisação de ônibus e metrô. Diferente de outros dias de paralisação nos serviços de transporte, não houve tensões entre os grevistas e o povo, pelo contrário, diversas manifestações de apoio foram registradas. Em São Paulo, por exemplo, trabalhadores metroviários chegaram a ser aplaudidos por pararem os trens em defesa da aposentadoria de todos.

Em resumo, temos diante de nós uma oportunidade histórica para organizar e mobilizar os trabalhadores brasileiros numa luta direta em defesa de nossas condições de vida. A possibilidade de derrotar o governo Temer e suas contrarreformas está colocada.

Mas e agora?

No dia 15 de março, o país foi sacudido. Entretanto, é patente o estranho clima de normalidade que voltou a reinar já a partir do dia seguinte. Mesmo todas as forças políticas sabendo que não bastaria um único dia de luta para derrotar Temer e seus brutais ataques, não havia (e não há) séria perspectiva organizada de continuidade na luta. Não temos e não tivemos novos atos marcados para os dias seguintes. Excetuando as categorias em greve, em geral por questões de suas próprias categorias, não há horizonte de novas paralisações.

Ainda que seja verdade que, logo após o 15 de março, alguns políticos ligados ao governo federal começaram a dar sinais de recuo no projeto da previdência, é necessário olharmos essa movimentação com certo ceticismo. Isto pois, dada a própria lógica de negociação política na democracia capitalista, algum recuo já era previsível. A prática padrão, tanto do congresso quanto nos dissídios trabalhistas, é sempre iniciar com uma proposta extremamente rebaixada e absurda, para, num segundo momento, dar uma leve melhorada. Devemos ter como objetivo, nesse momento, a derrota total das contrarreformas, não a aprovação de uma proposta ainda péssima, mas um pouco menos pior.

São estes dois pontos – não reduzir a luta a manifestações pontuais e esporádicas, e ter como horizonte a retirada completa das contrarreformas – que inicialmente nos indicam a necessidade de travar este combate de maneira mais séria e consequente do que a direção hegemônica, vinculada ao campo democrático-popular, parece disposta a fazer.

Unidade, sim! Submissão, não!

Devemos, é claro, nos somar às paralisações e manifestações convocadas pelo campo democrático-popular. A unidade na ação é fundamental para a vitória de nossa classe e povo. Entretanto, não devemos confundir unidade com submissão. Fazer unidade não pode significar nos tornarmos uma retaguarda acrítica, tampouco limitar nossas iniciativas e ações.

É evidente que a prioridade da direção petista, assim como dos grupos que orbitam ao seu redor, é desgastar ao máximo o governo Temer e alavancar uma candidatura para 2018, retornando assim ao valioso aparato do estado democrático capitalista (fonte gigantesca de cargos e recursos). As contrarreformas – tanto a da previdência, quanto a trabalhista, ou mesmo a da terceirização – estavam todas na agenda do antigo governo petista. Sabendo disso, podemos compreender por que estes setores encaminham a luta para grandes manifestações pontuais e estacionárias, no lugar de manifestações frequentes e combativas, que tomem e se movimentem pelas avenidas centrais das grandes cidades do país. Manifestações estáticas e esporádicas mais facilmente se tornam palanques e, assim, servem para alavancar possíveis candidatos para a disputa eleitoral vindoura – como em parte aconteceu em São Paulo com a participação de Lula.

Por uma frente classista e combativa em defesa da aposentadoria e da CLT

A fim de superarmos as limitações da hegemônica direção petista na luta para derrotar as contrarreformas de Temer, acredito que – além de intensificarmos a militância e a organização nos locais de trabalho e nos sindicatos, e não omitirmos as corretas críticas – é importante pensarmos na costura de um fórum de frente única específica em defesa da aposentadoria e da CLT. Um espaço que congregue todas as forças dispostas a organizar essa luta desde baixo – não exclusivamente pelas cúpulas das centrais sindicais e movimentos populares – mas também que tenha como foco e objetivo a organização e execução de ações políticas – em especial manifestações de rua frequentes e combativas. Somente assim, teremos a chance de conseguir superar os entraves colocados pela direção petista, e darmos o salto qualitativo necessário para luta e organização de nossa classe e povo.

Como nos ensina nosso antigo hino: “Para não ter protestos vãos / Para sair desse antro estreito / Façamos nós por nossas mãos /Tudo o que a nós diz respeito!”.

*Hugo Scabello é metroviário e militante do PCB em São Paulo


1. Nunca é demais lembrar que Dilma também intentava a aprovação de uma contrarreforma na previdência.

https://pcb.org.br/portal2/13923

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